A sabotagem velada das renováveis
Como setores menos competitivos usam o aparato regulatório para freiar a verdadeira transição energética
Existe uma forma de destruição que não usa bulldozer. Usa papéis, emendas, impasses regulatórios, lobbies nos corredores do Congresso e vetos disfarçados de “preocupação sistêmica”. É a sabotagem silenciosa — e o que está acontecendo hoje com as fontes renováveis de energia no Brasil tem muito dela.
Três episódios recentes, lidos em conjunto, revelam um padrão que não pode ser ignorado por quem acompanha o setor com seriedade.
Primeiro: o curtailment bilionário. A Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Energia (Apine) acaba de lançar sua agenda legislativa para 2026 com um dado que deveria envergonhar o país: em 2025, os cortes compulsórios de geração renovável, o chamado curtailment, custaram aproximadamente R$ 6 bilhões ao setor.
Cerca de 20% de toda a energia solar e eólica produzível foi simplesmente desperdiçada. Não por falta de tecnologia, não por incapacidade dos geradores. Mas porque o sistema de transmissão não cresceu no ritmo da geração, porque a regulação do armazenamento não saiu do papel, e porque a sinalização de preços continua distorcida.
Em alguns momentos do terceiro trimestre de 2025, chegou-se perto de um terço do potencial solar cortado. Jogamos fora energia limpa e barata enquanto o país ainda depende de termoelétricas caras e poluentes para garantir segurança.
Segundo: o impasse regulatório do armazenamento. A capacidade instalada de renováveis não despacháveis no Brasil saltou de cerca de 30 GW para aproximadamente 90 GW entre 2021 e 2025. Um crescimento extraordinário. Mas este avanço não foi acompanhado de infraestrutura de transmissão compatível nem de um mercado funcional de armazenamento em baterias. Resultado: nos momentos de maior insolação, o sistema produz mais do que consegue consumir ou escoar.
A solução existe: os Sistemas de Armazenamento de Energia (SAE) são a resposta óbvia. Porém, a regulação definitiva da ANEEL segue indefinida. O principal entrave é a chamada “dupla tarifação”: cobrar pelo uso da rede tanto na carga quanto na injeção de energia pelas baterias. Para os agentes do setor, isso tornaria os projetos economicamente inviáveis. Para quem defende a medida, seria equilíbrio sistêmico. O debate técnico é legítimo — mas a indefinição prolongada não é neutra. Ela favorece quem não quer que o armazenamento prospere.
Terceiro: o naufrágio iminente do Redata. O programa de incentivo à instalação de data centers abastecidos por energia renovável, o Redata, virou símbolo perfeito do que há de mais disfuncional no debate energético brasileiro. A Medida Provisória que o criou caducou. O governo apresentou um Projeto de Lei substituto (PL 278/2026), aprovado na Câmara, mas que travou no Senado. A tentativa do líder do governo, senador Randolfe Rodrigues, de incluir a solução orçamentária (PLP 77/2026) em outro texto também fracassou. Resultado: R$ 5,2 bilhões reservados no orçamento de 2026 para desonerar data centers renováveis seguem sem destino jurídico.
E por quê trava? Porque há pressão organizada para incluir o gás natural como fonte elegível para os incentivos do Redata. Estados produtores — ou aspirantes a produtores — mobilizaram sua bancada para que um programa concebido para impulsionar a demanda por renováveis seja convertido em mais um mecanismo de sobrevida para o gás fóssil.
Lidos separadamente, esses três episódios parecem problemas técnicos. Lidos juntos, revelam uma estratégia.
Setores que perderam competitividade na corrida das renováveis — termelétricas a gás, regiões sem vocação solar ou eólica equivalente, infraestruturas montadas para outro modelo energético — não estão simplesmente defendendo seus interesses legítimos. Estão usando o aparato regulatório e legislativo para retardar o avanço do que é inevitável, caro e necessário. Fazem isso com sofisticação: não atacam as renováveis frontalmente. Criam impasses no armazenamento, diluem incentivos com condicionalidades que favorecem o gás, sobrecarregam os geradores renováveis com custos sistêmicos que deveriam ser compartilhados por todos, e transformam o Congresso num campo de batalha onde cada avanço da transição energética real custa meses de negociação.
Há uma distinção que preciso fazer aqui com toda clareza: existe uma transição energética real e existe uma transição energética de fachada. A real é aquela que substitui progressivamente combustíveis fósseis por fontes renováveis genuínas, com preços decrescentes, descarbonização efetiva e ganhos de competitividade distribuídos para os territórios onde esses recursos abundam. A de fachada é aquela que usa o vocabulário da transição para reembalar velhos interesses — que chama gás de “energia de transição” indefinidamente, que inclui termelétricas em leilões de capacidade como se fossem garantia de segurança sistêmica e não uma proteção para ativos em declínio, que coloca o custo do armazenamento nos ombros dos geradores renováveis como quem pune quem gerou demais.
Brasil Equatorial
O Nordeste Setentrional, do Ceará ao Piauí, passando pelo Rio Grande do Norte e Maranhão, estendendo-se ao Pará e ao Amapá, é o epicentro desta disputa. É aqui que a irradiação solar é mais intensa do planeta. É aqui que o vento sopra com regularidade e força ímpares. É aqui que os custos de geração mais baixos do mundo estão sendo alcançados e superados a cada leilão. É aqui que o hidrogênio verde e os combustíveis sintéticos podem ser produzidos em escala para abastecer Europa, Ásia e um Brasil industrializado.
Não é coincidência que os maiores entraves regulatórios: curtailment sem solução, armazenamento sem regra, data centers sem incentivo firmado, afetem desproporcionalmente esta região. Quando se desperdiça 20% da geração eólica, não se está desperdiçando energia de forma genérica. Está se destruindo valor criado principalmente no Nordeste. Quando se adia o armazenamento, adiamos a solução para o problema que mais castiga os geradores nordestinos. Quando se sabota o Redata para incluir o gás, torpedeia-se um programa que atrairia para o Nordeste a maior demanda nova de energia limpa da próxima década — a computação em nuvem e a inteligência artificial.
Não estou aqui defendendo que o gás natural não tenha papel algum na matriz brasileira. Tenho clareza, como economista, como ex-presidente da Petrobras e como alguém que conhece o setor de dentro para fora, que a transição requer pragmatismo. Mas pragmatismo não é o mesmo que captura regulatória. Há diferença entre reconhecer o papel de equilíbrio do gás num sistema em transição e permitir que a indústria do gás redesenhe as políticas de incentivo às renováveis para favorecer seus próprios ativos. Isso não é pragmatismo. É protecionismo de setores menos competitivos às custas do futuro energético do país.
O Brasil tem uma janela de oportunidade histórica. O mundo está desesperadamente em busca de energia limpa, barata e abundante para alimentar a revolução da inteligência artificial, a reindustrialização verde e a eletrificação dos transportes. O Brasil Equatorial tem exatamente isso. Mas essa oportunidade não se realiza automaticamente. Ela precisa de regulação funcional, de políticas públicas coerentes e de um ambiente institucional que não permita que interesses setoriais paralisem o que é estratégico para o país.
O que vemos hoje é o oposto. Energia limpa sendo desperdiçada por bilhões. Tecnologias de armazenamento bloqueadas por indefinição regulatória proposital ou negligente. Programas de atração de investimentos sendo sabotados dentro do próprio Congresso.
Não é acidente. É escolha. E nomeá-la claramente é o primeiro passo para mudá-la.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



