A super quarta dos bancos centrais: o Fed fecha a porta, o Copom deixa aberta
"A novidade mais relevante veio no gráfico de pontos, que mostra a trajetória de juros esperada pelos diretores"
As decisões de política monetária divulgadas ontem nos Estados Unidos e no Brasil reservaram surpresas menos nas taxas em si — mantidas lá, cortadas aqui — e mais na mensagem que os dois bancos centrais escolheram passar ao mercado. Nos Estados Unidos, foi a primeira reunião conduzida pelo novo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, e a mudança de tom foi imediata. O Fed praticamente rasgou o modelo de comunicado que vinha usando. O texto divulgado após a reunião tem cerca de um terço do tamanho dos anteriores: em vez de espremer interpretações em cada parágrafo, limita-se aos fatos da economia, sem antecipar sinais ou abrir espaço para movimentos futuros. Warsh também anunciou a criação de comitês para revisitar pontos sensíveis da instituição — o tamanho do balanço do Fed, os efeitos do juro sobre a inflação e o impacto do próprio balanço sobre a economia. É, na prática, uma espécie de auditoria interna que coloca todas as questões de volta sobre a mesa. Muita coisa ainda pode mudar.
A novidade mais relevante veio no gráfico de pontos, que mostra a trajetória de juros esperada pelos diretores. O Fed retirou completamente o viés de corte. Não há, no comunicado, qualquer menção a aliviar a mão — pelo contrário. Nove diretores projetam ao menos uma alta de juros ainda neste ano; outros oito esperam estabilidade até dezembro e apenas um aposta em corte. O quadro é, portanto, equilibrado, mas o mercado já precifica cerca de 40% de chance de alta na próxima reunião, no fim de julho. Nesse cenário, a taxa curta voltaria da casa de 3,75% para 4%. Se não for em julho, o movimento mais provável é ao menos um ajuste de 0,25 ponto até o fim do ano.
Há boas notícias do lado dos preços. O petróleo recuou para baixo de US$ 80, com a perspectiva de uma solução para o conflito no Oriente Médio, e a gasolina finalmente caiu abaixo de US$ 4 por galão na média americana. Isso abre espaço para um segundo semestre de dados mais benignos. O problema é que a economia americana segue mais forte do que se imaginava: as vendas no varejo vieram com força e o mercado de trabalho criou mais de 150 mil vagas por mês nos últimos três meses. Não é uma economia fraca, nem à beira de uma recessão — é uma economia resiliente. E é justamente essa resiliência que reabriu a hipótese de alta de juros e sacudiu os mercados, com desvalorização importante do real e forte abertura dos juros longos por aqui.
Foi nesse ambiente que chegou, no fim do dia, a decisão do Copom — surpreendente até certo ponto. O corte de 0,25 ponto era esperado, e veio: a Selic caiu de 14,5% para 14,25%. A surpresa estava no resto. Diante da aceleração das expectativas de inflação — com a inflação do ano já acima de 3%, a projeção para 2026 em torno de 5,10% e a do próximo em 4,10% —, muitos imaginavam que o Copom sinalizaria uma pausa no ciclo. Em vez disso, o comitê empurrou o horizonte relevante da meta de inflação para 2028.
A leitura do comunicado, ainda que de forma um tanto cifrada, é a seguinte. Pelo novo sistema, o Copom mira seis trimestres à frente; para esta reunião, isso ainda apanharia o último trimestre de 2027, quando a inflação aparece estourada em 4,10% e exigiria reação — eventualmente até uma alta de juros. O argumento do comitê é que, se subisse o juro agora e cortasse logo depois, os modelos apontariam uma queda expressiva da inflação a partir de 2028. Optou-se, então, por não subir agora, cortar e esperar a reunião de agosto, quando o horizonte já passa a ser 2028. Na prática, a mensagem é que 2026 já foi, 2027 segue problemático e a aposta agora recai sobre 2028.
Vale uma ressalva importante ao classificar o movimento. Avaliar se o Copom foi "duro" ou "leniente" exige olhar também o nível do juro, que está estratosfericamente elevado. Cortar a partir de uma Selic de 14,5% é muito diferente de cortar a partir de 8%. Ainda assim, foi um movimento mais dovish: o Copom cortou, não anunciou interrupção e deixou a porta aberta — o mercado, aliás, segue apostando em mais cortes em agosto. É o oposto do que fez o Fed, que retirou o viés de alívio e sinaliza eventual aperto.
Resta a pergunta de sempre: como o Brasil consegue crescer com juro real de 10% e juro nominal de 14,25%? A resposta está nas políticas de transferência, no gasto fiscal e na injeção de demanda que vêm sustentando a atividade. Mas há um limite. Uma economia submetida a um juro tão brutal não aguenta por muito tempo sem pagar a conta. O ciclo de corte, por ora, não foi interrompido nem pausado — apenas adiou seu encontro com a meta de inflação, que não será cumprida em 2026, dificilmente em 2027, talvez em 2028. Em agosto teremos novas pistas.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




