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Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista e MBA em Jornalismo pela Universidade de Wisconsin-Madison

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Ano eleitoral reativa engrenagens de desestabilização estilo Lava Jato

Ano eleitoral reacende engrenagens de desestabilização ao estilo Lava Jato e amplia tensão entre PF e STF

Plenário do STF (Foto: Gustavo Moreno/STF)

O velho roteiro reaparece

O alerta lançado por Luís Nassif neste sábado, 14, no GGN não pode ser tratado como mera hipérbole. Ao afirmar que “o monstro despertou” e que começa a se delinear uma espécie de Lava Jato 2, Nassif não descreve uma operação já comprovada, mas um ambiente político-institucional que, no passado recente, produziu efeitos devastadores.

Ele enumera quatro elementos que marcaram o ciclo 2014–2018 e que voltam a aparecer:

  1. sensação disseminada de corrupção fora de controle;
  2. um caso com ramificações por todo o Estado, permitindo vazamentos seletivos;
  3. alinhamento progressivo de setores da mídia contra Lula;
  4. ofensiva contra o devido processo legal, com tensão entre Polícia Federal e STF.

Separados, esses fatores fazem parte da rotina política. Combinados, formam um método de desestabilização.

O Brasil já viu esse roteiro.

Faria Lima, caixa amarela e o aumento da pressão

Nassif acrescenta elementos que ampliam o quadro de tensão. Segundo ele, um conjunto de fatores agravou o cenário:

  • a ofensiva da Polícia Federal contra esquemas ligados ao crime organizado incrustado na Faria Lima, que teria despertado reação de setores do mercado financeiro contra o Supremo;
  • a chamada “caixa amarela” da 13ª Vara, com informações explosivas sobre práticas de chantagem atribuídas à Lava Jato e possíveis interferências de órgãos policiais norte-americanos, colocando quadros lavajatistas em estado de alerta;
  • e a exposição de contratos ligados a ministros do STF, entre eles Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, abrindo flancos políticos para ofensivas.

A convergência desses fatores cria um ambiente de pressão cruzada:

  • mercado financeiro incomodado;
  • setores da PF tensionados com o Supremo;
  • e vazamentos alimentando a narrativa de crise.

Não se trata de afirmar uma operação coordenada já comprovada. Mas a combinação de sinais produz um terreno fértil para a reedição de métodos conhecidos: desgaste progressivo do STF, exposição seletiva de ministros e construção de um clima político que fragiliza a estabilidade institucional em ano eleitoral.

Ano eleitoral e margem estreita

O contexto eleitoral amplifica o risco. As pesquisas indicam Lula à frente em 2026, mas com vantagem estreita sobre o segundo colocado, Flávio Bolsonaro.

Em disputas desse tipo, o fator decisivo raramente é programático. É o ambiente.

Crises institucionais, vazamentos e ruídos de governabilidade podem:

  • reduzir confiança no governo;
  • tensionar o Judiciário;
  • e alterar o equilíbrio político.

Não é preciso provar uma conspiração centralizada para reconhecer um processo de erosão. Basta observar a convergência de sinais.

O vídeo que acendeu o alerta

Nesse cenário, ganhou circulação um vídeo do portal Global Market Brief que afirma que Lula teria sido alertado sobre a atuação de “infiltrados” dentro do próprio governo e do aparato estatal.

Não há confirmação oficial dessas informações. Mas o impacto político do conteúdo não depende de confirmação.

O vídeo sustenta que:

  • haveria atuação silenciosa de quadros travando decisões estratégicas;
  • vazamentos calculados;
  • e pressão crescente sobre o STF.

Em política, a circulação dessa narrativa já produz efeito concreto: instala a percepção de instabilidade.

E percepção, em ano eleitoral, é poder.

A fala atribuída a Gilmar Mendes

A tensão institucional ganhou novo patamar na reunião do STF em que Dias Toffoli deixou a relatoria do Caso Master. Segundo relato publicado pelo Poder360 e reproduzido por diversos veículos, o ministro Gilmar Mendes teria afirmado:

“Eu acho que o que está por trás disso é que o ministro Toffoli tomou algumas decisões ao longo do seu tempo nesse caso Master aqui no STF que contrariaram a Polícia Federal. E a Polícia Federal quis revidar.”

Se confirmada em seu teor e contexto, a frase sugere a existência de conflito direto entre a Polícia Federal e um ministro do Supremo.

Esse tipo de atrito não é trivial. Quando surge acompanhado de vazamentos e pressão política sobre o STF, ele se insere em um quadro mais amplo de disputa institucional.

É legítimo que decisões do Supremo sejam criticadas. É legítimo que investigações avancem. Mas a hipótese de retaliação institucional — ainda que sugerida em bastidores — desloca o debate para outro patamar: o da estabilidade do próprio sistema de Justiça.

