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Jailton Andrade

Jailton Andrade é advogado, músico, dirigente sindical e do movimento negro e criador do Debate Petroleiro

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A Venezuela vai ser um país rico assim que esse diabo desse petróleo acabar

O povo venezuelano também é dono da maior reserva de gás natural da América Latina, das maiores jazidas de ouro do planeta e reservas de minerais tecnológicos

Protesto contra ordem do presidente dos EUA, Donald Trump, de bloquear a entrada e saída de petroleiros sancionados da Venezuela - 17 de dezembro de 2025 (Foto: REUTERS)

As petroleiras estadunidenses que atuam no Brasil vão operacionalizar o golpe, quer dizer, a missão humanitária na Venezuela. Essa é a promessa do trapo do Trump, em plena campanha para ganhar, no fim do ano, o Prêmio Nobel da Paz. Trump disse que aprendeu com Tom Zé que a Venezuela só vai ser um país rico quando esse diabo de petróleo acabar. E está fazendo de tudo para acabar rápido; afinal, missão humanitária é para isso. Nesse caso, Trump fez a escolha certa, porque não tem ninguém mais experiente em Ajuda Humanitária do que a Chevron e a ExxonMobil.

No dia 13/12/2010, o WikiLeaks resolveu explodir o esconderijo das petroleiras ao divulgar correspondências que demonstravam a atuação da Chevron e da ExxonMobil no Congresso Nacional brasileiro. Mas não era para distribuir vale-gasolina aos parlamentares. Eles queriam era melar a mão invisível com o petróleo do pré-sal recém-descoberto, e uma das maneiras era colocando a faixa presidencial em José Serra, aquele da bolinha de papel, lembra?

Pois bem: essas mesmas petroleiras, Chevron e ExxonMobil — que também operam no Brasil para salvar o nosso país desse diabo de petróleo, levando tudo para fora — são as que vão operacionalizar a “reconstrução” da Venezuela.

O trapo do Trump, fantasiado de dono do mundo, já cansou de dizer que tudo o que ele fez (a invasão da Venezuela, o bombardeio, o sequestro do presidente e da esposa) foi por causa do petróleo. Quem poderia imaginar isso, né? E, como todo mundo sabe, a Venezuela possui a maior reserva de petróleo do planeta. Pura coincidência, claro.

Só que não é só isso. O povo venezuelano “coincidentemente” também é dono da maior reserva de gás natural da América Latina, das maiores jazidas de ouro do planeta e de grandes reservas de minerais tecnológicos. Mas isso não tem nada a ver com Trump. Seu objetivo é puramente humanitário, com H de “hidrocarbonetos”.

Outro argumento que aparece nos pronunciamentos do trapo é o de que a invasão, quer dizer, a acolhida da Venezuela tem o objetivo de garantir os direitos das petroleiras estadunidenses instaladas no país, coitadas, depois de 100 anos.

Aqui é preciso explicar umas coisas, e a primeira delas é que Trump tem razão. Não sobre a invasão e as outras fuleragens, mas na afirmação de que havia petroleiras gringas operando no país. E as primeiras que chegaram lá foram a Shell, em 1912; a Exxon, na época Standard Oil, em 1921; e a Chevron, que está na Venezuela desde 1923. Praticamente cidadãs venezuelanas. Depois entraram a Texaco, BP, Total, Statoil e companhia.

Operaram por décadas com royalties baixos e controle privado total. Até que, em 1976, aconteceu a primeira nacionalização do setor, quando a Venezuela criou a PDVSA. E aqui vale dizer: não houve quebra de contratos nem expulsão das petroleiras. As concessões foram encerradas, os ativos transferidos à PDVSA e houve indenização negociada.

Em geral, as empresas que exploravam petróleo até então mantiveram relações comerciais com a Venezuela, comprando petróleo, vendendo equipamentos, prestando assistência... Além disso, as empresas prestadoras de serviço continuaram com a PDVSA, a exemplo da Schlumberger, da Halliburton e da Baker Hughes.

Com o segundo mandato do presidente Carlos Andrés Pérez, dessa vez convertido à direita liberal, ocorre na Venezuela a flexibilização do monopólio do setor, com a chamada “Abertura Petroleira”, com a missão de atrair capital e tecnologia estrangeira. Dois modelos foram colocados à disposição: os Convênios Operativos, em que as empresas investiam e operavam os campos e recebiam por barril produzido; ou associações estratégicas, em que a empresa entrava como sócia majoritária na parceria com a PDVSA.

