O coronel que salvou o superintendente da Reforma Agrária
O gesto individual de honra atravessou as trincheiras ideológicas e impediu que uma acusação política se transformasse em condenação histórica
Em agosto de 1963, a pedido direto do presidente João Goulart, João Pinheiro Neto — então Superintendente da SUPRA (Superintendência da Política Agrária) — foi enviado a Governador Valadares para conter a invasão da fazenda da Duquesa de Luxemburgo, propriedade estrangeira ligada à Belgo-Mineira.
O caso tinha repercussão diplomática imediata, após cobrança do Cônsul da Holanda. Mas o cenário local era ainda mais explosivo.
Governador Valadares vivia um dos ambientes mais tensos da luta pela terra no país. A região era marcada por conflitos agrários, forte reação armada de grandes proprietários e episódios de violência contra camponeses — relatos da época mencionavam trabalhadores perseguidos, assassinados e até corpos lançados no Rio Doce. A SUPRA havia criado ali o primeiro sindicato rural da cidade, numa tentativa de institucionalizar e pacificar as reivindicações. A tensão era permanente.
Pinheiro foi recebido num clima de ameaça aberta. Fazendeiros armados falavam em guerra. Lideranças locais o advertiram que sua ida seria uma “missão suicida”. Mesmo assim, negociou diretamente com Chicão, presidente do sindicato rural criado pela SUPRA, e buscou interlocução com o influente Coronel Altino, grande proprietário da região.
O resultado foi a desocupação pacífica da fazenda. Antes de retornar, a pedido do próprio Coronel, Pinheiro redigiu um manifesto afirmando que o governo não admitia invasões e que a reforma agrária deveria ocorrer dentro da lei.
Meses depois, com o golpe de 1964, a situação se inverteu. O sindicato rural foi destruído no dia seguinte à deposição de Goulart. Chicão e sua família, jurados de morte, tiveram de fugir. João Pinheiro Neto foi preso e acusado, em IPM, de incitar invasões de terra.
É então que a história revela sua ironia maior.
Foi o próprio Coronel Altino — liderança regional identificada com o movimento de 1964 — quem compareceu às autoridades levando o documento assinado pelo superintendente da SUPRA. O manifesto serviu como prova decisiva de que a missão fora para conter, e não promover, invasões.
O coronel conservador salvou o reformista da reforma agrária.
Num país já “sentado num barril de pólvora”, o gesto individual de honra atravessou as trincheiras ideológicas e impediu que uma acusação política se transformasse em condenação histórica.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



