Banco Master: como o bolsonarismo estendeu o tapete vermelho para o crime
O caso Banco Master tem face e DNA bolsonaristas. As investigações precisam avançar sem blindagem política, expondo todas as conexões e responsabilidades
O caso Banco Master é um dos maiores escândalos financeiros da história recente do Brasil. Não se trata apenas da quebra de uma instituição privada, mas de um esquema complexo que movimentou bilhões de reais, envolveu risco sistêmico para o sistema bancário e expôs graves falhas na supervisão regulatória – além de revelar conexões políticas que precisam ser investigadas com profundidade.
Os tentáculos do caso Master alcançaram figuras de primeira linha do bolsonarismo. O empresário Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Daniel Vorcaro, dono do banco e atualmente preso, fez doações milionárias na eleição de 2022 que escancaram os vínculos do esquema criminoso com a extrema-direita: R$ 3 milhões para a campanha de Jair Bolsonaro e outros R$ 2 milhões ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
O deputado federal de extrema-direita Nikolas Ferreira (PL-MG) também aparece na mira das investigações. Acompanhado por influenciadores digitais e pastores, o parlamentar utilizou aeronave de Vorcaro para fazer campanha nas capitais do Nordeste durante o segundo turno das eleições presidenciais de 2022. O telefone do deputado estava cadastrado no celular do banqueiro, conforme mensagens apreendidas.
Outro nome de peso é o senador Ciro Nogueira (PP-PI) ex-ministro de Bolsonaro. Mensagens revelam a proximidade com Vorcaro: "Ciro Nogueira. É um senador. Muito amigo meu. Quero te apresentar. Um dos meus grandes amigos de vida", escreveu o banqueiro.
O senador apresentou uma emenda à PEC da Autonomia Financeira do Banco Central que previa aumentar o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) por CPF de R$ 250 mil para R$ 1 milhão – medida que beneficiaria diretamente o Banco Master na captação de recursos.
O estratagema fraudulento de Vorcaro atraiu 1,6 milhão de investidores que acreditaram em sua conversa. A liquidação do banco obrigará o FGC a desembolsar mais de R$ 40 bilhões para ressarcir os correntistas, o maior resgate da história do fundo. Mas se tivesse sido aprovada a emenda do bolsonaristas Ciro Nogueira, o FGC teria que desembolsar R$ 160 bilhões em recursos.
Outro bolsonarista envolvido no escândalo é o ex-governador do estado do Rio, Cláudio Castro (PL). O Governo do Rio investiu quase R$ 1 bilhão do fundo de previdência dos servidores (Rio Previdência) no Banco Master, operação realizada apesar de alertas do Tribunal de Contas do Estado. A Polícia Federal investiga possíveis irregularidades e o risco para a aposentadoria dos servidores fluminenses.
Durante a Operação Anomalia, a PF prendeu Alessandro Carracena, ex-secretário de Esportes do governo Castro, indicado ao cargo pelo senador Flávio Bolsonaro (PL). Carracena possui ligações com o Comando Vermelho, e há suspeitas de que o grupo criminoso tenha usado fundos ligados ao Banco Master para integralizar capitais com origem suspeita.
Já o ex-governador bolsonarista do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) também aparece, não só por ter feito vista grossa à injeção de 12 bilhões de reais do Banco Regional de Brasília em títulos do Master que não valem um centavo. O seu escritório de advocacia firmou contrato de R$ 38 milhões em maio de 2024 para venda de honorários de precatórios a um fundo ligado à Reag Investimentos, justamente quando o BRB adquiria carteiras da instituição de Vorcaro.
Campos Neto e o escândalo
Mas é impossível tratar o caso sem questionar a atuação da autoridade monetária durante a gestão do bolsonarista Roberto Campos Neto à frente do comando do Banco Central. A expansão vertiginosa do Banco Master ocorreu integralmente sob seu comando: os ativos saltaram de R$ 3,7 bilhões em 2019 para mais de R$ 82 bilhões em 2024, sustentados por CDBs que pagavam até 140% do CDI – rentabilidade completamente fora do padrão do sistema bancário.
Enquanto Campos Neto "estendia o tapete vermelho" para receber Vorcaro, seu sucessor Gabriel Galípolo, indicado pelo presidente Lula, determinou no ano passado a liquidação do banco e permitiu que as investigações avançassem, inclusive com afastamento de servidores citados nas diligências da Polícia Federal. A decisão sinaliza uma mudança de postura institucional e o esforço da atual gestão de restabelecer padrões mais rigorosos de supervisão e integridade na atuação da autoridade monetária.
Diante da dimensão do gigantesco rombo e do risco sistêmico criado, o País precisa saber quem estruturou o esquema, quem se beneficiou e quem falhou em impedir que ele acontecesse.
O caso Banco Master tem face e DNA bolsonaristas. As investigações precisam avançar sem blindagem política, expondo todas as conexões e responsabilidades – das empresas de fachada que movimentaram R$ 11 bilhões em triangulações financeiras às relações políticas que permitiram que o esquema operasse por tantos anos.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



