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Eduardo Guimarães

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Banco Master e a Navalha de Ockham

Doações milionárias e omissão regulatória expõem elo político no colapso do Banco Master

Logo do Banco Master na sede da empresa em São Paulo 18/11/2025 REUTERS/Amanda Perobelli (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)

O frade franciscano Guilherme de Ockham (século XIV) asseverava: "Entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem" (em latim: "Entidades não devem ser multiplicadas além do necessário" ou "sem necessidade").

Trocando em miúdos: entre explicações que esclarecem igualmente os mesmos fatos, prefira a que envolve menos suposições, menos entidades ou menos complexidade.

Traduzindo a Navalha de Ockham para uma versão mais popular, seria mais ou menos o seguinte: "A explicação mais simples é a mais correta".

No caso do Banco Master, a Navalha de Ockham corta afiada. O banco, então controlado por Daniel Vorcaro, foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central em novembro de 2025, após fraudes bilionárias reveladas pela Operação Compliance Zero, da Polícia Federal.

Investigações apontam gestão fraudulenta, lavagem de capitais e manipulação de mercado.

Vorcaro foi preso na primeira fase; na segunda, em janeiro de 2026, seu cunhado Fabiano Zettel — pastor evangélico e empresário — tornou-se alvo central por ter sido considerado laranja ou testa de ferro de Vorcaro, devido, entre outras razões, a ter feito estranhas doações eleitorais em 2022 — devidamente declaradas ao TSE.

Ele transferiu R$ 3 milhões para a campanha de Jair Bolsonaro e R$ 2 milhões para a de Tarcísio de Freitas, em um “combo” de R$ 5 milhões concentrado no mesmo dia e horário de outubro de 2022.

Essa foi a única doação significativa de Zettel/Vorcaro: R$ 5 milhões no total para dois candidatos bolsonaristas, tornando-o o maior doador pessoa física de ambos.

A única doação da vida de Zettel, além da do “combo”, foi uma modesta doação de R$ 10 mil para Lucas Gonzalez (Novo-MG), que não se elegeu.

Mas o que nos interessa é que o foco das cifras milionárias recaiu exclusivamente nesse eixo político de extrema direita. Tudo porque Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central de 2019 a 2024 (indicado por Bolsonaro), sabia dos graves problemas de liquidez e governança do Master desde o início dos problemas.

Ainda assim, uma intervenção à altura do necessário só ocorreu após a saída do neto de Roberto Campos, após a posse de Gabriel Galípolo no comando do BC.

Segundo o jornal O Globo, em 10 de fevereiro de 2026, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, afirmou que o problema "já vinha de outras gestões" do BC e elogiou a "coragem" de Galípolo por levar o caso à PF.

Isso reforça suspeitas de leniência ou omissão na gestão anterior, com Campos Neto evitando medidas imprescindíveis, apesar de conhecer os riscos. Pode-se dizer que, se Galípolo tivesse assumido uns dois anos antes, não existiria o rombo que a tantos lesou.

A explicação complexa envolve tramas mirabolantes: conspirações cruzadas, omissões acidentais, coincidências políticas. Mas a Navalha de Ockham rejeita o supérfluo.

A explicação simples: doações generosas — concentradas em Bolsonaro e Tarcísio, via laranja familiar — financiaram campanhas do grupo político que nomeou e manteve Campos Neto no BC.

O então presidente do BC, que foi votar com a camiseta amarela escrita “Bolsonaro” nas costas, estava ciente dos riscos e optou por prazos longos e leniência com o Banco Master.

O beneficiário das doações milionárias não poderia estar alheio ao ecossistema que protegeu o banco por anos. O óbvio, aqui, é o mais provável: influência política via financiamento eleitoral gerou proteção regulatória do subordinado ao beneficiário da doação, por ordem deste.

Não é preciso multiplicar entidades, conexões ocultas, segredos profundos. A teia se fecha onde começou: no círculo do poder que as doações ajudaram a sustentar.

Quando as evidências se acumulam sem contradição, a simplicidade prevalece. E, no caso Master, ela aponta para um elo inevitável: quem recebeu fortunas eleitorais dificilmente ficou à margem do colapso que seu entorno facilitou.

A Navalha de Ockham não prova culpa, mas o corte é afiado: complicar o que o óbvio explica bem é uma forma hipócrita de obscurecer a verdade e semear a impunidade desse grupo político nefando.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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