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Leopoldo Vieira

Jornalista profissional, pós-graduado em Administração Pública e Ciência Política. CEO da Idealpolitik. Trabalhou como analista sênior de política na Faria Lima (TradersClub) e nos ministérios do Planejamento, Secretaria de Governo e Relações Institucionais nos governos Dilma Rousseff e Lula.

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Apesar das turbulências, Lula mantém favoritismo na polarização

Datafolha sugere fôlego para o governo nas disputas narrativas

Luiz Inacio Lula da Silva (Foto: Ricardo Stuckert/PR )

Apesar das turbulências dos últimos dias, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva manteve a liderança da corrida eleitoral, segundo pesquisa Datafolha divulgada no sábado. O resultado sugere fôlego para o governo nas disputas narrativas, sobretudo em pautas como corrupção, quando apresentadas sob um enquadramento antissistema. No entanto, para a população, quem simboliza o sistema político é o presidente da República, como observa o cientista político Carlos Alberto Almeida. Nesse sentido, os números do Datafolha suscitam dúvidas sobre se será o incumbente quem sofrerá maior desgaste com os desdobramentos do caso do Banco Master e da disputa em torno da quebra de sigilos do filho de Lula, por exemplo.

“O impacto político das investigações dependerá menos da existência dos casos e mais da capacidade de governo e oposição de transformá-los em narrativa pública”, avaliou Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, ao programa Mapa de Risco, do InfoMoney. A pesquisa Genial/Quaest, prevista para quarta-feira, deve oferecer novos sinais.

O vetor central da eleição

Mais uma vez, a polarização, em meio ao clima de campanha antecipada, explica o empate técnico entre Lula (46%) e o senador Flávio Bolsonaro (43%). O levantamento anterior do instituto, realizado em dezembro, captou apenas o lançamento da candidatura, que ficou conhecido como “risco Flávio”. O histórico recente mostra que a divisão do país limita a conversão de entregas em popularidade, assim como os efeitos tanto de desgastes políticos quanto de agendas positivas. A polarização molda também a aprovação do governo e a rejeição dos candidatos, além de pressionar partidos de centro-direita a priorizar arranjos locais alinhados à tendência lulista ou bolsonarista de estados e regiões. Isso dificulta alianças e coalizões nacionais e põe em xeque dinâmicas tradicionais de governabilidade observadas na década passada.

Nesse contexto, enquanto a cúpula do Congresso bloqueia a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o Master, crescem os impasses na CPI do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), como o prazo curto até o encerramento dos trabalhos e a indisposição do Centrão de prolongar riscos políticos, o que pode acomodar pressões sobre integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF). No próximo período, portanto, devem ganhar destaque as investigações e medidas da Polícia Federal (PF), sob relatoria do ministro da Corte André Mendonça.

Disputa distributiva em alta, com estabilidade

Na frente econômica, o senador Bolsonaro e a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, anteciparam um dos prováveis eixos da polarização neste ano: as reformas trabalhista e previdenciária. Enquanto o oposicionista prometeu retomá-las em moldes amigáveis ao mercado financeiro, Gleisi alertou para riscos de maior precarização e de dificuldades de acesso à aposentadoria, em uma conjuntura marcada pela crise de saúde mental, pelo envelhecimento da população brasileira e pelo avanço da inteligência artificial, que ameaça empregos. Ao mesmo tempo, o megainvestidor Luis Stuhlberger afirmou, em entrevista ao Pipeline, não ver notícias “muito ruins” no quadro fiscal brasileiro, que considera relativamente equilibrado no resultado primário.

Assim, o presidente continua navegando nas águas turvas da polarização, com leve vantagem, sustentada em parte por um reposicionamento antissistema articulado nas dimensões ético-morais, econômicas, políticas, sociais e de segurança pública, ao se dirigir a grandes agentes do mercado financeiro, a bilionários contrários à distribuição de renda e à redução da jornada de trabalho, além de grupos econômicos que defendem benefícios tributários próprios e de atores associados a esquemas de lavagem de dinheiro ligados ao crime organizado.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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