A ruptura de Lula com o STF agrava as condições da luta política
Não é nada banal a fissura nessa aliança fundamental que serviu de eixo condutor e organizador dessa conjuntura de combate ao golpismo
O fascismo e a mídia neoliberal conseguiram colocar uma cunha entre a maioria garantista do Supremo Tribunal Federal e Lula. Para isso tiveram a colaboração ativa do presidente e de seu entorno no Planalto. É o que ficou ainda mais evidente nos alinhamentos que emergiram da rejeição a Jorge Messias.
Não é nada banal a fissura nessa aliança fundamental que serviu de eixo condutor e organizador dessa conjuntura de combate ao golpismo desde quando o presidente Lula ainda estava na cadeia em Curitiba.
Separar a cabeça democrática do Judiciário de sua colaboração tão produtiva com Lula, e para Lula, materializa o mundo do sonho dos fascistas e da direita. Não à toa, o cisma tem sido efusivamente celebrado na mídia neoliberal, que não consegue conter seu gozo.
Sobre o episódio há alguns aprendizados a colher. Não se abandonam aliados em momentos de dificuldades. Isso não tem nada a ver com eleição e transcende conjunturas. É questão de princípio.
A opção pode ser calar-se, mas jamais agravar de público a situação já difícil em que seu aliado tácito, Alexandre de Morees, se encontra. Pior ainda do que lavar as mãos é expô-lo ainda mais, dar razão aos inimigos mal-intencionados.
Agora o leite está derramado com consequências ruins, decorrentes de ações defensivas e vinganças.
O ambiente, que antes era de respeito e colaboração, agora é de desconfiança, crispação, conspiração, traição e cobrança, a própria lei da selva.
Como resultado, compreensivelmente, o antigo aliado que, pela legalidade e por você, já fora alvo até de sanções dos Estados Unidos, se afastou e levou outros consigo. Agora, por sobrevivência, ele voltou ao seio dos inimigos, a quem antes combatia e também por isso era atacado.
Usaram o caso Master contra ele. E o presidente não só não o socorreu, mas desesperada e desnecessariamente ajudou a expô-lo. Bastava se calar.
Agora, há duas opções.
Uma é dobrar a aposta contra o ex-aliado. Aproveitar o momento eleitoral, denunciar os interesses ocultos dos que, inclusive dentro do Supremo, desejam evitar as investigações dos rombos no banco Master porque na verdade estão envolvidos nos crimes. Nessa versão, os ex-aliados seriam parte desse plano criminoso.
Outra opção é admitir a derrota havida no Senado, não partir para aprofundar o fosso, parar de criminalizar os ex-aliados do Supremo, tentar reconstruir alianças e pontes.
Aceitar ou promover a ruptura com Moraes é ao mesmo tempo um disfarce e um erro político. Disfarce para não dizer que a motivação de fundo de muitos dos que defendem a ruptura com Moraes e o STF é inconfessável.
Acham, a maioria secretamente, que o STF exagerou nas punições ao golpe. Consideram que o vandalismo de 8 de janeiro de 2023 deveria ser punido de forma a não criminalizar o direito ao protesto.
Acham que o STF exorbitou e interfere demais na vida do país e nos outros poderes em especial no Legislativo. Acham que o STF se tranformou numa corte que reina sobre o país e que o rei dessa corte se chama Alexandre de Moraes.
Viram no caso Master o momento para se afastar do antigo aliado, reposicionar o governo mais à esquerda, sem assumir que estavam na verdade aliviando para o bolsonarismo.
Sem o caso Master para ser usado para enfraquecer o apoio ao Supremo a dosimetria não passaria tão fácil no Congresso.
O segundo erro, e talvez mais grave, é que usar o pretexto do Master para se afastar de Moraes e da maioria garantista do STF é colocar o moralismo, o tema da corrupção, acima da política.
É ceder a uma demagogia purificadora em lugar de priorizar aquilo que mais faz agregar forças políticas no sentido desejado, positivo, aquilo que mais contribui para uma evolução favorável da correlação politicade forças: juntar aliados e isolar os inimigos.
É preciso ser pragmático, em lugar de priorizar uma suposta pureza moral ainda mais grave quando antecipando situações criminais sobre as quais não há evidência de crimes.
Abrir mão da política como referência principal leva a situações constrangedoras como passar a retratar o bolsonarista André Mendonça como paladino da pureza e da moralidade no STF. A que ponto o udenismo pode conduzir até os progressistas.
Leva a depositar nele (e em Fachin, Kassio e Fux a esperança de realizarem uma faxina ética na corte contra os "corruptos" Moraes, Toffoli, Gilmar e Zanin. A que inversão o lacerdismo (apenas supostamente despolitizado) pode conduzir. Supostamente, pois todo moralismo leva à direita. E hoje é possivel testemunar a mesma despolitização chegando no Planalto, se é que ela não parte dele. Esse desvio de rota leva os progressistas a reproduzir as notícias e os argumentos da mídia da Faria Lima, a aliar-se a ela ma prática. A mídia que não à toa iniciou o mensalão de Roberto Jefferson e a Lava Jato de Eduardo Cunha. É a mídia do PowerPoint de ontem e de hoje. Abandona-se quem tirou Lula da cadeia, restituiu seus direitos políticos, garantiu condições de sua reeleição, puniu quem tentou dar golpe e assassinar presidente e vice, enjaulou Bolsonaro e generais golpistas pela primeira vez na história para caminhar junto aos algozes da democracia.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



