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Elisabeth Lopes

Advogada, especializada em Direito do Trabalho, pedagoga e Doutora em Educação

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A ruptura necessária do círculo vicioso que sustenta a extrema direita e o centrão

Maior fundo partidário – maior fundo eleitoral – maior distribuição de emendas – ganho de apoio local – reeleição: um mecanismo que se retroalimenta

Urna eletrônica (Foto: Antonio Augusto/Ascom/TSE)

O Partido Liberal (PL), legenda do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seu filho Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, figura entre os partidos que concentram o maior montante de recursos do Fundo Eleitoral, alcançando a cifra de R$ 887 milhões. Trata-se de um fundo integralmente público, oriundo do Orçamento da União e financiado por impostos pagos pela população, como o Imposto de Renda (IR) e o ICMS. Para viabilizar esse volume de recursos, que em 2026 atingiu o total de R$ 4,9 bilhões, o Poder Legislativo frequentemente promove ajustes orçamentários que acabam por reduzir investimentos em áreas essenciais, como obras e serviços básicos nos estados.

Esse poder financeiro se desdobra também no campo da comunicação eleitoral. Ao concentrar uma das maiores fatias do fundo, o PL assegura igualmente maior tempo de propaganda em rádio e televisão, beneficiando-se de minutos diários de exposição, enquanto partidos menores ficam restritos a poucos segundos. Essa assimetria reforça desigualdades significativas na disputa eleitoral, ampliando o alcance de quem já detém maior poder político.

Ao mesmo tempo, o PL também lidera o valor oriundo do Fundo Partidário. Após o encerramento da janela partidária, a legenda passou a contar com 97 deputados, o que amplia ainda mais sua participação na divisão desse recurso. Assim como ocorre com o Fundo Eleitoral, a distribuição não é equitativa: apenas uma parcela é dividida igualmente, enquanto a maior parte depende do desempenho eleitoral prévio. Com esse volume de recursos públicos, o partido mantém, com ampla folga, suas estruturas administrativas, financia campanhas, custeia programas de formação política e assegura sua presença institucional em todo o país.

Nesse cenário, chama atenção o uso desses recursos em despesas que extrapolam o interesse público direto. Entre elas, está o pagamento da mansão de alto padrão localizada no Condomínio Solar de Brasília, residência atual de Michelle Bolsonaro, do ex-presidente em prisão domiciliar, de sua enteada e da filha do casal. Trata-se de um exemplo gritante de como recursos públicos podem sustentar estruturas privadas de alto custo, aprofundando o distanciamento entre a política institucional e a realidade da maioria da população.

Diante desse arranjo, configura-se um verdadeiro círculo vicioso no sistema político-eleitoral brasileiro. Além dos fundos partidário e eleitoral, partidos com maior representação no Congresso Nacional também controlam uma maior distribuição de emendas parlamentares. Esses recursos, destinados a municípios para obras, serviços e investimentos, acabam se tornando instrumentos de barganha política.

Quando tais verbas chegam às cidades, o parlamentar passa a ser identificado como o responsável direto pelo benefício, consolidando sua visibilidade local. Em uma lógica de “toma lá, dá cá”, prefeitos, vereadores e lideranças regionais tendem a retribuir com apoio político, estabelecendo uma relação de dependência que se intensifica no período eleitoral.

À medida que as eleições se aproximam, essa dinâmica se fortalece. Lideranças locais mobilizam eleitores, organizam campanhas e reforçam a imagem do parlamentar, ampliando suas chances de reeleição. Uma vez reeleito, o círculo vicioso se reinicia, e mais emendas serão destinadas aos mesmos redutos, consolidando currais eleitorais e perpetuando relações de dependência política.

Esse movimento cria um ambiente em que a distribuição de recursos passa a obedecer mais a critérios eleitorais do que às reais necessidades da população. O resultado é uma distorção da lógica democrática. Candidatos com mandato partem em vantagem significativa, enquanto novos nomes enfrentam barreiras estruturais quase intransponíveis.

Nesse processo, o voto deixa de ser orientado por propostas e projetos de país, passando a se basear na lógica imediatista de “quem trouxe recursos”. Adiciona-se a isso a recorrência de denúncias de desvios e práticas ilícitas envolvendo emendas parlamentares. Nesse sentido, destacam-se as investigações conduzidas pelo ministro do STF Flávio Dino, que tem atuado de forma rigorosa na apuração de irregularidades e na busca por maior transparência.

Um caso recente ilustra essa problemática com a condenação unânime, pelo STF, de três deputados do PL: Josimar Maranhãozinho, Pastor Gil e Bosco Costa, acusados de cobrar propina para o desvio de recursos destinados à saúde no município de São José de Ribamar, no Maranhão. Episódios como esse evidenciam como o mecanismo pode ser capturado por práticas ilícitas, agravando ainda mais suas distorções.

