Weiller Diniz avatar

Weiller Diniz

Jornalista especializado em cobertura política, ganhador do prêmio Esso de informação Econômica (2004) com passagens pelas redações de Isto É, Jornal do Brasil, TV Manchete, SBT. Também foi diretor de Comunicação do Senado Federal e vice-presidente da Radiobrás, atual EBC.

62 artigos

HOME > blog

As pirâmides criminosas

Fraudes financeiras prosperam sob a complacência do poder e expõem a simbiose entre crime, mercado e Estado

As pirâmides criminosas (Foto: Divulgação)

Bernie Madoff, lenda colossal do crime de colarinho branco, ergueu entre 1987 e 2008, em Nova Iorque — delta do poder financeiro — um fundo de investimentos calçado no prestígio daquele que era visto como um semideus, um iluminado das finanças, mas que não passava de um fraudador. Os sacrificados — professores, agricultores, artistas, bancos e outros milionários — confiaram suas economias ao trapaceiro, onde os aplicadores novos, adoradores cegos da rentabilidade irreal e do brilho do ouro de tolo, bancavam os investidores anteriores. Foi a maior pirâmide financeira da história. Uma fraude de US$ 65 bilhões que ruiu, provocando maldições e tragédias, inclusive suicídios.

Madoff foi o faraó supremo da Nasdaq e engenheiro de um obelisco financeiro que chegou a ser o sexto maior negociador de ações, respondendo por até 5% de tudo o que era comprado e vendido no panteão da Bolsa dos EUA. Era afável, discreto, filantropo e circulava desenvolto no topo da cadeia financeira e nos convescotes da realeza norte-americana, sempre ao lado de ungidos. Sua firma foi escavada oito vezes pela Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC). A SEC vasculhava a Bernard L. Madoff Investment Securities, mas não sua empresa de assessoria financeira, que reinava na vigarice a partir da câmara secreta do 17º andar do Lipstick Building, na Terceira Avenida.

A dinastia do trapaceiro foi encerrada em 2008, quando a enchente das hipotecas imobiliárias quebrou gigantes sagrados da banca. Os arautos de Madoff correram aos bancos e o levaram à insolvência. Ninguém questionava os poderes sobrenaturais do trambiqueiro, mas simplesmente não havia dinheiro para cobrir os saques depois de lançada a praga capitalista do subprime. Os sacerdotes de Madoff pediram saques de US$ 7 bilhões, quando havia apenas US$ 300 milhões no caixa. Em 2009, Madoff foi sentenciado a 150 anos de cadeia por 11 crimes. Migrou para a câmara mortuária em 2021, aos 82 anos, sem nenhuma lembrança da antiga respeitabilidade e completamente abandonado.

Como os mortais podem enganar tantas pessoas por tanto tempo? Como o enigma da multiplicação do dinheiro não levantou suspeitas dos órgãos reguladores dos Estados Unidos? O prestígio pessoal de Madoff, a exploração de brechas no sistema financeiro, a vista grossa de autoridades e a cegueira deliberada no mercado explicam boa parte do fôlego criminoso alcançado por quase 10 anos. Disse ele, em um dos depoimentos, que muitos preferiam não entender os complexos hieróglifos de suas operações.

No mesmo cânone de permissividade, promiscuidade entre o público e o privado, cegueira deliberada dos órgãos fiscalizadores, contratos e contatos com semideuses, o banco Master reinou no crime para capitanear uma fraude, até aqui estimada em R$ 50 bilhões. Uma mini pirâmide, a Miquerinos, se comparada à grande Quéops de Madoff. O Master expandiu seu império entre 2019 e 2024 com base em um modelo de emissão de Certificados de Depósito Bancário, prometendo tesouros inexistentes. CDBs, ofertados por bancos ou corretoras, pagavam taxas acima do mercado e serviam para atrair adoradores desatentos.

A fraude por aqui era lastreada pelo FGC e usada como propaganda para estimular aportes em títulos arriscados. O sarcófago do Master se abriu depois que o tamborete começou a ter problemas para captar recursos com os quais deveria pagar os juros dos CDBs que emitia. Tentando reverter a insolvência, passou a vender supostos tesouros enterrados. As cessões de ativos foram intensificadas a partir de novembro de 2024, quando o rio secou e agravou o risco de liquidez. Eis que surge o grande amuleto, o Nilo, com toda a sua fertilidade. A carteira de consignado da Tirreno, título podre de R$ 6,7 bilhões, passaria para um banco público (BRB) por R$ 12,7 bilhões. O BC fechou a mangueira da irrigação suspeita. De lá para cá, surgiram as vinculações de Vorcaro. Elas rebaixariam Madoff à condição de simples mortal.

Os papiros iniciais da PF e da imprensa expuseram as pegadas impuras de Daniel Vorcaro nas areias escaldantes do poder, em vários governos e em muitos pavilhões. A entidade mais exposta é o ministro-relator do caso, Dias Toffoli, no STF, por ora um altar impróprio para o caso. As decisões do relator geraram contestações generalizadas, notadamente depois da revelação dos vínculos empresariais da família Toffoli em um resort com gestoras ligadas ao Master. Há críticas à condução do inquérito, acareações precipitadas, viagens particulares com partes da investigação, designação nominal de peritos e sigilos anômalos, sob um silêncio característico das tumbas faraônicas mais profundas.

Contratos com a esposa do ministro Alexandre de Moraes, o ex-ministro Ricardo Lewandowski, o ex-ministro Fábio Faria, encontros com o governador de Brasília, que controla o BRB, relações com Michel Temer, Henrique Meirelles, Guido Mantega, presidentes de partidos e outros beduínos esturricados pela inclemência solar da política revelam que a maior aplicação de Vorcaro era a proteção entre os faraós de várias linhagens da República. O modus operandi, venda de títulos podres para encobrir o adobe malcheiroso da pirâmide, já virou cartão-postal de tão escancarado. A arqueologia da investigação precisa apontar a identidade das poderosas esfinges que deram cobertura ao golpe.

A pilhagem nos cofres públicos, além dos aportes que BB e CEF fazem no FGC, pode ser maior. Há investimentos feitos por fundos de previdência vinculados a governos estaduais e municipais em títulos emitidos pelo Master. Os recursos dos fundos de pensão não são cobertos pelo FGC e o prejuízo será bancado pelas instituições e pelos governos municipais e estaduais responsáveis. Entre eles estão o Rio de Janeiro, Amazonas, Amapá e outras 15 prefeituras. Um rombo de R$ 1,5 bilhão.

Em sucessivas operações recentes, a PF vem comprovando o uso recorrente do sistema financeiro pelo crime. No Egito antigo, as pirâmides eram símbolos de poder e riqueza. As tumbas atuais abrigam delinquentes e precisam ser implodidas antes que o Estado seja enterrado e mumificado pelo crime.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados