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Sara York

Sara Wagner York (também conhecida como Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior) é bacharel em Jornalismo, doutora em Educação, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. É especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, autora do primeiro trabalho acadêmico sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido em seu mestrado. Pai e avó, é reconhecida como a primeira mulher trans a ancorar no jornalismo brasileiro, pela TV 247

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Bad Bunny, uma das vozes culturais mais importantes do nosso tempo

"Benito Antonio Martínez Ocasio, o homem por trás do nome artístico, não ocupa o centro da cultura pop por acaso"

Bad Bunny no Super Bowl (Foto: Reuters)

Conheci a música de Bad Bunny em 2024, apresentada por um professor queer mexicano em Pittsburgh, durante meu doutorado sanduíche. Além de ser uma descoberta musical, foi um deslocamento de consciência. Percebi, com certo constrangimento, o quanto a grandeza latino-americana chega ao Brasil mediada pelos filtros culturais dos Estados Unidos. Há um continente pulsando em língua própria, e muitas vezes não o escutamos.

Benito Antonio Martínez Ocasio, o homem por trás do nome artístico, não ocupa o centro da cultura pop por acaso. Ao protagonizar o Halftime Show do Super Bowl, o espetáculo televisivo mais assistido dos Estados Unidos, não suavizou sua origem nem cedeu à expectativa de tradução cultural. Cantou em espanhol e transformou o palco em território simbólico porto-riquenho e latino-americano. Emergindo do entretenimento a uma afirmação identitária em escala global — um exemplo foram os vídeos de canadenses falando o nome de suas cidades com sotaque latino que gritavam nas redes sociais.

Diante de milhões, mostrou que não é preciso traduzir-se para caber. Esse gesto, aparentemente simples, deslocou a lógica histórica segundo a qual o sucesso internacional exige diluição cultural e fragmentação do desejo inicial.

A imagem final da apresentação condensou essa postura. Ao evocar a ideia de América de forma ampliada, com bandeiras e símbolos que extrapolam a noção restrita de Estados Unidos, a performance tensionou discursos exclusivistas e nacionalismos fechados — a presença de Ricky Martin e Lady Gaga trouxe a aliança tão desejada por todos nós, os viventes dessa margem criada pelo império estadunidense, agora decadente a olhos vistos. Em um cenário marcado por retóricas como "Make America Great Again", a cena funcionou como contraponto simbólico. Não foi uma provocação vazia, mas uma reposicionamento do imaginário continental — nós latinos, por nós.

Essa coerência não nasce no espetáculo, ela é crescente e pode ser diluída por outros interesses; nem todos aguentam a pressão do eixo projeção-fama. Em contextos de recrudescimento das políticas migratórias e de intensificação de discursos anti-hispânicos, Bad Bunny tem reiterado sua defesa das comunidades latinas, LGBTI+ e migrantes. Seu posicionamento público não se apresenta como panfleto, mas como gesto contínuo de responsabilidade cultural para além da performatividade. Ele compreende que visibilidade é poder, e poder implica escolha e altíssima dose de responsabilidade ética.

Nesse horizonte, emerge um dos aspectos mais discutidos de sua proposta estética recente: a casita.

Nos concertos, a "casita" não é apenas cenografia ou um puxadinho quase sempre ignorado por muitos artistas — quando falamos, por exemplo, nos cantinhos para PcDs, sigo procurando imagens desses espaços reservados em grandes shows. La Casita é uma intervenção simbólica no desenho tradicional do espetáculo. Inspirada na cultura porto-riquenha dos encontros domésticos, das festas na varanda e das celebrações comunitárias, ela funciona como um segundo palco instalado em setores mais acessíveis do estádio. Ao descentralizar o foco exclusivo da área premium, ele tensiona a hierarquia espacial que historicamente associa proximidade física ao poder aquisitivo.

A estratégia gerou controvérsias. Parte do público que adquiriu ingressos mais caros questionou a redistribuição da centralidade do espetáculo. Ainda assim, do ponto de vista cultural, a decisão desloca a pergunta fundamental. O valor do show está no preço do assento ou na experiência de partilha? Ao criar um momento íntimo para quem tradicionalmente permanece distante do palco principal, Bad Bunny reconfigura a economia simbólica do concerto, dando a sensação de um show em 360º.

No Brasil, a casita também foi incorporada à estrutura do espetáculo no Allianz Parque, ampliando a experiência de proximidade. O fato de não ter incluído outras capitais brasileiras gerou frustração legítima, mas não diminui o impacto da proposta. A casita produz pertencimento e lealdade afetiva, e sua declaração de amor pelo Brasil atua nas conexões de uma produção de memória coletiva. Ela comunica que protagonismo não é privilégio automático de quem paga mais, mas construção relacional entre e com todos.

Sua música e seus gestos públicos reiteram solidariedade a populações historicamente silenciadas. Em letras e performances, aborda migração, desigualdade, orgulho latino e autonomia corporal. Ele demonstrou apoio à comunidade LGBTQIA+ de forma consistente, incorporando temas de liberdade e dissidência em sua estética, mesmo não mirando distância de outras discussões. Suas posições não operam na chave da neutralidade confortável, mas na chamada à implicação.

Bad Bunny ultrapassa a condição de artista pop mainstream e aproxima-se do que tenho chamado de coletividade como ação na, com e pela diferença. Ele compreende a música como território de disputa simbólica, espaço onde narrativas são legitimadas ou desafiadas. Ao colocar seu corpo, seu repertório e a própria arquitetura de seus shows a serviço de histórias de dignidade, ele celebra culturas marginalizadas, exigindo que ocupemos o centro.

E a sua rebeldia não soa calculada, em um tempo em que muitos artistas preferem a neutralidade estratégica ou uso de pautas para ascensão, ele escolhe a exposição e o posicionamento. Por isso, não é apenas um ícone cultural, ele se torna um resultado de uma mudança mais profunda sobre o papel social do performer. Popular e politicamente consciente, massivo e identitário, ele demonstra que a arte pode ser, ao mesmo tempo, espetáculo e estrutura de transformação. E o público, atento, percebe quando a coerência não é marketing, mas convicção — e aqui eu poderia citar vários artistas, mas isso fica para um outro texto.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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