Apesar de contar com uma das maiores bancadas do Congresso, cerca de 99 deputados e 14 senadores, o PL apresenta uma produção legislativa relativamente baixa no período de 2023 a 2026. Embora haja apresentação de projetos, poucos se converteram em leis efetivas. Um dos raros exemplos é o PLP 204/2025, que resultou na Lei Complementar nº 221, voltada ao financiamento de projetos estratégicos de defesa. Fora exceções pontuais, a maioria das proposições permanece em tramitação, revelando um descompasso entre força política e impacto legislativo concreto.

Ainda assim, essa baixa efetividade não compromete o desempenho eleitoral do partido. Isso porque o círculo vicioso se mantém ativo: mais recursos geram mais visibilidade, que gera mais apoio, que resulta em mais votos e, consequentemente, em mais recursos. Embora esse mecanismo não seja ilegal em si, ele distorce a competição democrática ao privilegiar estratégias eleitorais em detrimento do interesse público.

A esse quadro interno somam-se preocupações institucionais e geopolíticas. No plano doméstico, o processo eleitoral de 2026 estará sob a condução de ministros do Tribunal Superior Eleitoral indicados durante o governo Bolsonaro, como Kassio Nunes Marques e André Mendonça, que ocuparão posições estratégicas na condução do pleito.

Essa conjuntura ganha relevância diante do histórico recente de ataques ao sistema eleitoral. Em 2022, setores da extrema direita disseminaram, sem provas, narrativas de fraude nas urnas eletrônicas, buscando desacreditar o processo democrático. Há indícios de que essa estratégia poderá ser retomada em 2026, como forma de mobilização política e contestação de resultados.

Externamente, a preocupação se estende à possível influência dos Estados Unidos, que historicamente consideram a América Latina sua área de influência estratégica, desde a Doutrina Monroe até intervenções políticas, econômicas e militares ao longo dos séculos XX e XXI. Análises indicam que o governo insano e intempestivo do republicano Donald Trump busca retomar uma postura mais assertiva na América Latina, combinando pressão política e econômica, fortalecimento de alianças com governos e lideranças ideologicamente alinhadas e uso de instrumentos diplomáticos e comerciais para formatar cenários favoráveis a seus interesses. Embora essa orientação seja mais evidente no campo republicano, ela não é totalmente ausente entre setores do Partido Democrata, o que indica certa continuidade histórica na política externa dos Estados Unidos para a região.

Nesse ambiente, nomes cotados para futuras disputas presidenciais, como o democrata e atual governador da Califórnia, Gavin Newsom, embora se posicionem como críticos de Trump, inclusive classificando algumas de suas ações como autoritárias, também defendem pautas como a promoção da democracia, estabilidade política e direitos humanos em países latino-americanos. Essa convergência parcial evidencia que, apesar das diferenças de discurso e estratégia, há elementos comuns entre democratas e republicanos na forma de encarar a América Latina como área de interesse estratégico. Assim, ainda que variem os métodos, entre abordagens mais diplomáticas ou mais coercitivas, a possibilidade de influência dos Estados Unidos na região nunca esteve completamente ausente, mantendo-se como um fator relevante no espectro geopolítico contemporâneo.

Em agosto de 2025, Mike Benz, ex-integrante do Departamento de Estado dos Estados Unidos, levantou a possibilidade de interferência norte-americana nas eleições recentes do Brasil. Em depoimento à Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, afirmou que 11 agências dos EUA atuaram com financiamento nas eleições brasileiras de 2022, com o objetivo declarado de apoiar aliados no país (disponível em Brasil de Fato, reportagem publicada em 3 de abril de 2026).

Além dessas evidências históricas acerca da ingerência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras, especialistas destacam o papel das redes sociais e plataformas digitais estadunidenses como vetores de influência, capazes de disseminar informações, campanhas coordenadas e desinformação, moldando percepções políticas. Embora essas ações não configurem interferência direta no processo eleitoral, elas podem impactar o contexto em que as eleições ocorrem.

Nesse horizonte, o processo eleitoral de 2026 enfrenta um duplo desafio: internamente, a possibilidade de que narrativas de desconfiança sobre o sistema eleitoral sejam novamente mobilizadas; externamente, a pressão de interesses geopolíticos que buscam consolidar influência na região. Ainda que o sistema brasileiro conte com mecanismos de auditoria e uma estrutura institucional consolidada, o histórico de questionamentos infundados indica que a conjuntura exige atenção redobrada, tanto para a proteção da integridade eleitoral quanto para a preservação da soberania política do país.

As eleições de outubro de 2026 para a Câmara, o Senado e o Executivo são cruciais para os destinos da soberania e das políticas públicas de melhoria da vida do povo. Requerem a máxima atenção dos brasileiros.

