Pressa de Vorcaro por delação tem motivação bilionária
Ex-CEO do Banco Master teme perder mais de R$ 10 bilhões e acelera acordo com PF e PGR para preservar patrimônio e negociar benefícios
247 - A tentativa do ex-CEO do Banco Master, Daniel Vorcaro, de firmar um acordo de delação premiada em até 60 dias é vista por investigadores como excessivamente otimista, mas reflete uma urgência concreta: o risco de perder uma fortuna bilionária espalhada em fundos no Brasil e no exterior. A avaliação é de que a pressa está diretamente ligada ao temor de dissipação desses recursos antes da formalização da colaboração, informa Malu Gaspar, do jornal O Globo.
Fontes próximas ao banqueiro indicam que Vorcaro acredita que parte significativa do dinheiro, distribuído em uma complexa rede de fundos, pode desaparecer enquanto ele permanece impossibilitado de movimentar os ativos. A estimativa é de que os valores ultrapassem R$ 10 bilhões, administrados por gestoras fora do conglomerado do banco, o que dificulta o controle e o rastreamento.
Mesmo após a liquidação do Banco Master, Vorcaro teria mantido uma estrutura financeira sofisticada justamente para ocultar a origem e o destino dos recursos. Agora, com sua prisão e a de aliados, o receio é que gestores, investidores ou credores possam esvaziar gradualmente os fundos. Nesse contexto, a delação surge como uma tentativa de preservar o patrimônio: ao indicar onde estão os valores, ele permitiria o bloqueio judicial, utilizando o dinheiro como moeda de negociação para reduzir sua pena.
A preocupação com a dispersão dos recursos já existia desde a primeira prisão, mas se intensificou durante o período de isolamento em unidades prisionais, incluindo a Penitenciária Federal de Brasília. A transferência para a Superintendência da Polícia Federal na capital federal marcou o início das negociações para o acordo.
Para investigadores e advogados envolvidos, a devolução de valores é um elemento central para o avanço da delação. Vorcaro precisará demonstrar transparência e disposição para ressarcir os cofres públicos com quantias expressivas. Caso contrário, corre o risco de perder força nas negociações e comprometer os benefícios esperados.
O cenário é agravado pelo perfil do relator do caso no Supremo Tribunal Federal, ministro André Mendonça, cuja tese acadêmica aborda a recuperação de ativos provenientes de corrupção. Interlocutores avaliam que dificilmente haverá acordo sem devoluções substanciais.
Entre os valores sob investigação, destaca-se a fraude estimada em R$ 12,2 bilhões relacionada à venda de carteiras de crédito ao BRB, além de aportes bilionários de fundos de pensão estaduais e municipais. Há ainda outras frentes de apuração que podem ampliar o montante envolvido.
A liquidação do Banco Master pelo Banco Central, em novembro, também impacta o cenário. Os ativos da instituição estão sob responsabilidade do liquidante Eduardo Bianchini, que calcula que ao menos R$ 4,8 bilhões já teriam sido desviados antes do processo de liquidação.
Com o tempo jogando contra, Vorcaro tenta acelerar as tratativas com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República. Em Brasília, autoridades acompanham com atenção os possíveis desdobramentos da delação, que pode revelar o fluxo de recursos e envolver agentes públicos, com potencial de gerar novas crises institucionais e atingir o núcleo do sistema político brasileiro.


