A tendência é que Lula e Trump fechem um acordo sobre terras raras
Encontro entre os dois presidentes nesta quinta-feira não deverá ser apenas protocolar
A combinação de dois movimentos recentes — a aprovação do novo marco legal dos minerais críticos pela Câmara dos Deputados na noite de ontem e a marcação acelerada do encontro, nesta quinta-feira 7, entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump na Casa Branca — sugere que a pauta das terras raras e dos minerais estratégicos deve ocupar posição central na relação entre Brasil e Estados Unidos nos próximos meses.
Não se trata de uma viagem protocolar ou meramente simbólica. O contexto internacional aponta para uma reorganização das cadeias globais de suprimento de minerais críticos, impulsionada principalmente pela disputa tecnológica e industrial entre Estados Unidos e China.
Hoje, a China responde pela maior parte da mineração e, sobretudo, do processamento mundial de terras raras — insumos essenciais para setores como semicondutores, carros elétricos, baterias, inteligência artificial, equipamentos militares e energia renovável. Esse grau de concentração passou a ser visto por Washington como um problema estratégico.
Foi nesse cenário que os Estados Unidos firmaram, em outubro do ano passado, um acordo bilionário com a Austrália para ampliar investimentos em mineração e processamento de minerais críticos fora da órbita chinesa. O Brasil, por possuir a segunda maior reserva conhecida de terras raras do mundo, surge naturalmente como um parceiro potencial nessa estratégia.
O novo marco legal aprovado pela Câmara ajuda justamente a criar um ambiente institucional para esse tipo de negociação.
O projeto relatado pelo deputado Arnaldo Jardim estabelece regras para exploração, beneficiamento e transformação de minerais críticos no país. Também cria instrumentos de supervisão estatal, incentivos fiscais e mecanismos voltados à industrialização local da cadeia mineral.
O texto, por óbvio, também não restringe a origem do capital estrangeiro. Na prática, o modelo aprovado permite investimentos americanos, chineses, europeus ou nacionais, desde que submetidos às regras definidas pelo Estado brasileiro. O projeto procura combinar abertura ao investimento internacional com maior capacidade regulatória e acompanhamento estratégico por parte do governo.
Isso reduz a leitura de que o Brasil estaria entrando automaticamente em algum alinhamento geopolítico exclusivo.
Ao mesmo tempo, cria condições para que o país participe de uma disputa internacional que tende a ganhar importância crescente ao longo da próxima década.
O encontro entre Lula e Trump acontece também em um momento politicamente relevante para os dois governos.
Trump enfrenta desgaste interno após o aumento das tensões envolvendo o Irã e a repercussão negativa da guerra no Oriente Médio. Nesse contexto, acordos econômicos e industriais podem ajudá-lo a reforçar uma agenda de segurança energética, reindustrialização e redução da dependência externa dos Estados Unidos.
Para Lula, a reunião reforça a estratégia de manter interlocução simultânea com diferentes polos de poder — Estados Unidos, China, Europa e BRICS — preservando margem de autonomia diplomática.
Além disso, o governo brasileiro tenta consolidar a ideia de que o país pode atrair investimentos externos sem abrir mão de instrumentos de controle sobre ativos considerados estratégicos.
O debate sobre terras raras passa justamente por esse equilíbrio.
De um lado, o Brasil necessita de capital, tecnologia e escala industrial para desenvolver o setor. De outro, existe preocupação crescente com a possibilidade de o país permanecer apenas como exportador de minério bruto, sem internalizar etapas mais sofisticadas da cadeia produtiva.
Por isso, o novo marco legal enfatiza beneficiamento, transformação e agregação de valor dentro do território nacional.
Ainda é cedo para saber se haverá anúncio concreto após a reunião na Casa Branca. Mas os sinais políticos e econômicos apontam que minerais críticos devem se tornar um dos principais eixos da relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos daqui para frente.
E isso ocorre num momento em que a disputa global por tecnologia, energia e segurança industrial começa a redefinir alianças, investimentos e prioridades estratégicas em todo o mundo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



