Golpes, mentiras e sabotagens: a ofensiva da extrema direita e do Centrão contra a democracia
Às vésperas das eleições, a produção de crises e a distorção dos fatos emergem como ferramentas centrais da ofensiva da extrema direita e do Centrão
Em meio à escalada das disputas institucionais e à proximidade das eleições, setores da extrema direita e do Centrão intensificam estratégias de desinformação e sabotagem política para desgastar o governo e tensionar as instituições democráticas. A rejeição de Jorge Messias ao STF expõe não apenas uma profunda crise política, mas o avanço de práticas oportunistas que transformam o Congresso em palco de vinganças e manipulações eleitorais.
A rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal vai além de uma mera derrota do Executivo ou de Messias, ela sinaliza a absoluta desqualificação de um Senado dominado por uma simbiose oportunista entre a extrema direita e o Centrão fisiológico. Traduz a ira desses segmentos, que incapazes de propor projetos sociais para a melhoria das condições de vida da população, canalizam suas forças para sabotar um governo progressista e resiliente a um congresso de maioria inimiga do povo. Representa a resposta covarde de um Legislativo freado tanto pelas forças progressistas, quanto pela Justiça, não somente no âmbito das investigações contra a tentativa de golpe de Estado, como no projeto de auto blindagem dessa ala inóspita e, sobretudo, diante de envolvimentos de parlamentares em ações criminosas.
A atuação da Polícia Federal em várias frentes de combate ao crime organizado, a exemplo da Operação Carbono Oculto, acuou parlamentares suspeitos de participação, como ao presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, pelo temor que as investigações cheguem até ele e aliados, que agora utilizam o voto como anteparo e arma. Agrega-se a isso o desconforto provocado pelos indicadores positivos alcançados em diferentes áreas da gestão federal, resultado de um governo que, apesar da sabotagem permanente, tem conseguido realizar entregas concretas à população.
Outro fator que tem contribuído para a intensificação das frequentes retaliações do Legislativo, ainda que de modo implícito, contra o governo reside no enfrentamento do Judiciário via atuação incisiva de Flávio Dino, ministro indicado pelo presidente Lula, contra a apropriação indébita do orçamento público via emendas parlamentares, que frequentemente servem ao enriquecimento ilícito e à manutenção de currais eleitorais desses parlamentares, onde o voto é sequestrado pela necessidade de um povo vulnerável a cada processo eleitoral.
Nesse ambiente de crescente tensão entre os Poderes, agravado pelas investigações sobre o uso das emendas parlamentares e pela crise no STF, amplificada pela mídia corporativa a partir dos episódios do caso do Banco Master, a extrema direita e o Centrão, capitaneados por Davi Alcolumbre, enxergaram o cenário perfeito para avançar no golpe. A poucos meses das eleições, a rejeição de Messias significou uma atuação deliberada para desgastar a imagem do presidente Lula. Essa afronta, inédita desde o século XIX, marcou uma ruptura na tradicional aquiescência do Senado à prerrogativa constitucional do chefe do Poder Executivo na indicação de ministros para a Suprema Corte. Conforme informações do G1, o presidente Lula reagiu a esse fato com o republicanismo que sempre caracterizou sua prática política ao referir que se cabe a ele indicar o nome de um ministro para o STF, cabe ao Senado aprovar ou não. A sua histórica perspicácia e inteligência política revelarão os próximos passos de um líder que, acostumado a enfrentar derrotas conjunturais e ofensivas retaliatórias, sabe transformar momentos de adversidade em articulação estratégica, reposicionando forças e reconstruindo caminhos diante de um Congresso cada vez mais capturado por interesses fisiológicos.
Em contrapartida, a extrema direita e o Centrão expuseram, mais uma vez, a face degradada de um Congresso movido pelo revanchismo e pela pequena política. Ao reproduzirem a celebração grotesca que marcou o indevido impeachment da presidente Dilma Rousseff, esses parlamentares não apenas aviltam a institucionalidade democrática, mas aprofundam a já grave crise de legitimidade do Legislativo perante a sociedade. Ficou nítido que a rejeição não mirou a competência técnica ou o notável saber jurídico de Messias, mas foi utilizada como uma queda de braço. O Senado, sob a égide da oposição, preferiu a vingança política em detrimento da estabilidade das instituições.
