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Carlos Carvalho

Doutor em Linguística Aplicada e professor na Universidade Estadual do Ceará - UECE.

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Ainda nos resta o inverno russo

A maior potência bélica do mundo está nas mãos de um sujeito visivelmente desequilibrado, narcisista e com mania de grandeza

Presidente dos EUA, Donald Trump 07/10/2025 (Foto: Evelyn Hockstein/Reuters)

Parece que foi ontem, mas foi em 2019, quando manifestações de extrema direita empurraram Evo Morales, então presidente da Bolívia, para a renúncia. Em meio a tudo o que se sucedeu ao golpe estava a disputa pelos 23 milhões de toneladas de lítio localizados no sul do país e cujo principal interessado era o “gênio” Elon Musk. Não mais que de repente, o Riquinho Rico dono da Tesla e de mais meio mundo correu às redes sociais para negar qualquer participação sua e dos Estados Unidos no golpe que depusera Morales. Questionado no Twitter acerca do referido assunto, Riquinho Rico disse: “Vamos dar golpe em quem quisermos! Lide com isso”. Pausa para aula de português: na frase “Vamos dar golpe em quem quisermos”, quem é o sujeito?

A resposta, meu caro amigo, está soprando aos quatro ventos nos quatro cantos do mundo. A lista é imensa e envolve Panamá, Iraque, Afeganistão, Líbia, Irã e Síria. E agora, a Venezuela. A pergunta mais urgente é: qual será o próximo país a ter sua soberania violada e seu governante deposto, sequestrado ou morto? A resposta talvez esteja conectada ao que esse ou aquele país tem que possa ser roubado, pilhado. Na Bolívia, o lítio; na Venezuela, o petróleo; no Irã, o petróleo e o controle do Estreito de Ormuz; Cuba e Groelândia (o que será que há embaixo de todo aquele gelo da Groelândia, hein?) suas posições estratégicas. Não esqueçamos que a água se tornará rara e o Brasil é rico em água. Além disso, o Brasil é, literalmente, um gigantesco entrave à volta da América Latina como quintal dos Estados Unidos. Se não conseguem dominar, vão fazer de tudo para desestabilizar.  E tal processo já está em curso. A América para os americanos. 

Ah, e não me venha com esse papo de que o presidente Maduro era um ditador, que odiamos ditadores e que os Estados Unidos estão aí para levar a democracia a tais países e que o povo venezuelano agora está livre e sua vida vai melhorar. Ora, pensar assim é “pensar” rasamente e reproduzir as abobrinhas que os americanos querem que você saia vomitando por aí. O buraco é mais embaixo. A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos e o consequente sequestro do seu presidente eleito constituem-se como exemplos claros do desrespeito dos Estados Unidos pela soberania dos outros povos e, consequentemente, a violação do direito internacional. Convém ressaltar que “captura”, a palavra usada pelos sequestradores norte-americanos tem a intenção de animalizar o presidente sequestrado. Não houve captura, mas o crime hediondo de sequestro. E aqui cabe mais uma perguntinha: e se Putin tivesse sequestrado o fantoche Zelensky?  Como estaria reagindo a Europa, a mídia golpista e os acéfalos da extrema direita brasileira?

O momento político atual não é, nem de longe, de “oba, oba” nem de comemorações. As decisões e ações criminosas do presidente norte-americano, se não paradas pelo Congresso, implicarão muito rapidamente no fim da ordem constitucional nos Estados Unidos. Isso ocorrendo, tudo o mais será possível pois a maior potência bélica do mundo está nas mãos de um sujeito visivelmente desequilibrado, narcisista e com mania de grandeza. A Alemanha já nos mostrou como esse filme termina. Agora foi a vez da Venezuela, amanhã será a vez do Irã. A questão é que atitudes extremas acabam por criar outras atitudes ainda mais extremas. No tabuleiro geopolítico mundial, até quando Rússia e China manterão suas peças paradas? Até quando o corvo alimentado pela Europa não lhe arrancará os olhos? Algo tem que ser feito. Não podemos apenas confiar no inverno russo como nossa última fronteira.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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