Lula e PT apostam em agenda antissistema para 2026, diz Edinho Silva
Em Salvador, dirigentes do PT analisam crise global, avanço da extrema direita e defendem projeto de combate à desigualdade e à escala 6×1
247 - O PT celebrou seus 46 anos com um debate político em Salvador, reunindo lideranças como o presidente nacional da sigla, Edinho Silva, e o ex-ministro José Dirceu, em uma mesa dedicada à discussão da estratégia eleitoral e do projeto de país para os próximos anos. O encontro, marcado por críticas ao modelo econômico vigente e alertas sobre a conjuntura internacional, reforçou o discurso de que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) representa uma alternativa “antissistema” diante do avanço de forças autoritárias no mundo.
Durante a abertura do painel “Rumos do Brasil: Estratégia e Projeto de País”, na quinta-feira (5), Edinho Silva afirmou que o mundo atravessa um processo de desgaste profundo do capitalismo liberal, iniciado com a crise financeira de 2008, e que essa deterioração influencia diretamente o cenário político e eleitoral. “O mundo está mais pobre, a economia [global] não cresce de forma sustentável. A dinâmica da economia mundial é de recessão”, declarou. Para ele, esse contexto favorece a ascensão de nacionalismos autoritários e a radicalização política.
Edinho também destacou que, apesar de considerar o atual mandato de Lula como o mais eficiente entre os governos petistas, os resultados econômicos e sociais não foram suficientes para reduzir o ambiente de polarização. Segundo ele, a disputa política atual não se resume a entregas administrativas, mas é impulsionada principalmente por emoções e frustrações coletivas. “Porque não é só a entrega que move a opinião pública, seja mundial, da América do Sul ou brasileira. A opinião pública hoje se move por sentimentos”, afirmou.
Na avaliação do presidente do PT, o partido precisa enfrentar o sentimento crescente de desconfiança na democracia representativa, que se espalha pelo Brasil e pelo mundo. “Temos que enfrentar esse sentimento de decepção com a democracia representativa. A sociedade vai para as urnas, vota, vota, mas a vida não muda, as expectativas não são supridas”, disse Edinho, apontando que esse fenômeno tem sido apropriado pela direita e pela extrema direita.
O dirigente defendeu que a estratégia petista para 2026 deve combinar a valorização do legado histórico do partido com uma resposta clara às insatisfações sociais. Ele lembrou que o PT foi o único partido brasileiro a vencer cinco eleições presidenciais e sustentou que a legenda mantém uma identidade de enfrentamento ao modelo econômico dominante. O PT, disse ele, é “o partido que não aceita o sistema que está aí”. E completou: “O sistema que está aí não é nossa responsabilidade. Nós não defendemos esse modelo de produção de riqueza e de acumulação de riqueza".
Edinho citou como exemplo de enfrentamento ao sistema propostas defendidas pelo governo Lula, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e a cobrança de tributos sobre os mais ricos. Também mencionou bandeiras como o fim da escala de trabalho 6×1 e a defesa de tarifa zero no transporte público. “É o governo do antissistema”, afirmou. Na mesma linha, reforçou a centralidade do presidente Lula como liderança capaz de mobilizar esse sentimento social. “Lula é a única liderança hoje capaz de expressar um sentimento antissistema por meio da transformação”, declarou.
Para Edinho Silva, uma eventual reeleição de Lula em 2026 teria significado internacional, funcionando como demonstração de que o Brasil derrotou o fascismo e a extrema direita. O dirigente apontou que o mundo vive um período de crescimento de forças autoritárias, citando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como referência do fenômeno. Segundo ele, há uma “ascensão do fascismo mundial, caracterizado pelo pensamento autoritário, a não aceitação dos diferentes, a perseguição de imigrantes”, mencionando ações do ICE (Immigration and Customs Enforcement) contra cidadãos não naturalizados.
O presidente do PT alertou ainda para o avanço de valores xenófobos e nacionalistas também na América Latina, impulsionados por uma sensação generalizada de injustiça social. Edinho descreveu que o agravamento da precarização do trabalho e a concentração de privilégios em uma pequena parcela da sociedade contribuem para uma percepção de falência do sistema político. “A percepção do mundo de que o modelo de organização politica não responde mais às necessidades da sociedade é que gera um sentimento antissistema”, concluiu.
Segundo ele, o desafio central do campo progressista é que esse sentimento foi capturado por forças conservadoras. “A encruzilhada”, afirmou, é que a direita e a extrema direita passaram a se apropriar desse discurso, criando uma nova dinâmica eleitoral que exige reposicionamento estratégico do PT.
José Dirceu defende projeto nacional contra desigualdade e miséria
O ex-ministro José Dirceu, que participou do debate e atua na formulação do novo programa partidário a ser apresentado no 8º Congresso Nacional do PT, previsto para abril, também reforçou a necessidade de clareza política sobre o projeto histórico da legenda. Para ele, desde a República Velha o país tem sido conduzido pelos interesses da elite econômica. “Nós não somos a classe dominante. Somos a representação da classe trabalhadora brasileira”, afirmou.
Dirceu defendeu que o PT apresente ao eleitorado uma agenda explícita de transformação social, voltada para o combate estrutural à desigualdade, à pobreza e à miséria. Ele mencionou ainda a necessidade de um novo desenvolvimento industrial, além de reformas consideradas centrais para o partido, como mudanças no sistema tributário e o fim da jornada de trabalho 6×1.
Benedita compara mobilização política ao Carnaval e convoca militância
O encontro contou também com a presença da deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), pré-candidata ao Senado, que defendeu que o partido dialogue com o sentimento popular e intensifique a mobilização militante. Em uma fala que arrancou aplausos, Benedita usou metáforas ligadas ao Carnaval para cobrar compromisso com a disputa política. “Se não sabe sambar, não entra. Se for para atrapalhar, sua escola perde ponto e não vai vencer. O PT é o nosso carnaval, é a nossa escola, é o nosso futebol. E faz parte das nossas religiões”, afirmou.
Helder Salomão pede enfrentamento permanente à extrema direita
Pré-candidato do PT ao governo do Espírito Santo, o deputado federal Helder Salomão também participou da mesa e defendeu que o combate ao avanço da extrema direita não pode se restringir ao calendário eleitoral. Segundo ele, é necessário que o partido mantenha uma atuação contínua de formação política e convencimento social. Para Salomão, a estratégia para 2026 deve incluir alianças sólidas nos estados e empenho nacional nas disputas para o Senado. “Nossos melhores quadros têm que colocar seus nomes à disposição para disputar um projeto de nação”, afirmou.
O debate foi mediado pela secretária nacional de Finanças e Planejamento do PT, Gleide Andrade, e integrou a programação de aniversário do partido, que reuniu dirigentes e militantes para discutir os rumos do Brasil diante de um cenário global marcado por crise econômica, tensões políticas e reorganização das forças ideológicas.


