Uczai, novo líder do PT, vê centrão mais perto da reeleição de Lula
“Sem Tarcísio, Centrão fica mais aberto ao diálogo”, diz ele
247 – O novo líder do PT na Câmara, deputado Pedro Uczai (SC), avalia que o cenário político no Congresso ficou mais favorável ao governo em 2026, especialmente com a provável saída do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, da corrida presidencial. Em entrevista ao Valor, o parlamentar afirmou que, “sem ele”, o Centrão tende a ficar mais disponível para negociações, o que pode influenciar votações decisivas neste ano eleitoral.
Uczai relatou que assumiu a liderança em meio a pautas sensíveis, como a redução da jornada 6x1, a preservação do veto do presidente Lula ao projeto que reduz penas de condenados por tentativa de golpe e a disputa sobre reajustes e penduricalhos no Legislativo. Ele também disse que o PT é favorável a investigações e apoiará iniciativas de CPI e CPMI relacionadas ao caso do Banco Master, defendendo apuração “muito séria e sem pré-julgamento”.
Empresários buscando o PT e a viagem de Lula aos EUA
O novo líder petista contou que recebeu a reportagem durante uma reunião virtual com empresários do setor madeireiro de Santa Catarina afetados pelo tarifaço aplicado pelos Estados Unidos em 2025. Com a produção fortemente comprometida, os empresários pediam um apelo ao presidente Lula, que viajará em março a Washington para se reunir com Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos.
Uczai destacou o contraste político de representar a esquerda em um dos estados mais alinhados ao bolsonarismo e, ao mesmo tempo, ser procurado por exportadores tradicionais. “O pessoal do setor empresarial falando com o líder do PT, pedindo socorro. Tem empresa que há 40 anos exporta 100% para os Estados Unidos”, afirmou.
Na leitura do deputado, esse tipo de movimento reforça que o governo “acertou” ao encarar disputas de narrativa e agenda. Ele sustenta que temas como tributação, política externa e medidas fiscais ganharam centralidade, e avaliou que parte do empresariado passou a pressionar diretamente o Congresso e o Executivo diante do novo ambiente internacional.
Congresso, reajustes e o combate ao “extrateto”
Logo no início de sua liderança, a Câmara aprovou um programa federal de ampliação do acesso ao gás de cozinha para a população de baixa renda, mas a pauta acabou ofuscada pela polêmica em torno de reajustes e benefícios para servidores da Casa. Uczai disse apoiar reajuste, mas fez questão de separar o aumento salarial do que chama de “extrateto”, isto é, a soma de benefícios que ultrapassa o teto constitucional.
O deputado afirmou que o governo não teria sido consultado sobre o “extrateto”, embora, na sua visão, reajustes sejam necessários para evitar instabilidade e desigualdade entre os Poderes. “Eu defendo que tem que ter [reajuste]. O Senado teve 8%. Se você não dá aqui na Câmara, cria instabilidade, insegurança”, declarou.
Ao mesmo tempo, Uczai reforçou ser contrário a supersalários e disse ter projeto para enfrentar privilégios. Para ele, o problema é quando, em vez de discutir remuneração com transparência, o sistema empilha auxílios. “Em vez de discutir os salários, cria-se penduricalho: auxílio-moradia, auxílio-alimentação, auxílio disso, auxílio daquilo”, disse, defendendo um modelo mais direto, com salário e pagamento das próprias despesas, sem “monte de benefício”.
Jornada 6x1 e o veto de Lula sobre tentativa de golpe
Entre as “missões” centrais do PT em 2026, Uczai apontou duas frentes: avançar na redução da jornada 6x1 e preservar o veto de Lula ao projeto que reduz penas de condenados por tentativa de golpe. No caso do veto, ele disse que pretende buscar entre 40 e 50 votos no Centrão para sustentar a decisão presidencial.
O deputado relatou ainda que teve uma conversa “tranquila” com Lula após assumir a liderança e que o presidente pediu que os dois passem a conversar semanalmente, para acompanhar o trabalho no Congresso.
Sobre a redução da jornada, Uczai argumentou que o tema já ganhou dimensão social e até produtiva. “Vivemos na sociedade do cansaço. Os próprios setores produtivos estão percebendo”, afirmou, citando como exemplo que produtividade e qualidade de vida podem caminhar juntas, e defendendo a apresentação de um projeto do Executivo com urgência constitucional.
Na sua proposta, a transição poderia ser negociada por etapas, com redução gradual da carga semanal. Ele disse que é possível construir uma síntese das propostas já existentes e estabelecer um cronograma progressivo, com debate político e social estruturado, em vez de uma ruptura desorganizada.
“Sem Tarcísio, Centrão fica mais aberto ao diálogo”
Uczai avalia que a correlação de forças no Congresso tende a mudar com a provável saída de Tarcísio do tabuleiro presidencial. Para ele, isso abre espaço para que partidos do Centrão atuem com mais liberdade de negociação.
“Mudou bastante. Sem ele, o Centrão fica mais aberto ao diálogo. Os partidos ficam mais livres para conversar com diferentes setores. Isso muda a correlação de forças no Congresso”, disse.
Essa possível reacomodação, na visão do petista, pode ser decisiva em votações onde o governo depende de uma margem apertada. Entre elas, além do veto de Lula, está a tentativa de recuperar pontos do texto original da proposta de emenda à Constituição da segurança pública, alterado pelo relator Mendonça Filho (União-PE).
Uczai também avaliou que a relação com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), está melhor do que no período anterior, marcado por tensão pública entre Motta e o então líder Lindbergh Farias (PT-RJ). Embora tenha um estilo menos incisivo, o novo líder disse que irá ao embate quando necessário.
CPIs do Banco Master e a pressão social como motor
Questionado sobre as iniciativas de investigação do caso Banco Master, Uczai afirmou que o PT defende apuração por órgãos de Estado e também dará apoio a frentes parlamentares. “Defendemos a investigação. Da Polícia Federal e do Banco Central”, disse. Segundo ele, o partido apoiará a CPI proposta por Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) e a CPMI articulada por Fernanda Melchionna (Psol-RS).
Para Uczai, porém, a efetivação de CPIs depende mais de ambiente político e mobilização social do que de negociações internas. “Depende muito mais da conjuntura e da pressão social do que do Congresso”, afirmou, argumentando que, em temas sensíveis, o Legislativo tende a reagir à opinião pública.
Segurança pública: integração nacional e resistência da extrema-direita
Na pauta da segurança pública, Uczai disse que participou de debates recentes e que houve interlocução entre o ministro da Justiça e o relator da PEC. Ele afirmou que existem pontos “centrais” dos quais o governo não abre mão, com foco numa política integrada e nacional, capaz de enfrentar crime organizado e narcotráfico com compartilhamento de tecnologia, informações e operações.
Uczai avaliou que a Polícia Federal já atua, mas “de forma insuficiente”, e defendeu uma PF mais estruturada, presente em todo o país e apta a liderar um sistema único de segurança pública articulado com estados e municípios. Ele também afirmou que há resistência, especialmente da extrema-direita, e que a disputa central é sobre o grau de integração: de um lado, uma coordenação robusta; de outro, um modelo fragmentado.
Por fim, ao tratar do projeto de lei antifacção que voltou do Senado com alterações, Uczai disse que o texto anterior apresentava problemas técnicos e que a reação social ajudou a “corrigir o rumo do debate”. Para ele, a versão que retornou do Senado está em condições de votação e deve trancar a pauta nas próximas semanas.


