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Sara York

Sara Wagner York (também conhecida como Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior) é bacharel em Jornalismo, doutora em Educação, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. É especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, autora do primeiro trabalho acadêmico sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido em seu mestrado. Pai e avó, é reconhecida como a primeira mulher trans a ancorar no jornalismo brasileiro, pela TV 247

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BBB26, Babu, Renault e o preço da visibilidade

Como milhões em patrocínio transformam entretenimento em engenharia de poder

Babu Santana (Foto: Reprodução/TV Globo)

Quando Babu Santana entrou no Big Brother Brasil pela primeira vez, em 2020, o país ainda acreditava que reality show era apenas entretenimento. Estávamos imbuídos de drama e verdade, sobretudo atravessados pela pandemia que se instaurava. O que se viu ali foi outra coisa. Um homem negro, periférico, sobrevivendo a dez paredões, atravessando conflitos domésticos e debates públicos como quem sabe que cada palavra carrega uma história maior do que o próprio jogo. Babu Santana se tornou a imagem que as redes evitaram ao longo da história, o "PPP do BBB", preto, periférico e pobre, que agora sobe de "Big Brother" para "big dad". Aqui já podemos entender o cerco que tira alguém de uma marca e o lança ao ponto extremo oposto. Mas, vamos entender melhor…

No Big Brother Brasil 20, Babu tornou-se símbolo de resistência. As suas falas sobre feminismo, quando, por exemplo, afirmou que homem não é feminista, mas pode ser pró-feminismo e deve primeiro escutar, foram lidas como gesto pedagógico. Na célebre discussão sobre arroz e feijão, quando defendeu o uso coletivo da cozinha como metáfora de convivência, parecia traduzir as complexidades éticas em uma ética comunitária. Ao mencionar que o filho saiu para a escola apenas com pão e manteiga, o público enxergou sua declaração não como uma estratégia, mas como um testemunho que a branquitude ignorava.

Ele foi apresentado como o paizão, o resiliente, o corpo que suportava as chamadas tretas televisivas com uma verdade quase pedagógica. Saiu do BBB no 11º paredão e passou a ser disputado por diversas produções impulsionadas pela TV Globo. Atuou em novela, fez cinema, produziu música e estrelou campanhas publicitárias que o consolidaram como "um querido" do grande público. Na vida real, Babu tinha 16 anos de TV Globo e já morava na Barra da Tijuca e o BBB vendeu o que já estava em andamento.

Mas, como lembra Michel Alcoforado, um homem preto no hype raramente é simplesmente um "sujeito do meio" sendo celebrado. Ele tende a ser moldado, suavizado, embranquecido simbolicamente para parecer assimilável, para caber no imaginário dominante. Quase aceitamos que ele seja um pedaço de todos nós…

Seis anos depois, no Big Brother Brasil 26, o cenário mudou. O retorno como veterano trouxe um Babu mais atento às alianças, mais cuidadoso com movimentos táticos, mais explícito sobre cálculo. Ao dizer "eu sou pauta social" durante um embate com Ana Paula Renault, ele deslocou o eixo da conversa. Já não falava apenas de si, mas falava sobretudo do lugar estrutural que ocupa.

A recepção foi outra, foi tático, mas não foi estratégico!

A mesma biografia que antes despertava empatia passou a ser lida por parte do público como repetição tática. A lembrança das dificuldades financeiras, que antes era símbolo de desigualdade, tornou-se, nas redes, argumento de vitimismo, o "mi-mi-mi". A estratégia de evitar conflitos físicos, propondo neutralização para impedir expulsões, foi interpretada não como prudência, mas como cálculo frio, ainda mais quando foi pego tentando cavar a expulsão da concorrente.

O que mudou?

Há um primeiro elemento evidente: Babu foi lido como acontecimento em 2020. Em 2026, ele já é uma memória; a lição que ele protagonizou foi aprendida por quem estava caminhando com o "paizão". O ineditismo se perdeu e o público, mais treinado na gramática do reality, tornou-se mais desconfiado. Mas essa explicação é insuficiente quando pensamos no feminismo estratégico e no estudo de Ana Paula Renault — branca, bem criada e estudiosa —, que usou seu privilégio para aprender. E num reality de 5,44 milhões de reais em jogo, estudar é a grande chave de saída dessa Big Casa. O vencedor terá recebido mais de 54 mil reais por dia de participação. O que você faria se recebesse "50k" por dia?

Dinheiro é dinheiro no mundo capitalista e, como aprendemos com Alcoforado, ele abre portas.

