Articuladores mentirosos, incompetentes ou cegos
A articulação política é um ponto central de comparação entre o segundo mandato de Dilma Rousseff e o terceiro mandato de Lula
Um companheiro escreveu, num dos nossos grupos de WhatsApp: “Êita Senado porreta! Aceitou Flávio Dino, comunista, e rejeitou o ‘crente’. Só rindo (de raiva)”, fina e triste ironia.
A minha maior ira não é em relação aos votos dos senadores, não espero nada dessa gente; a maioria é de direita ou de extrema-direita, sem projeto para o país; alguns se apresentam como lobistas de setores econômicos, outros são, dizem, apenas corruptos em busca do enriquecimento pessoal. Minha indignação é em relação à articulação política do governo.
Vamos lá.
A rejeição do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal representa uma derrota histórica para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, além de evidenciar fragilidades graves na articulação política do governo. Não conheço o indicado e, a meu juízo, o nosso campo tem juristas muito mais preparados que o candidato derrotado, como, por exemplo: Pedro Serrano, Ricardo Lodi Ribeiro, Carol Proner e Lenio Luiz Streck, dentre outros, mas eu não sou o presidente da República.
Também não ignoro que o Congresso é presidido por um sionista, com ares de Dom Vito Corleone.
Não sou pago para fazer articulações, nem para levar informações ao presidente; quem é pago para isso falhou ou mentiu para o presidente.
A articulação política é um ponto central de comparação entre o segundo mandato de Dilma Rousseff (que levou ao impeachment em 2016) e o terceiro mandato de Lula (iniciado em 2023), com desafios distintos, mas com pontos de tensão similares na relação com o Congresso Nacional.
Lançarmos o olhar num passado recente pode ajudar.
Ocorreram falhas na articulação política em 2016.
Em 2016, os “gênios da articulação política” garantiram que a presidente teria 171 votos, necessários para barrar o impeachment. Mentiram, foram incompetentes ou estavam cegos nos seus gabinetes amplos, com ar-condicionado e poltronas de couro.
Dilma enfrentava, pelas suas virtudes, um isolamento político no Congresso, agravado pela crise econômica e denúncias da Operação Lava Jato; o governo, pressionado pelos articuladores políticos do PT, cometeu o erro estratégico de confrontar Eduardo Cunha, então presidente da Câmara, e permitiu que ele liderasse o processo de impeachment.
E nem me venham com a “conversa mole” de que foi a falta de habilidade política e o perfil técnico de Dilma que dificultaram o diálogo com parlamentares, os quais, “sensíveis”, se sentiam distantes do Planalto, pois esse era o trabalho de Mercadante, Jacques Wagner, dentre outros “gênios” da articulação e da análise política.
“Deu no que deu”. O hegemonismo e a arrogância de parcela importante do maior partido de centro-esquerda do Brasil foram os culpados pelo impeachment de Dilma Rousseff.
Não podemos ignorar os desafios na articulação do governo Lula 3.
Lula assumiu com o Congresso mais à direita desde a redemocratização, enfrentando um centrão ideológico e menos propenso a trocas de favores por recursos; o governo tem enfrentado derrotas em votações, incluindo a derrubada de vetos sobre a "lei das saidinhas" e pautas de costumes; há um dilema interno no governo sobre ceder cargos-chave ao centrão para garantir apoio ou manter aliados históricos, temendo um "efeito Temer" (traição interna); todas essas dificuldades têm obrigado o Presidente da República a assumir pessoalmente a articulação política após reveses, buscando evitar o mesmo isolamento que derrubou Dilma.
A decisão do Senado também funcionaria como recado da extrema-direita ao próprio STF, que atravessa um momento delicado, marcado por desgaste de imagem e divergências internas.
A rejeição, inédita em mais de cem anos, ocorreu em um contexto particularmente sensível: proximidade do calendário eleitoral e níveis de aprovação que limitam a capacidade de articulação do governo no Congresso.
Durante a votação, que terminou com 42 votos contrários e 34 favoráveis, faltaram 7 votos.
A senadora Mara Gabrilli discursou contra a indicação, citando críticas publicadas pela imprensa à escolha de um nome considerado próximo ao presidente, um discurso idiota, como idiota é a maioria dos bolsonaristas e os espécimes do “centrão” que se reconhecerão na extrema-direita, como a citada senadora. São, contudo, idiotas com voto.
Na Brasília das fofocas, dizem que o papel do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, teria sido decisivo. Relatos indicam que a derrota já era dada como certa antes mesmo da votação, sugerindo forte controle político do processo.
Davi Alcolumbre, do União Brasil-AP, já foi alvo de investigações, incluindo acusações de "rachadinha" e uso de funcionários fantasmas entre 2016 e 2021, além de inquéritos sobre crimes eleitorais arquivados pelo STF em 2019. Seu nome aparece em casos envolvendo aliados, e a PF apontou que ele não era diretamente investigado.
Aliados do governo apontam uma combinação de fatores: traições de última hora, cálculo eleitoral dos senadores e uma articulação organizada da oposição para transformar a votação em um símbolo de enfrentamento ao Planalto, ou seja, a “culpa” é sempre dos outros, nunca dos articuladores políticos do PT, “né?”.
Há ainda quem veja influência indireta de setores do próprio STF, além de interesses cruzados envolvendo futuras indicações à Corte; tudo isso é irrelevante, o fato é que perdemos no voto, perdemos na política.
O episódio remete, inevitavelmente, a 2016.
Naquele momento, disseram à presidente Dilma Rousseff que havia votos suficientes para barrar o impeachment. Não havia. Agora, garantiram a Lula um placar que também não se confirmou.
Resultado: mais uma vez, a realidade política desmentiu a “matemática” simpática e “cheirosinha” dos geniais articuladores do PT.
Enfim, fica o registro — com ironia, ira e frustração — de que a articulação falhou e expôs o presidente Lula a constrangimento histórico e dificultou nossa militância.
Essas são as reflexões.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


