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Florestan Fernandes Jr

Florestan Fernandes Júnior é jornalista, escritor e Diretor de Redação do Brasil 247

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As fissuras no poder e a crise entre Lula e Moraes

Que Lula transforme a crise em um ponto de virada, explicite ao país o que está em jogo nestas eleições e saia, mais uma vez, politicamente fortalecido

Braslia (DF) - 18/04/2023 - O presidente Luiz Incio Lula da Silva e o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Foto: Jodson Alves/Agncia Brasil)

Muitas pessoas da esquerda ficaram surpresas com o título do Boa Noite 247 da sexta-feira, 1º de maio: “Esquerda abandona Xandão após traição a Messias”. É duro encarar os fatos, mas é exatamente isso que vem ocorrendo, dentro e fora das redes sociais.

Uma das postagens que repercutiram foi da influenciadora Beta Bastos, que afirmou, após ouvir diversas fontes, que a jornalista Malu Gaspar, com quem costuma divergir, desta vez estaria correta. “O que está por trás não é simples: Moraes teria se alinhado a Flávio Bolsonaro e Davi Alcolumbre em um movimento para enfraquecer Lula”, escreveu Beta.

Nos últimos dias, diferentes jornalistas que cobrem Brasília trouxeram informações que reforçam essa linha de apuração. Entre eles, Mônica Bergamo revelou, em sua coluna de 30/04, que Moraes realizou um jantar em sua casa com a presença de Davi Alcolumbre na véspera da rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF. O encontro aprofundou a desconfiança, no entorno de Lula, de que houve articulação para impor uma derrota ao governo.

Os relatos desenham um quadro preocupante que vai além da derrota de Jorge Messias. Trata-se também de um movimento para blindar Alexandre de Moraes e o próprio Davi Alcolumbre, todos profundamente envolvidos com Daniel Vorcaro. Nesse contexto, era fundamental impedir a instalação da chamada “CPI do Master”. E foi exatamente isso que Alcolumbre fez ao ignorar, na sessão que derrubou o veto do Presidente ao PL da dosimetria, uma norma regimental que o obrigava a ler o requerimento de investigação sobre o banco e suas conexões com autoridades.

As imagens da comemoração, tanto pela rejeição de Messias quanto pela derrubada do veto e aprovação da dosimetria, remetem a cenas recentes do Congresso: homens brancos, engravatados, celebrando iniciativas que, na prática, abrem espaço para a impunidade de seus aliados, como ocorreu no  plenário da Câmara quando, bolsonaristas aprovaram o projeto que abria caminho para a redução das condenações impostas a Jair Bolsonaro.

Neste sábado, o jornalista Guilherme Amado informou que Moraes enviou mensagens a Messias após a rejeição, manifestando solidariedade e negando participação em articulações contrárias. As mensagens, no entanto, não teriam sido respondidas.

Nos bastidores, políticos e juristas do campo progressista me confirmaram o evidente: há um mal-estar profundo no Palácio do Planalto. O presidente Lula estaria indignado com as articulações que barraram o nome de seu indicado.

Ao que tudo indica, a relação entre Lula e Alexandre de Moraes entrou em uma zona de tensão real. Vale lembrar que Moraes sempre transitou no campo da direita, com passagem pelo DEM (hoje União Brasil) e atuação como ministro da Justiça de Michel Temer, que o indicou ao STF.

A aproximação entre Lula e Moraes ocorreu em um momento excepcional: a defesa do Estado Democrático de Direito diante de ameaças concretas e tentativa de golpe de estado. Foi uma convergência de circunstância, necessária para a preservação da democracia e, por consequência, à sobrevivência institucional e política do próprio Ministro. 

O problema é que, passada a emergência, as diferenças estruturais reaparecem.

É preocupante para todos nós vermos o Supremo enfraquecido, não pelas suas qualidades em defesa da constituição, mas pela falta de critérios morais de alguns de seus ministros. E mais preocupante ainda quando isso ocorre em um cenário pré-eleitoral, no qual forças políticas tradicionais se reorganizam em torno de interesses próprios, muitas vezes em aliança com setores que já demonstraram desprezo pela democracia.

Como reconheceu até mesmo o editorial do Estadão, veículo com o qual frequentemente há mais divergências do que concordâncias, Davi Alcolumbre simboliza uma política baseada em barganha, oportunismo e disputa de poder, transformando prerrogativas institucionais em instrumentos de enfrentamento ao governo. E esse senhor é amigo íntimo do ministro Alexandre de Moraes.

Esse episódio expõe não só a fragilidade das alianças que sustentam a democracia brasileira,  mas o enfraquecimento das próprias regras do jogo. E, como a história recente já mostrou, quando essas regras vacilam, quem mais perde é a democracia.

Que Lula transforme a crise em um ponto de virada, explicite ao país o que está em jogo nestas eleições e saia, mais uma vez, politicamente fortalecido rumo a uma vitória histórica.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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