Há outro capital também, uma disputa de capital simbólico. Ana Paula Renault, veterana reconhecida por seu perfil combativo, domina a cena como quem conhece o ritmo da edição. Sua presença tensiona o espaço com familiaridade midiática. Babu, por sua vez, carrega outro tipo de experiência que hoje não vale tanto na grande mídia. Hoje vale mais usar a performance televisiva estudada do que a estética da sobrevivência social.

Quando esse homem negro deixa de ocupar exclusivamente o lugar da resistência moral e assume a estratégia como ferramenta legítima, ocorre uma fratura na expectativa pública. A audiência que o consagrou como símbolo de autenticidade parece menos confortável quando ele reivindica o direito ao jogo — inclusive quando usa elementos do seu passado.

Nesse movimento se impõe uma hipótese incômoda: a leitura branca do homem negro opera por enquadramento. Enquanto ele encarna a dor, é celebrado. Quando reivindica cálculo e tenta fazer — ainda que de modo errado —, é suspeito. O fato é que nos parece que Babu não fez a lição de casa para ganhar 50k/dia. Aliás, dizem que mirou no jogo de milhões e acertou na mega-sena de centavos. A estratégia, tolerada e até admirada em outros perfis, torna-se ameaça quando parte de quem historicamente foi esperado no lugar da vulnerabilidade e da aula gratuita.

Em 2020, falar da dívida de aluguel era denúncia social; uma outra participante já tem usado esse signo para emergir, mas ela não é Babu em segunda edição. Em 2026, relembrar o mesmo fato soa, para alguns, como recurso de repetição. A diferença não está apenas no conteúdo da fala, mas na disposição de quem escuta, o espectador — lido e editado pela audiência da TV Globo. No fim das contas, a palavra que sustenta tudo é dinheiro. Para aparecer no programa, as cotas de patrocínio variam, em média, de 30 a mais de 130 milhões de reais por anunciante. Em 2025, cerca de 40 empresas investiram para estar ali.

O fenômeno do chamado cancelamento revela essa tensão, por parte da direção que tenta antever o percurso e por parte do público que espera algumas entregas. Não se trata apenas de julgamento moral instantâneo das redes, com equipes que produzem supercortes para o Twitter e outras mídias. Afinal, a empresa fatura quando falamos dela e de seus sentidos na dinâmica social. Trata-se de mecanismo de regulação simbólica: o público decide quem pode ser estrategista e quem deve permanecer como personagem da resistência. Tentaram Jonas — o lindo e bem educado — que se tornou o que sempre foi, o menino-homem, lindo, branco e espelho que criticamos na performance e queremos na vida social. Até a mais feminista, esquerdista e fada-sensata, Ana Paula, tentou. Ele sabe quem ele é. O sistema já o ensinou e nos ensinou tão bem que nos derretemos com aquela estratégia chamosa da "5ª série — turma A" — professoras entenderão. Voltemos ao tema, depois dessa divagação sápida.

Entre uma edição e outra, o Brasil também mudou e o vocabulário sobre lugar de fala foi absorvido pelo mainstream. A pedagogia identitária tornou-se parte do entretenimento e o que antes parecia disruptivo agora circula como repertório conhecido. Quando Babu afirma sua condição de pauta social, ele já não inaugura debate, mas entra em um campo saturado, onde a audiência oscila entre reconhecimento e fadiga — é cansativo.

Talvez a questão central não seja se Babu mudou. Todo jogador aprende e toda pessoa que retorna ao mesmo espaço carrega novas ferramentas. Agora a pergunta é outra: será que o público permite que ele mude?

O retorno de Babu expõe uma contradição profunda do imaginário nacional. Celebramos o homem negro que resiste, hesitamos diante do homem negro que calcula e até aplaudimos a autenticidade, mas desconfiamos da estratégia porque ele não aprendeu as lições que nos ensinou. Estamos falando de "rage-bait", acionamento de ódio para ganhos da empresa que agencia a nossa discussão.

No fim, o reality show segue cumprindo sua função mais contundente: revela os erros de quem está na casa e revela quem somos quando julgamos Babu por sua estrada marcada por cicatrizes que refletem suas feridas ainda em processo. Revela a branquinha-magra-feminista-esquerdista que saiu de sua posição privilegiada e foi fazer as lições necessárias que nosso tempo tem exigido. Aprender a aprender cotidianamente com os muitos movimentos chamados identitários — mas que já aprendemos com Nilma Lino Gomes que o nome não é "movimentos identitários", mas: Movimentos Emancipatórios!

Dedico esse texto aos formandos em Arte Dramática do SESC/RJ, na pessoa da atriz Yzzy Rangel.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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