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Alberto Cantalice

Diretor da Fundação Perseu Abramo e membro da Direção do PT

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As eleições e a virtualização dos sentidos

Colunista Alberto Cantalice analisa como a virtualização da política redefine a percepção do eleitor e intensifica a disputa narrativa nas eleições brasileiras

Urna eletrônica e celular com aplicativos que pertencem a Big Techs (Foto: Agência Brasil I Divulgação I Reprodução (247/IA))

Com a aproximação das eleições gerais, as diversas pesquisas de intenção de voto publicadas oferecem, mais do que o termômetro, um caminho para influenciar o eleitor – nem sempre ao que lhe interessa.

Não é sem razão a quantidade de amostras contratadas pelo mercado financeiro, por exemplo. Há interesses. Vejamos: a depender da oscilação entre Lula e Flávio Bolsonaro - Bolsonarinho, a bolsa também oscila, ganha ou perde pontos - a especulação do dólar, idem. Como os mercadistas não rasgam dinheiro, alguém está ganhando e muito, com isso.

É óbvio que não basta medir a temporalidade de disputas anteriores para que se possa cravar um resultado futuro. Entretanto, no ambiente tóxico das redes, o desejo e a obsessão por um resultado imaginário ganham foro de realidade objetiva. E aí “mora o perigo”.

A política, desde Maquiavel, passando por Hegel, Marx e Weber, vem ganhando contornos de ciência empírica, quando se trabalha com a concretude da realidade. Longe de um dogma ou produto de manuais, ainda que um componente do espectro social, como muitas vezes é entendida.

Nada mais distante da interpretação dialética da história e das mudanças sociais advindas do progresso da ciência e da técnica comunicacional, em especial na esfera digital.

Essa ambiência ganhou um tônus de polifonia e atraso cognitivo, uma espécie de voz ao letramento desfuncional de muitos, como acontece hoje, décadas depois de surgirem, nas mídias digitais. Hoje, plataformas de escala global operam com ferramentas de controle para a criação de ambientes disfuncionais e distópicos, onde a verdade e a mentira se misturam, integram e desintegram o tecido social das comunidades.

O grau elevado desse letramento desfuncional, muito bem aproveitado pelas citadas plataformas, produziu, como elemento de encadeamento decisivo, ambientes ainda mais perigosos: as casas de apostas digitais, como a Polimarket.

Ali, o apostador crava o resultado do processo eleitoral – e o ciclo da pesquisa estimulada quase se encerra aqui, conduzindo o usuário, então eleitor. Aqui, na futurologia das apostas sobre o resultado de eleições, o ativo é o valor das apostas e não a vontade da população.

Recorro ao filósofo e urbanista Paul Virilio, que em entrevista no início dos anos 2000, fez a seguinte constatação, ou previsão:

“Hoje, a indústria cibernética inventou instrumentos que fazem com que se desenvolva em concorrência com o atual (real). Vamos (estamos indo) em direção a uma estéreo-realidade. (...). De um lado, o mundo atual (real), dos graves que continua a existir, é o mundo da geografia, da política. E, do outro, o mundo dos agudos, a realidade virtual. Algumas pessoas são capazes de viver no equilíbrio entre os dois, os graves e os agudos. Outras são completamente atraídas pelo virtual e adoecem de IAD (Internet Addiction Disorder)”.

E encerra: “Esse mundo da realidade virtual não vai desaparecer- se amplia -, será preciso pilotá-lo, criar equilíbrios entre os graves e agudos”.

Perceber que a big techs operam com algoritmos que enviesam as discussões, postagens e usuários ao extremismo de direita não pode mais ser lido como mera teoria da conspiração.

Basta ver o tráfego a que é submetida a maioria das pessoas, que diariamente se perguntam: como isso veio parar na minha tela? A resposta é a criação de falsas sensações com o objetivo de levar os usuários ao que é de interesse da big tech for – de quem paga mais.

Esse mesmo estratagema foi usado em décadas anteriores, no século XX, pela televisão, pela música, parte das academias, no cinema, sempre com o intuito de promover e estimular o desejo pelo American Way Of Life, o estilo de vida estadunidense como o modelo a ser seguido no mundo.

No poço quase sem fundo que já atingimos hoje nestes terrenos, com o avanço da tecnologia generativa por inteligência artificial, somado à capilaridade que estas redes alcançam, capturando dados e informações, como vivem e do que gostam as pessoas, é fácil direcioná-las, monitorá-las, fidelizá-las pelo ódio, por afetos diversos. É grave.

Lula X Bolsonarinho

A proximidade do pleito faz surgir, em escala industrial, a disseminação de notícias falsas e a criação de uma narrativa canhestra do bolsonarismo de não admitir os estragos produzidos no orçamento público e no desmonte do Estado nos seus quatro anos de desgoverno.

Tentam, por vias nada ortodoxas, se desvencilhar do escândalo do banco Master e da roubalheira aos aposentados expandida em 2019, que até então aponta para o colo deles.

As falcatruas promovidas pelo Master foram intensivamente maximizadas na gestão de Roberto Campos Neto, no Banco Central e teve exposta sua rede de corrupção na gestão de Gabriel Galípolo.

A caixa de pandora de Daniel Vorcaro demonstrou, quando aberta, as doações para as campanhas de Bolsonaro e Tarcísio de Freitas e, notícia fresca e alarmante, descortinou também o envolvimento na organização do ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro, Ciro Nogueira - uma espécie de embaixador do Master no Senado da República e até mesmo no Planalto.

Por mais que se encontre em um universo paralelo, é praticamente impossível blindar que pessoas conservadoras e de boa-fé não tomem conhecimento dessas situações que hoje tomam conta do noticiário e das conversas escandalizadas.

A linha nos leva até um recado claro: as redes sociais serão fundamentais nesse embate de narrativas. É claro que as ruas são insubstituíveis, pois é nas ruas que se tem acesso olho no olho das pessoas e se tem a temperatura e o rumo para onde caminhar, mas não há como ignorar os becos das big techs, por onde nos embrenhamos todos os dias na palma da mão.

O Brasil, sua soberania e sua democracia estão sob ataque permanente de forças reacionárias. Portanto, um chamamento à resistência é preciso e necessário. Cabe destacar, que a regulação das plataformas digitais está na pauta de todas as democracias do mundo. Não se pode assistir impassivelmente que o discurso do ódio, prevaleça, ou seja, normalizado. Não é.

São as forças comprometidas com a democracia e com o desenvolvimento que são os artífices para barrar a normalização da distopia.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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