Assim, aquelas empresas que tinham se afastado da produção direta após 1976 voltaram felizes e sorridentes à Venezuela. E tudo seguiu nesse clima de romance até 2007, quando Hugo Chávez, já no oitavo ano de governo, decidiu promover a segunda nacionalização do setor. Os contratos foram convertidos em sociedades de economia mista, com no mínimo 60% nas mãos da PDVSA. Quem aceitasse poderia sentar para negociar compensações. Quem não aceitasse recebia indenização, pegava seu banquinho e saía de mansinho.

As petroleiras que aceitaram a proposta e continuaram operando na Venezuela foram a estadunidense Chevron, a francesa Total, a espanhola Repsol e a italiana ENI. Já a ExxonMobil e a ConocoPhillips ficaram de dengo, recusaram a proposta e deixaram o país — porque, afinal, 40% de participação nas maiores reservas de petróleo do mundo é praticamente trocar dinheiro.

Mas, dois anos antes, em 2005, Chávez já tinha aberto o primeiro escritório na China e, no mesmo ano, já estava exportando combustível para a estatal chinesa, num movimento de diversificação geopolítica e alinhamento ideológico. Foi a partir de 2005 também que Hugo Chávez começou a assinar memorandos com as petroleiras russas.

É aí que muda tudo. Porque não bastava o petróleo venezuelano servir aos EUA. Ele não poderia estar acessível ao mundo socialista.

Então, a partir de 2006, começam as sanções por parte dos EUA. Primeiro sob a alegação de que a Venezuela não estava cumprindo suas obrigações com os acordos globais antitráfico. Depois sancionaram pessoas e empresas venezuelanas porque elas estariam fomentando o tráfico de drogas; depois, porque estariam apoiando o Hezbollah. Parecia aquele famoso jogo da Copa, em que qualquer coisa que acontecia era gol da Alemanha.

Com a morte de Hugo Chávez, em 2013, Nicolás Maduro vence as eleições presidenciais e vai estreitar os laços militares com a Rússia e econômicos com a China, o que aumenta o nível de alerta dos EUA. No ano seguinte, Obama sanciona a Lei de Defesa dos Direitos Humanos e da Sociedade Civil... da Venezuela! Isso mesmo. A lei norte-americana punia oficiais do governo, militares, juízes e forças policiais que reprimissem protestos na Venezuela, mas depois passou a ser usada também para sancionar empresas como a PDVSA.

Em 2017, Donald Trump amplia as sanções contra empresas e bancos que negociassem com a Venezuela, mas as petroleiras estrangeiras, inclusive a Chevron, continuam autorizadas a operar. Somente em março de 2025 é que os EUA revogam as autorizações das petroleiras, com exceção da Chevron, que continua autorizada a tirar o petróleo pelo bem do povo venezuelano.

Apesar do estrangulamento comercial da Venezuela e de todo o aperto de mente, Maduro se reelege em 2018 e em 2024. Aliás, tanto Chávez como Maduro venceram eleições diretas e periódicas, típico de uma ditadura democrática...

No fim, o que se observa é que Trump tenta justificar o sequestro da Venezuela com narrativas fraudulentas. Nos últimos oito anos, os EUA intensificaram o sufocamento comercial da Venezuela e agora alegam que o país precisa ser salvo. Alegam que as petroleiras estadunidenses tiveram direitos subtraídos, mas a Chevron opera na Venezuela desde 1923 até hoje. Já a ExxonMobil, que saiu magoada com a proposta de acordo que as outras petroleiras aceitaram, explorou o petróleo venezuelano durante 86 anos. O que mais essa petroleira quer sugar da Venezuela?

Além do mais, que legitimidade teriam os EUA em sequestrar um país soberano para defender interesses privados?

Tudo caô. Na real, a aliança da Venezuela, com todo o seu poderio petrolífero e mineral, com a China e a Rússia fortalece a mudança do eixo do poder geopolítico, já em andamento com os BRICS, e coloca o dólar em risco. Ainda mais se países como o Brasil boicotassem as petroleiras que aceitaram assaltar a riqueza venezuelana. E aí o americano não segurará nem as calças, como diria Tom Zé, e poderá cair de Maduro.

Tomara...

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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