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Henrique Pinheiro

Henrique Pinheiro é economista e executivo do mercado financeiro com mais de quatro décadas de atuação no Brasil e no exterior. Trabalhou em instituições como Merrill Lynch e Wells Fargo, e atualmente atua na Bolton Global Capital, em Miami. É autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor e produtor do documentário Terra Revolta: João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária.

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Antes dos tanques, o dinheiro: o IBAD e a engrenagem civil do golpe

Como empresários financiaram a narrativa que preparou a ruptura — e por que o método ainda ecoa no presente

Antes dos tanques, o dinheiro: o IBAD e a engrenagem civil do golpe (Foto: Divulgação)

Pouco se fala, mas o golpe de 1964 não começou nos quartéis. Começou antes — no dinheiro, na propaganda e na construção de um clima de medo.

O Instituto Brasileiro de Ação Democrática não era um centro de estudos. Era uma estrutura organizada para influenciar o rumo político do país. Sob a coordenação de Ivan Hasslocher, canalizou recursos de empresários e grupos econômicos para financiar campanhas, sustentar candidatos e moldar a opinião pública.

Não se tratava apenas de apoio político. Tratava-se de fabricar consenso. O país era apresentado como à beira do colapso. O comunismo, como ameaça iminente. A intervenção, como solução inevitável. Nada disso foi espontâneo. Foi construído — com dinheiro, estratégia e repetição.

O IBAD atuava em paralelo com o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, responsável por dar sustentação ideológica ao mesmo processo. Um financiava. O outro justificava. Dinheiro e narrativa. Essa engrenagem ajudou a criar o ambiente que tornou o golpe possível. Antes da ruptura institucional, houve a deslegitimação do governo. Antes dos tanques, vieram os anúncios, os panfletos e as campanhas.

A CPI de 1963 revelou parte desse mecanismo e levou ao fechamento do IBAD. Mas o método não desapareceu. Apenas se transformou.

Hoje, não são mais panfletos — são redes sociais. Não são mais institutos discretos — são plataformas, think tanks e estruturas digitais de influência. A lógica, porém, é a mesma: financiar narrativas, amplificar o medo e moldar percepções. O que antes circulava em papel hoje corre em algoritmos, com velocidade e escala incomparáveis.

A democracia não é ameaçada apenas por rupturas explícitas, mas pela construção silenciosa de consensos artificiais. O IBAD não foi um acidente histórico. Foi um método. E métodos que funcionam nunca desaparecem — apenas mudam de forma.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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