As Copas que vivi
Das histórias sobre 1950 ao sonho de um novo título, crônica acompanha a relação afetiva do autor com o Brasil nas Copas, analisa o colunista Miguel Paiva
Nasci no ano da fatídica copa de 50 onde o Brasil ficou eternamente traumatizado pela vitória do Uruguai. Mas dessa não lembro nada a não ser das histórias que ouvi depois. A primeira copa que realmente senti na pele foi a de 1958. Ouvia-se pelo rádio e a comunicação distante e precária vinda ainda de um país quase inexistente pra nós como a Suécia tornava o feito ainda mais espetacular. Lembro de escutar com a turma da rua a final pelo rádio.
O futebol entrava definitivamente no nosso universo infantil e além das partidas disputadas na rua tranquila éramos campeões do mundo. Assim ficamos ainda em 1962 quando repetimos a dose apesar das falcatruas atribuídas aos juízes do torneio. O que importa é que de novo fomos campeões. Um pouco mais velho não tenho lembranças marcantes desta copa a não ser o Pelé se machucando e sendo substituído pelo improvável Amarildo que se revelou um craque. Já em 1966 o desastre foi anunciado. No nosso fracasso já estava incluída a instabilidade do time de 1962. Nenhuma inovação, nenhuma ousadia e acabamos perdendo para o time de Portugal e eu em Porto Alegre afoguei minhas lágrimas no colo de uma namorada alemã e insensível.
Isso tudo para chegarmos em 1970, ano de grande glória brasileira apesar da ditadura que reinava em todos os setores. Na seleção inclusive substituiu João Saldanha que classificou o Brasil e colocou um Zagallo que soube aproveitar muito bem aquela geração insuperável de craques. Fomos campeões da melhor forma possível, com passes e gols espetaculares. Foi a primeira transmissão em cores para o Brasil e lembro de assistir na casa do Ziraldo junto com mais outras tantas pessoas que tinham decidido torcer pela seleção ao invés de privilegiar o posicionamento político. Futebol estava acima de tudo tanto é que João Saldanha, membro notório do partido Comunista aceitou a convocação. Foi uma farra apesar de sabermos que ia ser usado pela ditadura. E de fato foi. Não importava. Éramos campeões do mundo e sabíamos que aquilo era resultado de um talento bem distante da ideologia da ditadura.
Os tempos eram muito duros e isso a série Rumo ao Tri que está na Netflix falando da conquista definitiva da Jules Rimet mostra bem. Tirando o belo trabalho de Rodrigo Santoro como João Saldanha e Bruno Mazzeo como Zagallo, a série é muito boa. Mostra com recursos modernos o que fizemos em campo. O ator que faz o Pelé, figura central da conquista é muito bom. Foi um marco e tanto, e levamos mais 24 anos até nova conquista. Mas acho que a conquista de 70, junto com a de 94 talvez tenha sido a mais emblemática. Em ambas ganhamos da Itália, pais que na época carregava a imagem de ser bom de bola também. As outras conquistas se perderam um pouco em meio aos fracassos mais espetaculares. O 7 a 1 da Alemanha pra cima do Brasil tirou toda a magia que havia sobre o futebol brasileiro. Espero, mas não acredito muito, que este ano a magia volte e que sejamos campeões. Mas isto eu sonho todos os anos. Já vi muitas copas, já pintei ruas, já torci com ardor, mas esta é a mais burocrática de todas. Não conheço todos os jogadores, mas espero que eles se superem e façam eu repetir gritando com alegria seus nomes. Viva o...como é mesmo o nome dele?
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