Outro episódio desta semana infrutífera para o governo foi a derrubada do veto presidencial ao PL da Dosimetria, que, embora previsível, não surpreendeu a ala progressista. Davi Alcolumbre, mais uma vez, arquitetou uma estratégia ao fracionar partes do veto integral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Com isso, buscou manter intacta a chamada Lei Antifacção e liberar exclusivamente o trecho que modifica a dosimetria das penas aplicáveis aos envolvidos na tentativa de golpe contra o Estado de Direito entre eles, Jair Bolsonaro e militares de alta patente, evitando, ao mesmo tempo, a concessão de benefícios a outras organizações criminosas. Esse fatiamento do veto e sua rejeição parcial, configuram uma manobra inconstitucional que certamente será alvo de questionamentos no Supremo Tribunal Federal.
A derrota de Jorge Messias, em meio ao ativismo de Davi Alcolumbre alinhado com setores da extrema direita e do Centrão, não constitui um episódio isolado, mas a expressão de um ambiente político profundamente degradado. Como ressaltei no início deste artigo, esse movimento se insere em um cenário marcado pelo avanço das investigações da Polícia Federal sobre o Banco Master e sobre os agentes envolvidos em relações promíscuas com a instituição, incluindo repasses eleitorais milionários a candidaturas no pleito de 2022, como os destinados às campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, além das conexões estreitas entre Daniel Vorcaro, parlamentares e caciques de partidos do Centrão e da extrema direita.
Diante desse panorama, intensificam-se as ofensivas contra o Executivo e as pressões sobre o STF, numa estratégia coordenada de produção permanente de crises, chantagens institucionais e desgaste político do governo. Ao fomentarem turbulências e deslocar o foco do debate público, essas forças oposicionistas buscam não apenas atacar Lula a seis meses das eleições, mas também obscurecer o avanço das investigações que ameaçam atingir setores centrais dessa engrenagem político-financeira.
É justamente nesse ambiente de radicalização política, armações de crises e manipulação calculada da opinião pública que se intensifica o uso sistemático da desinformação como instrumento de disputa política. A tentativa de desgastar o governo por meio de ataques pessoais e distorções dos fatos passa a ocupar o centro da estratégia de setores da extrema direita, convertendo a mentira em método de mobilização eleitoral.
Neste cenário pré-eleitoral, o senador Flávio Bolsonaro tem sido um dos principais expoentes dessa estratégia. Em participação a eventos voltados ao agronegócio, afirmou que o presidente Lula despreza o setor, apesar de os próprios indicadores econômicos demonstrarem o oposto. Vale destacar que durante o atual governo, o agronegócio registrou recordes de exportação, ampliação de mercados internacionais e expansão da produção, impulsionados por planos safra robustos e pela abertura de novos acordos comerciais. Concomitantemente, indicadores econômicos apontaram redução do desemprego, aumento da renda média, crescimento do consumo e retomada de investimentos públicos, mesmo em um cenário internacional instável afetado por guerras e tensões geopolíticas.
Apesar disso, a disseminação de desinformação encontra terreno fértil em uma população frequentemente exposta a conteúdos fragmentados nas redes sociais, ambiente em que grupos organizados da extrema direita atuam de forma massiva. Influenciadores financiados, redes coordenadas de ataques e setores da mídia corporativa contribuem para produzir percepções distorcidas da realidade, enfatizando crises e minimizando avanços sociais promovidos por governos progressistas.
