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Ciro Nogueira busca apoio de Lula no Piauí e oferece afastar o PP de Flávio Bolsonaro

O presidente e o ex-ministro de Bolsonaro discutiram uma articulação eleitoral para o Senado, com possível neutralidade do PP na disputa presidencial

Ciro Nogueira e Lula (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado | Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)

247 - O presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), procurou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na antevéspera do Natal para discutir uma possível reaproximação política e negociar um acordo eleitoral no Piauí, estado governado pelo PT. O encontro ocorreu no dia 23 de dezembro, na Granja do Torto, em Brasília, e teve a participação do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), apontado como articulador da conversa, segundo a Folha de São Paulo.

Segundo relatos de participantes e de políticos envolvidos nas tratativas, a reunião — descrita como cordial — não foi registrada na agenda oficial de Lula e teria como objetivo reduzir tensões entre o presidente e o ex-ministro da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro (PL). Ao final, de acordo com cinco pessoas ouvidas pela reportagem, Lula e Ciro chegaram a trocar gestos de afeto e sinalizações de reconciliação.

A movimentação teria sido motivada principalmente pela disputa ao Senado em 2026. Ciro Nogueira busca renovar seu mandato e tenta construir um cenário eleitoral que reduza obstáculos no estado, onde o PT mantém forte influência e onde haverá duas vagas em disputa. A proposta em negociação, conforme os relatos, envolveria o compromisso de Lula em apoiar enfaticamente apenas um candidato ao Senado: o senador Marcelo Castro (MDB). Com isso, a reeleição de Ciro ficaria mais viável, já que a segunda vaga poderia ser disputada com menos interferência direta do Planalto.

Um aliado de Nogueira confirmou o encontro e afirmou que o senador pretende que o governo federal e o PT não atrapalhem sua candidatura no Piauí. Em contrapartida, segundo essa versão, o presidente do PP sinalizaria neutralidade do partido na corrida presidencial, evitando uma aliança formal com o pré-candidato do PL, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), adversário direto de Lula. Conforme a apuração, essa neutralidade seria uma forma de reduzir o alinhamento do PP ao bolsonarismo em nível nacional.

A articulação ocorre em meio ao avanço da federação partidária formada entre PP e União Brasil, batizada de União Progressista. Caso seja oficialmente reconhecida pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), a federação se tornará a maior bancada da Câmara dos Deputados e obrigará os partidos a atuarem conjuntamente nas eleições nacionais. Ciro Nogueira é apontado como um dos principais líderes desse movimento.

De acordo com os relatos, durante a conversa com Lula, o senador destacou sua proximidade com Hugo Motta, chegando a descrevê-lo como uma espécie de filho político. Também teria afirmado que manteve lealdade a Bolsonaro até o fim, mas que foi um dos primeiros a reconhecer publicamente a vitória de Lula em 2022, em um momento em que setores do bolsonarismo resistiam a admitir a derrota.

Aliados do presidente relataram que Lula demonstra simpatia pela proposta e que considera Ciro Nogueira uma figura com quem mantém boa relação pessoal. Um interlocutor do presidente, favorável ao acordo, afirmou que Lula “gosta de Nogueira”, segundo a reportagem.

Apesar disso, o movimento é considerado delicado. Ainda segundo a apuração, Ciro demonstrou preocupação com o risco de vazamento da reunião e, procurado pelo jornal, chegou a negar que tenha conversado com Lula. Mesmo assim, aliados do senador confirmaram que ele vem intensificando articulações políticas de olho nas eleições.

A reaproximação entre Lula e Ciro Nogueira tende a gerar forte resistência dentro do PT no Piauí, onde o senador é visto como um aliado que rompeu compromissos anteriores. Segundo a reportagem, o governador Rafael Fonteles (PT), que deve buscar a reeleição, e o ministro Wellington Dias (Desenvolvimento Social) ainda não teriam sido informados sobre o encontro.

O presidente estadual do PT no Piauí, Fábio Novo, afirmou desconhecer a conversa, mas fez críticas ao histórico de Ciro com o partido. “Não temos o direito de errar uma terceira vez”, disse.

A possibilidade de acordo também esbarra em articulações já existentes no estado. O PT costura uma chapa que inclui o deputado Júlio César (PSD) como pré-candidato ao Senado. Uma mudança nesse arranjo poderia desagradar o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, com quem Lula busca manter boa relação.

O cenário eleitoral no Piauí favorece candidatos com apoio oficial do Planalto. Em 2022, Lula obteve 76,8% dos votos válidos no segundo turno contra Bolsonaro no estado. Ainda assim, aliados do presidente reconhecem que Ciro mantém influência local significativa, com apoio de diversos prefeitos — inclusive petistas. Um exemplo citado pela reportagem é o prefeito de Cajueiro da Praia (PI), Felipe Ribeiro (PT), que declarou apoio ao senador.

Ciro Nogueira está em seu segundo mandato no Senado. Em 2018, foi eleito com apoio do PT e de Lula, fazendo campanha ao lado de Fernando Haddad, que também venceu Bolsonaro no Piauí naquele ano. Na eleição, Ciro recebeu 29,8% dos votos e foi o senador mais votado, enquanto Marcelo Castro ficou com a segunda vaga, com 27,1%.

Após a derrota do PT na disputa presidencial de 2018, porém, Ciro se aproximou do bolsonarismo e assumiu a Casa Civil em julho de 2021, conduzindo o PP para uma posição alinhada ao governo Bolsonaro. Mesmo após Bolsonaro deixar o Planalto, o senador manteve o partido próximo ao ex-presidente e chegou a defender a candidatura do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) à Presidência.

Com Tarcísio decidido a permanecer em São Paulo, Ciro agora avalia como lidar com o nome indicado por Bolsonaro para 2026: Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro. Segundo aliados citados pela reportagem, o presidente do PP chegou a cogitar ser vice de Tarcísio e também foi lembrado como possível vice de Flávio, mas essa possibilidade teria perdido força.

A reportagem aponta ainda que, diante das divisões internas do partido — que inclui uma ala simpática ao governo Lula e até um ministro — o PP pode optar por não apoiar formalmente o filho de Bolsonaro e liberar seus filiados para se posicionarem livremente na eleição presidencial.

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