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Leonardo Giordano

Gestor público com trajetória dedicada às políticas culturais. Foi secretário municipal das Culturas de Niterói (RJ) e participou de seis legislaturas na Câmara Municipal como vereador, onde presidiu a Comissão de Cultura e Patrimônio Histórico, atuando na defesa da cultura, da memória e do patrimônio da cidade.

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Arariboia não foi traidor: o erro histórico de julgar líderes indígenas com a régua da colonização

Arariboia não cabe nas roupas do colonizador

Arariboia não foi traidor: o erro histórico de julgar líderes indígenas com a régua da colonização (Foto: Bruno Bou)

“Revisitar a história de Niterói pela perspectiva dos povos originários é dar voz à fundação da verdade.” A reflexão de Ailton Krenak, feita durante o Encontro com Arariboia, realizado nos dias 20 e 21 de março, em Niterói, ajuda a expor uma distorção persistente na forma como a história brasileira foi construída. Ao longo do tempo, Arariboia, líder de seu povo, foi enquadrado por uma leitura moral que o reduz à ideia de traição, ignorando o contexto de guerra, disputa territorial e sobrevivência coletiva. Esse julgamento, ancorado em uma perspectiva colonizadora, não apenas distorce sua trajetória como apaga seu papel estratégico como liderança indígena. Reposicioná-lo em seu tempo é também questionar quem narra a história e quais interesses sustentam essa narrativa.

Em 1909, quando Antônio Parreiras entregou à municipalidade a tela Fundação de Niterói, o ponto mais explosivo da obra não era técnico: era político. Arariboia aparecia no centro da cena como líder indígena altivo, e isso bastou para causar incômodo. A historiografia registra que ele foi representado “em seus trajes indígenas, sem comenda e sem trajes reais”, o que desagradou a membros da Comissão Glorificadora, que preferiam vê-lo marcado pelos sinais do reconhecimento português. O próprio Parreiras respondeu pessoalmente por escrito aos críticos e sustentou que não podia representar Araribóia senão em “puro caráter selvagem”, recusando vê-lo “ridiculamente enfiado em uma roupa usada(...)”. O conflito já estava dado: não era apenas uma disputa sobre pintura, mas sobre quem tinha o direito de definir a imagem pública de um herói indígena.

Arariboia, do tupi araryboîa, foi um chefe do povo temiminó, da matriz tupi, que habitava o litoral brasileiro no século XVI e desempenhou papel central nas disputas territoriais da região da Guanabara. Desde o início, portanto, a memória de Arariboia foi disputada. Quando convinha ao discurso oficial, desejava-se um fundador indígena já domesticado, quase absorvido pela ordem colonial; quando isso não era possível, vinha a desconfiança moral sobre sua legitimidade nativa. É justamente por isso que a controvérsia em torno do cacique nunca foi só sobre o século XVI. Ela é também sobre o presente: sobre a dificuldade persistente de reconhecer um protagonista indígena sem tentar embranquecê-lo, moralizá-lo ou enquadrá-lo numa pedagogia colonial tardia. Transformar estratégia em traição sempre foi uma das formas mais eficientes de deslegitimar lideranças

Como lembrou Luiz Antonio Simas, ao rememorar os trabalhos do comitê dos 450 anos da fundação da cidade do Rio de Janeiro, o nome de Araribóia não entrou pacificamente no rol dos heróis consensuais do Estado. Ao contrário: despertou, em suas palavras, “atenção”, “estranhamento” e “até oposição”. O episódio é revelador. Em um país acostumado a celebrar personagens moldados pela ordem colonial, um herói indígena ainda causa desconforto. E talvez cause justamente porque sua presença obriga a rever quem teve o direito de representar o Brasil e quem foi empurrado para fora da moldura.

Arariboia não cabe nas roupas do colonizador. Foi contra esse enquadramento, que insiste em reduzir o líder de seu povo a uma leitura moral colonizadora e apaga sua dimensão política e estratégica, que foi a partir desse contexto que o Encontro com Arariboia foi construído coletivamente, um momento histórico de partilha, realizado em Niterói. O projeto começou a ser lançado em dezembro de 2025, pela Prefeitura de Niterói, sob o comando de Rodrigo Neves, em articulação da Secretaria Municipal das Culturas, da Fundação Casa de Rui Barbosa e com participação ativa e protagonismo de lideranças indígenas como Daiara Tukano, Denilson Baniwa e Anapuaka Tupinambá. Além da colaboração de parceiros como Matheus Lima, Leonardo Brandão e Alexandre Santini. Neste fim de semana, entre 20 e 22 de março de 2026, ele ganhou sua forma mais visível, com ritual de abertura, o Veredito Ancestral sobre a batalha de Uruçumirim, mesas de debate sobre memória e re-existência indígena, almoço comunitário, apresentação do Coral Guarani de Maricá, roda de conversa sobre curadoria compartilhada, celebração ao pôr do sol e a pedalada cultural pelos pontos históricos indígenas no domingo. Não se trata apenas de memória.Trata-se de poder, presença e direito à narrativa. Não foi um evento protocolar. Foi uma intervenção pública para disputar o modo como a cidade narra a si mesma. Para ouvir aqueles que precisam narrar a história do Brasil.