Cabe destacar que, apesar de o Partido Liberal bolsonarista deter uma das maiores bancadas do Congresso, sua produção legislativa tem sido baixa. Embora seus parlamentares apresentem proposições, poucas se converteram em leis efetivas, revelando um descompasso entre força numérica e impacto concreto na vida da população. Esse dado se torna ainda mais significativo quando contrastado com os avanços recentes no campo das políticas públicas, implementadas pelo governo Lula, que evidenciam a importância de capacidade técnica, articulação política e compromisso com os interesses da população.

A adoção de medidas como a ampliação de isenções fiscais voltadas às camadas de menor renda tem contribuído para aliviar o peso tributário nessa faixa, ao mesmo tempo em que se observa um cenário de maior dinamismo no mercado de trabalho, com recuperação dos níveis de empregabilidade. Acrescenta-se a esses avanços a manutenção dos índices de inflação dentro do teto da meta pelas urgentes medidas do governo, tendo em vista a grave crise econômica impulsionada pela forte alta nos preços do petróleo e do gás natural, decorrente do conflito entre EUA, Israel e Irã, elemento central para a preservação do poder de compra da população, além do processo de reestruturação de políticas públicas estratégicas, como a atual medida para diminuir o endividamento da população, preparada para 2026, com foco na renegociação de dívidas bancárias e não bancárias (varejo, conta de luz, água). Esse conjunto de resultados evidencia não apenas a capacidade do governo, mas também coordenação política e compromisso com a estabilidade econômica e social.

Em contraste, a fragilidade do campo político da extrema direita e do centrão não se limita à baixa efetividade legislativa; ela se expressa, sobretudo, em um padrão de atuação orientado por interesses pontuais e corporativos das bancadas que representam. Nessa realidade, o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, vinculado a esse espectro político, agendou para 30 de abril de 2026 uma sessão conjunta do Congresso Nacional destinada a apreciar o veto integral do presidente Lula ao Projeto de Lei da Dosimetria (PL 2162/2023), mesmo diante de um conteúdo flagrantemente inconstitucional. Soma-se a isso outra marca recorrente dessa improdutividade: a substituição da formulação de políticas públicas concretas por uma intensa mobilização digital. Parlamentares como Nikolas Ferreira exemplificam esse fenômeno ao elegerem as redes sociais como principal área de atuação política, frequentemente recorrendo à disseminação de desinformação. Trata-se de uma estratégia que, embora eficaz em termos de engajamento, revela-se inócua do ponto de vista institucional, por não contribuir para a construção de soluções estruturais capazes de enfrentar os desafios do país.

Essa fragilidade se estende à própria liderança desse campo político. A declaração de Flávio Bolsonaro, ao afirmar que preferiria votar em Tarcísio de Freitas por reconhecê-lo como mais experiente, não apenas evidencia sua limitação política e falta de preparo para a condução de um projeto nacional, como também revela contradições internas profundas. Tal posicionamento expõe dependência de lideranças mais estruturadas e incapacidade de afirmar protagonismo próprio, reforçando a percepção de um grupo político que, embora competitivo no campo eleitoral e comunicacional, demonstra fragilidade na formulação, execução e sustentação de políticas públicas de alcance nacional.

Ou o país rompe com esse círculo vicioso de atraso, marcado pela baixa efetividade legislativa e pela captura da política por interesses fisiológicos e por uma extrema direita mais dedicada à disputa de poder do que à construção de soluções reais, ou assumirá o risco concreto de aprofundar desigualdades, fragilizar suas instituições e comprometer o futuro das próximas gerações. Trata-se de uma escolha histórica entre a continuidade de um processo de reconstrução social, econômica e institucional ou o retorno a um modelo que já demonstrou sua absoluta incapacidade de responder às necessidades do povo brasileiro, como as ações promovidas pelo trágico desastre do governo bolsonarista.

Portanto, o que será decidido em outubro é a escolha de um projeto de país capaz de responder, de forma consistente e duradoura, às aspirações da maioria da população. Trata-se de dar continuidade e densidade a avanços já perceptíveis no cotidiano social sob o atual governo, projetando-os por meio de um horizonte estratégico de longo prazo. Isso implica não apenas preservar conquistas, mas ampliá-las e estruturá-las em bases sustentáveis, capazes de consolidar um ciclo de desenvolvimento com inclusão, distribuição de renda e melhoria contínua da qualidade de vida. Nesse sentido, a distância entre esse projeto e as intenções da direita e do centrão é abissal. Enquanto estes se orientam por uma perspectiva neoliberal e excludente, marcada por agendas fragmentadas, de curto alcance e frequentemente subordinadas a interesses do capital e, não raro, a benesses particulares, um governo popular e progressista já demonstrou, na prática, sua capacidade de articular crescimento econômico, responsabilidade social e fortalecimento institucional em benefício da maioria da sociedade.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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