Acordão Master
"Vitória da oposição, que teria sido consolidada a partir desse possível acordão, não traria aos interessados os resultados absolutos que porventura imaginavam"
Partamos da ideia de que a tese - bastante verossímil, é verdade - da existência de um grande acordão entre o Centrão e os bolsonaristas para rejeitar a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal e derrubar os vetos à dosimetria teria, como moeda de troca, a não instalação da CPMI do Master pelo presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre. É possível que seja verdade. A foto do senador abraçando, de olhos fechados, o seu companheiro - também senador - Flávio Bolsonaro, ao término de uma votação em plenário nesta semana, diz muito.
Portanto, acreditemos que exista tal acordo. Se Garrincha estivesse entre nós, talvez perguntaria se tudo foi combinado com os russos. Russos, nesse caso, os policiais federais que investigam o megaescândalo do banco de Daniel Vorcaro, que, pelo que se sabe até agora, envolve inúmeros políticos bolsonaristas e do Centrão. Isso porque aqueles que teriam feito esse acordo precisariam ter poder sobre a instituição Polícia Federal - o que, aí sim, não me parece muito crível.
A vitória da oposição, que teria sido consolidada a partir desse possível acordão, não traria aos interessados os resultados absolutos que porventura imaginavam. Podem não ter a CPMI - um palco em que a cobertura pública talvez fosse maior -, mas não contarão com a benevolência da Polícia Federal. As delações premiadas - que, como tal, devem sempre ser observadas com muito cuidado - podem, contudo, trazer elementos capazes de manchar com lama as quatro patas de muitos dos envolvidos nas suspeitas conhecidas até o momento.
É claro que deverão ser esclarecidas as circunstâncias das doações de R$ 5 milhões às campanhas de Bolsonaro e Tarcísio de Freitas; o uso reiterado do jatinho do Master pelo deputado Nikolas Ferreira; o porquê da decisão do governador Cláudio Castro de colocar bilhões dos servidores públicos do estado do Rio de Janeiro nas operações do banco de Vorcaro; quais os termos da relação do banco com a igreja evangélica Lagoinha; e o que motivou o então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, a liderar uma operação bilionária, colocando em risco o banco estatal BRB, para salvar o banco do amigo Vorcaro. São muitas as questões que as investigações e as delações deverão esclarecer.
Mas há uma maior. E aqui, penso, mora o nó que pode ter alimentado o possível acordão desta semana no Congresso Nacional: por quem, por que e por quanto a operação do banco Master teria sido autorizada durante o governo de Jair Bolsonaro, sob a gestão de Paulo Guedes e a condução de Roberto Campos Neto. É nesse ponto que a dor de barriga e os soluços entre bolsonaristas e operadores do Centrão podem se intensificar.
Resta ver como evoluem as investigações. Mas nada terminou nas votações desta semana. Disso, tenho plena certeza.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