Tenho especial orgulho de ter participado dessa construção ao lado também da secretária das Culturas, Julia Pacheco. E uma das coisas mais fortes do encontro foi justamente o fato de ele não ter sido organizado para falar sobre os povos indígenas sem eles, mas para criar um espaço real de escuta, protagonismo e elaboração pública. Não escrevo, portanto, para substituir a palavra das lideranças que estiveram ali. Escrevo para registrar o que a cidade pôde ouvir e aprender. E, no caso do Cacique, o que se ouviu foi incompatível com a caricatura moralista de Arariboia como simples traidor. Daiara Tukano lembrou, no lançamento e na repercussão do projeto, que “antes de qualquer Ibéria e antes de qualquer América, este território é indígena”. Ailton Krenak resumiu o sentido mais profundo do encontro ao dizer que revisitar a história de Niterói pela perspectiva dos povos originários é “dar voz à fundação da verdade”. Não é só a história de Arariboia que está em disputa. É quem tem o direito de contar a história do Brasil.

Esse ponto é decisivo porque a questão indígena no Brasil contemporâneo não é uma nota de rodapé do passado. O Censo 2022 registrou uma poderosa variação cultural no país – com 391 etnias e 295 línguas identificadas. Falar de povos indígenas hoje não é falar de um resíduo histórico isolado, mas de uma presença nacional, viva, diversa e contemporânea, atravessada por disputas de território, cultura, representação, educação, memória e poder. E, no debate climático atual, o próprio governo federal e a presidência brasileira da COP30 vêm afirmando que os povos indígenas precisam participar das decisões nas esferas públicas, reconhecendo o papel dos territórios e povos indígenas no enfrentamento da crise climática.

Foi isso, aliás, que apareceu com força no encontro: A batalha de Uruçumirim e Arariboia não surgiram apenas como figuras do passado remoto, mas como ponto de condensação de

que seguem vivos. Território, memória, reparação histórica, visibilidade, racismo estrutural, direito à palavra, presença indígena nas cidades, defesa ambiental e crítica às imagens coloniais apareceram como partes de um mesmo problema. O debate sobre Arariboia, quando levado a sério, deixa de ser uma querela antiquária e se torna uma porta de entrada para pensar cada vez mais a nossa cidade e o Brasil real.

Considero pobre o velho tribunal moral montado em torno do cacique. A política indígena no século XVI não pode ser julgada com a serenidade cômoda de quem já conhece o desfecho da guerra e pela percepção hegemonica de quem narra. Arariboia viveu a expulsão de seu povo da região da Guanabara, o deslocamento para o Espírito Santo, a reorganização de sua gente e depois o retorno a um território em guerra, num cenário em que portugueses, franceses e diferentes povos indígenas disputavam a baía e o destino da terra. Nesse contexto, a aliança não foi covardia. Foi estratégia política num mundo devastado.

A bibliografia séria, inclusive, ajuda mais a compreender do que a simplificar. Marcello Felipe Duarte, dialogando com Maria Regina Celestino de Almeida, mostra que chefias indígenas como Arariboia devem ser vistas como agentes intermediários, não como mera massa de manobra. O próprio texto destaca que os povos indígenas foram essenciais ao processo de colonização, seja como aliados, seja como inimigos, e que lideranças como Arariboia adquiriram prestígio precisamente por ocuparem essa posição estratégica entre mundos em conflito. Em outra chave, a divulgação da biografia de Rafael Freitas da Silva insiste no mesmo ponto: Arariboia foi “exímio guerreiro e estrategista” e não se tornou, por isso, “uma marionete de Portugal”.

É exatamente aqui que, a meu ver, parte da crítica acadêmica produzida de fora dos povos originários por vezes escorrega. Porque frequentemente se extrai do personagem uma contradição para transformá-la em sentença moral. Mas quem imagina que Arariboia só seria digno se tivesse recusado qualquer mediação e marchado para uma morte gloriosa em nome de uma pureza abstrata que o condena uma segunda vez. Primeiro à violência colonial do seu tempo; depois à violência moral de um presente que parece aceitar o indígena apenas quando ele cabe no papel de vencido, sacrificado ou silencioso. A mim parece mais justo, e mais histórico, reconhecer nele uma liderança hábil, guerreira e politicamente ativa.

Essa cobrança é ainda mais perversa porque raramente incide com a mesma fúria sobre os agentes brancos da conquista, da guerra, da catequese e do extermínio. O que se examina com lupa, quase sempre, é a índole moral do indígena. Desloca-se assim o centro do problema: a violência estrutural da colonização sai de cena, e no seu lugar se instala um julgamento tardio do comportamento da vítima histórica, em sua reação. Nesse ponto, a insistência em desqualificar Arariboia por suas contradições me parece semelhante a outras operações brasileiras de neutralização simbólica, em que se busca arrancar figuras populares e insurgentes do seu tempo para reduzir sua força histórica no presente.