O ponto central não é proteger este ou aquele ministro. É impedir que disputas corporativas se convertam em crise institucional com impacto direto no processo eleitoral.

O método: pressionar o STF

A experiência recente mostra um padrão:

  1. constrói-se narrativa de crise moral;
  2. multiplicam-se vazamentos;
  3. tensiona-se a relação entre PF e Supremo;
  4. e amplia-se a pressão sobre garantias legais.

O resultado, entre 2016 e 2018, foi devastador:

  • perda de capacidade de contenção institucional;
  • radicalização política;
  • e impacto direto na eleição presidencial.

A repetição do método não exige repetir os mesmos personagens. Basta reativar a lógica.

O alerta de Moisés Mendes

No Brasil 247, o jornalista Moisés Mendes acrescenta um alerta incômodo: parte da esquerda pode estar caindo na armadilha da “lacração” e reproduzindo o mesmo ambiente punitivista que alimentou a Lava Jato.

Segundo ele, transformar o Caso Master em um eventual “Caso Toffoli” seguiria a lógica que, no passado, mirou Lula: não se tratava apenas de combater corrupção difusa, mas de escolher alvos simbólicos capazes de produzir impacto político.

A sequência, segundo Mendes, poderia ser:

  • Alexandre de Moraes;
  • depois Dias Toffoli;
  • e, mais adiante, outros ministros como Flávio Dino.

O objetivo seria produzir troféus políticos e enfraquecer o Supremo.

O alerta é duro, mas necessário. Críticas a decisões do STF são legítimas. Mas a transformação dessas críticas em campanha de deslegitimação pode corroer a própria instituição que garantiu a preservação do processo democrático após a tentativa de golpe.

Crítica necessária, defesa indispensável

Ministros do STF precisam se defender de acusações e explicar decisões controversas. Isso vale para Toffoli, para Moraes e para qualquer integrante da Corte.

Mas há uma linha que não pode ser ultrapassada: a da destruição institucional.

Desmoralizar o Supremo, em ano eleitoral, não é apenas disputa jurídica. É disputa de poder.

O risco é reabrir conflitos já encerrados e fragilizar a instância que arbitra o processo democrático.

O precedente que não pode ser ignorado

Entre 2016 e 2018, o Brasil viveu um processo que combinou:

  • operações judiciais;
  • guerra de narrativas;
  • pressão midiática;
  • e impacto eleitoral direto.

O resultado foi conhecido: Lula preso, afastado da eleição, Bolsonaro eleito, país mergulhado em radicalização.

Quando a história ameaça se repetir

Em 2018, Lula era o favorito para vencer a eleição presidencial. Foi preso pela Lava Jato.

Permaneceu detido por 580 dias. Foi impedido de fazer campanha. Foi proibido de conceder entrevistas. Foi impedido até de dizer publicamente quem deveria substituí-lo como candidato.

A eleição seguiu sem ele. O resultado todos conhecem.

Hoje, novamente, Lula lidera as pesquisas para a disputa de outubro. Novamente, o país entra em ano eleitoral sob um ambiente de vazamentos, pressão institucional, ataques ao Supremo e construção de um clima permanente de crise.

A pergunta, inevitável, volta em 2026: o monstro despertou outra vez?

Os nomes que realmente disputam a eleição presidencial de 2026 não são apenas dois projetos políticos. São dois polos de um mesmo trauma recente.

De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva, que já foi retirado de uma eleição por uma operação judicial posteriormente desmoralizada. De outro, Flávio Bolsonaro, herdeiro político de Jair Bolsonaro — condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos de prisão — e representante de um campo que nunca aceitou plenamente o resultado das urnas.

Em 2018, a eleição foi atravessada por operações judiciais, vazamentos e pressões institucionais. Em 2026, o ambiente volta a se encher de sinais semelhantes.

Ninguém precisa provar a existência de um plano único e centralizado para reconhecer o perigo. Basta observar a convergência: ataques a ministros, vazamentos seletivos, pressão sobre o STF, construção de um clima de instabilidade em pleno ano eleitoral.

O Brasil já viu esse filme

E sabe como ele termina quando as instituições hesitam.

Se há algo que a experiência recente ensinou é que a democracia não costuma cair de uma vez. Ela é desgastada aos poucos — por narrativas, pressões, vazamentos e crises fabricadas — até que, quando se percebe, o processo eleitoral já foi contaminado.

A pergunta que se impõe, diante do que se move no subsolo da política, não é apenas quem vencerá a eleição.

É se ela chegará a outubro com regras intactas, instituições preservadas e o voto respeitado.

O país já pagou caro demais para ignorar os sinais.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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