A manipulação alcança níveis ainda mais perversos quando tragédias sociais são reutilizadas politicamente. Flávio Bolsonaro, por exemplo, voltou a divulgar imagens da chamada “fila do osso” para tentar associá-las ao atual governo, embora aquele cenário de fome extrema tenha se agravado durante a gestão de Jair Bolsonaro, período em que o Brasil retornou ao Mapa da Fome em meio ao aumento da pobreza e da insegurança alimentar. Essa lógica de inversão da realidade acompanha historicamente a atuação da extrema direita brasileira, marcada pela exposição de inimigos internos, estímulo ao caos social e ataques constantes às instituições democráticas. O próprio Jair Bolsonaro utilizou reiteradamente esse método político, incentivando radicalizações e desacreditando instituições para mobilizar sua base eleitoral. Esse padrão se reproduz atualmente por Flávio Bolsonaro.
Nesta atmosfera de obscurantismo, a sabatina de Jorge Messias ao STF tornou-se mais um exemplo dessa instrumentalização política usada como palanque eleitoral. Em vez de debater sua capacidade técnica, parlamentares bolsonaristas utilizaram o espaço para ataques ideológicos e acusações sem fundamento. Flávio Bolsonaro tentou insinuar proteção indevida ao Sindnapi, mas foi desmentido por documentos apresentados por Messias, que demonstraram a atuação da AGU contra entidades investigadas por fraudes envolvendo aposentados. A resposta de Messias deixou o senador desconcertado, em sua tentativa de usar a sabatina como um espaço para atacar o governo, seu principal concorrente à presidência da República. Da mesma forma, o senador Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flavio, transformou sua intervenção em palanque político ao fazer ataques desairosos às práticas de Messias durante sua gestão da Advocacia Geral da União. O senador parece ignorar que sobre si recaem diversas suspeitas e investigações relacionadas a improbidade administrativa, abuso de poder e vínculos com esquemas do orçamento secreto.
Além dos ataques políticos feitos no decorrer de seus itinerários de campanha, Flávio Bolsonaro passou a recorrer também a declarações de caráter etarista contra o presidente Lula, chamando-o de “Opala velho” e “mercadoria vencida”. As declarações revelam não apenas pobreza argumentativa, mas a incapacidade de confrontar adversários por meio de propostas e argumentos consistentes. A diferença entre ambos não se resume à idade, mas à densidade política e à dimensão histórica de suas trajetórias. Não há comparação possível entre a experiência de um líder político que governou o país em diferentes conjunturas históricas, enfrentou crises econômicas globais, construiu reconhecimento internacional e implementou políticas de inclusão social, e um parlamentar cuja projeção política permanece dependente do sobrenome que carrega e da radicalização ideológica de grupos extremistas e reacionários.
Apesar da imprensa e setores do bolsonarismo buscarem construir uma imagem infundada de moderação para Flávio Bolsonaro, suas próprias declarações frequentemente desmontam essa tentativa de reposicionamento. O discurso agressivo, a utilização recorrente de ataques pessoais, a argumentação de ser antissistema e sua associação com setores ultraconservadores e ultraliberais para ser validado pela elite financeira revelam sua verdadeira face. Rodeado pelo entorno político do bolsonarismo reúne figuras historicamente associadas ao fisiologismo e aos interesses das elites econômicas mais conservadoras, o que reforça as contradições de um grupo que se apresenta como “antissistema”, mas que historicamente estabeleceu alianças com setores tradicionais do poder econômico e político brasileiro. Políticos que preferem a mentira à verdade e transformam a manipulação em instrumento permanente de disputa eleitoral podem até conquistar apoio momentâneo, mas não se sustentam ao longo do processo eleitoral. Governar um país da complexidade do Brasil exige responsabilidade, compromisso com os fatos, experiência, capacidade de diálogo institucional e respeito à população.
A sucessão de ataques ao governo, ao STF e à própria verdade revela uma estratégia baseada na produção deliberada de crises, na distorção dos fatos e na exploração de instabilidade como instrumento eleitoral. Em um país marcado por profundas desigualdades e desafios sociais, a democracia exige discernimento coletivo para que a mentira, o oportunismo e o extremismo não prevaleçam sobre a responsabilidade política, o compromisso institucional e os interesses reais da população.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