Em Niterói, esse debate ganha ainda mais densidade porque a cidade segue sendo apresentada publicamente como a única cidade brasileira oficialmente fundada por um líder indígena. Mesmo que a memória republicana do início do século XX tenha moldado essa narrativa cívica, o fato central permanece: Arariboia é figura incontornável na formação política deste território, e não uma nota exótica a ser tolerada nas margens da história urbana. Reduzi-lo empobrece a cidade; compreendê-lo devolve densidade à sua fundação.

Também por isso o encontro não se limitou a girar em torno de um nome isolado. Ao reunir vozes indígenas nacionais, lideranças locais de Niterói e Maricá, pesquisadores, artistas, estudantes e agentes públicos, a atividade mostrou que a origem indígena de Niterói não pode ser tratada como ornamento turístico ou lenda cívica inofensiva. Ela exige consequências no presente: políticas públicas e culturais, participação social, reparação histórica, compromisso ambiental e presença indígena local real no debate público. Quando Júlia Pacheco disse que o encontro era um passo importante para fortalecer a presença indígena na cena cultural e no debate da cidade, ela enunciou exatamente o que é sua inclinação dirigente na Secretaria das Culturas de Niterói.

Há, por fim, uma imagem que me parece decisiva. Em São Lourenço dos Índios, onde tantas camadas dessa história se concentram, a historiografia registra a antiga capela, a memória da aldeia e a encenação do Auto de São Lourenço em 1587, tratada como marco inaugural do teatro em território fluminense e, ao mesmo tempo, como parte do aparato catequético da colonização. A Capela foi erguida em cima de um antigo cemitério indígena. A própria origem da cidade, portanto, guarda em si a convivência brutal entre fundação, violência, cristianização, memória e apagamento. Falar de Arariboia sem falar desse mundo brutal é falsificar sua experiência.

Defender Arariboia como herói indígena, para mim, não é repetir ingenuamente a propaganda republicana nem negar as tragédias da colonização. É o contrário de sua domesticação. É não desejar ve-lo nas roupas do colonizador e devolvê-lo à política complexa da sua época - e à luta do nosso tempo. É afirmar que estratégia também é coragem e reconhecer que uma cidade fundada sob o signo de um líder indígena e seus 8 mil guerreiros deveria ter o maior cuidado possível e emprestar cada vez melhor grandeza a sua fundação a partir dos povos que sempre estiveram aqui.

Referências

AGÊNCIA BRASIL. Projeto Encontro com Arariboia reúne lideranças indígenas em Niterói. Rio de Janeiro, 20 mar. 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2026-03/projeto-encontro-com-arariboia-reune-liderancas-indigenas-em-niteroi. Acesso em: 22 mar. 2026.

BASTOS, Lia Vieira Ramalho. “Niterói, terra de índio”: apagamentos, silenciamentos e reapropriações em torno da figura de Araribóia. 2015. Dissertação (Mestrado em Cultura e Territorialidades) – Instituto de Arte e Comunicação Social, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2015. Disponível em: https://ppcultuff.com/wp-content/uploads/2025/03/Lia-Vieira-Ramalho-Bastos.pdf. Acesso em: 22 mar. 2026.

DUARTE, Marcello Felipe. De Arariboia a Martim Afonso: a metamorfose indígena pela guerra nas águas da Guanabara. Navigator, v. 7, n. 14, p. 87-103, 2011. Disponível em: https://portaldeperiodicos.marinha.mil.br/index.php/navigator/article/view/445. Acesso em: 22 mar. 2026.

FUNDAÇÃO DE ARTE DE NITERÓI. “O Arariboia de Parreiras”: o pintor responde aos críticos. Niterói, 16 ago. 2021. Disponível em: https://culturaniteroi.com.br/blog/mapeamentocultural/3058. Acesso em: 22 mar. 2026.

IBGE. Censo 2022: mais da metade da população indígena vive nas cidades. Agência de Notícias, 19 dez. 2024. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/42277-censo-2022-mais-da-metade-da-populacao-indigena-vive-nas-cidades. Acesso em: 22 mar. 2026.

SALGUEIRO, Valéria. “Araribóia” – uma história e uma alegoria da história. In: ANPUH – XXII Simpósio Nacional de História, João Pessoa, 2003. Disponível em: https://anpuh.org.br/uploads/anais-simposios/pdf/2019-01/1548177541_ab495ca7f3e982552a7989ab336eb3ed.pdf. Acesso em: 22 mar. 2026.

VERMELHO. Niterói resgata Arariboia e se prepara para ser polo da arte indígena. 12 dez. 2025. Disponível em: https://vermelho.org.br/2025/12/12/niteroi-resgata-arariboia-e-se-prepara-para-ser-polo-da-arte-indigena/. Acesso em: 22 mar. 2026.

A passagem do Luiz Antonio Simas sobre o comitê dos 450 anos do Rio de Janeiro, foi lembrada por ele na orelha autografada do livro “Arariboia” de Rafael Freitas da Silva.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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