Henrique Pinheiro avatar

Henrique Pinheiro

Henrique Pinheiro é economista e executivo do mercado financeiro com mais de quatro décadas de atuação no Brasil e no exterior. Trabalhou em instituições como Merrill Lynch e Wells Fargo, e atualmente atua na Bolton Global Capital, em Miami. É autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor e produtor do documentário Terra Revolta: João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária.

10 artigos

HOME > blog

O dia seguinte ao golpe

Entender o dia 1º de abril de 1964 é compreender como a ruptura deixou de ser um fato isolado e se tornou um sistema duradouro

Ditadura Militar (1964-1985), ato contra o último regime ditatorial brasileiro, que ocorreu dos anos 60 aos anos 80, e os atos golpistas do 8 de Janeiro de 2023 (Foto: Arquivo Nacional I Agência Brasil I Divulgação)

O golpe de 31 de março de 1964 costuma ser lembrado como o dia em que um presidente caiu. Mas foi no dia seguinte que tudo ficou claro.

Em 1º de abril,o Brasil já não tinha comando civil. O Congresso,sob a condução do presidente da Casa, o senador Auro de Moura Andrade, declarou vaga a presidência enquanto João Goulart ainda estava no país. Não se tratava de ausência de poder,mas da tentativa de dar aparência legal a uma ruptura já consumada.

Chamaram de legalidade.Chamaram de “Revolução”. Chamaram de redentora—porque todo golpe precisa de um nome que o justifique.

O poder deixou de estar nas urnas e passou para os quartéis. E o mais impressionante:quase não houve resistência organizada.

Havia tropas legalistas no Sul.Leonel Brizola insistia em reagir. Havia caminho. Mas Jango decidiu não levar o país a uma guerra civil. Evitou o confronto imediato, mas abriu espaço para algo que viria depois:uma repressão longa, organizada e silenciosa.

Os dias seguintes mostraram que não se tratava de uma transição,mas de uma mudança profunda.Sindicatos foram fechados,lideranças presas,estudantes perseguidos. A política foi sendo substituída pela ideia de “inimigo interno”.

A partir daí, não havia mais adversários. Havia “subversivos”. E contra eles,tudo passava a ser permitido.

No dia 2 de abril, a Marcha da Família voltou às ruas. Já não era mais pressão—era apoio. Empresários,parte da imprensa, setores da classe média e da Igreja viam naquele movimento uma solução para a crise.

Enquanto uma parte do país comemorava,outra começava a ser silenciada. Prisões arbitrárias tornaram-se comuns. A violência deixou de ser exceção e passou a ser método.

Poucos dias depois,veio o Ato Institucional nº 1.Ali,a exceção ganhou forma.Cassações,suspensão de direitos,afastamentos. O Estado passou a decidir quem podia ou não participar da vida pública.

Entre os atingidos estava meu pai.

João Pinheiro Neto, que já havia sido ministro do Trabalho e, à época do golpe,era o superintendente da política agrária, responsável pela implementação da reforma agrária já decretada dias antes no comício da Central do Brasil. Como tantos outros,teve sua trajetória interrompida.

Esse é o ponto central de 1964. Não foi apenas um golpe militar. Foi o início de um sistema baseado na exceção. As instituições continuaram existindo, mas esvaziadas.

Nada disso aconteceu por acaso. Houve organização,narrativa e apoio. Os Estados Unidos acompanharam de perto, dentro do contexto da Guerra Fria, e estavam preparados para sustentar o novo regime, se necessário.

O Brasil não virou Cuba. Mas pagou um preço alto.

O que se prometia como solução rápida durou 21 anos. Ao longo desse período,o regime se aprofundou, trazendo censura, perseguição e violência.

Por isso,entender o dia seguinte ao golpe é fundamental. Foi ali que a ruptura deixou de ser um fato isolado e passou a ser um sistema.

A chamada “redentora” não redimiu. Apenas interrompeu a democracia.

E talvez o ponto mais incômodo seja este: o golpe não venceu apenas pela força.

Venceu porque foi aceito.

E, no Brasil, quando a ruptura é aceita, ela sempre encontra caminho para voltar.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados