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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Bilhete de Epstein abala instituições e narrativas oficiais

Entre sarcasmo, silêncio oficial e falhas inexplicáveis, o caso Epstein continua produzindo perguntas muito maiores do que as respostas apresentadas

Bilhete de Epstein abala instituições e narrativas oficiais (Foto: Justiça dos EUA)

O bilhete atribuído a Jeffrey Epstein não reduz as dúvidas sobre sua morte. Amplia todas elas. A divulgação do documento, mantido sob sigilo durante anos pela Justiça americana, recoloca no centro da cena uma das mortes mais contaminadas por suspeitas neste século — cercada por falhas absurdas, versões contraditórias, desaparecimentos oportunos de informações e uma sucessão de coincidências difíceis de engolir até para quem ainda acredita cegamente nas engrenagens do poder em Washington.

O caso inteiro parece operar fora da lógica comum. Uma suspeita invade a outra sem pedir licença à cronologia, ao bom senso ou à prudência institucional. Mesmo morto desde 2019, Epstein continua frequentando telejornais, podcasts, relatórios judiciais e redes sociais como um cadáver político que os Estados Unidos jamais conseguiram sepultar. A imprensa internacional segue desfilando condicionais: “talvez”, “supostamente”, “aparentemente”, “teria”. Em algum ponto, tanto cuidado verbal começa a soar menos como rigor jornalístico e mais como medo de tocar numa estrutura poderosa demais. A esta altura, até os bancos vazios dos parques de Washington provavelmente sabem que o bilhete é autêntico. A caligrafia coincide. Expressões usadas no manuscrito reaparecem em e-mails antigos do próprio Epstein. Ainda assim, o teatro das dúvidas continua montado.

O texto, cuja autenticidade não foi oficialmente confirmada pelo The New York Times traz frases curtas, agressivas e impregnadas de sarcasmo. “Eles me investigaram por meses — NÃO ENCONTRARAM NADA!!!”, afirma uma passagem. Em outra, surge um deboche quase insolente: “O que vocês querem que eu faça — desabe chorando?”. O bilhete termina com duas frases sublinhadas: “SEM GRAÇA” e “NÃO VALE A PENA”.

A nota teria sido encontrada em julho de 2019 por Nicholas Tartaglione, ex-policial e então companheiro de cela de Epstein no Metropolitan Correctional Center, prisão federal de Manhattan hoje desativada. Tartaglione afirma ter localizado o manuscrito dentro de uma graphic novel depois que Epstein foi retirado desacordado da cela, com um pedaço de tecido enrolado no pescoço, numa primeira tentativa de suicídio. Semanas depois, apareceria morto aos 66 anos.

O detalhe mais perturbador talvez nem esteja no conteúdo do bilhete, mas na rota subterrânea percorrida pelo documento. O manuscrito permaneceu oculto mesmo após o Departamento de Justiça liberar milhões de páginas ligadas ao caso Epstein. A própria Justiça admitiu jamais ter visto a nota antes da recente decisão judicial que a tornou pública.

A cronologia amplia o mal-estar. Advogados de Tartaglione disseram ter autenticado o documento, mas nunca explicaram quais métodos utilizaram. O original só chegou ao tribunal em maio de 2021, quase dois anos após a morte de Epstein. Nem sequer está claro quando o juiz tomou conhecimento da existência do material.

Oficialmente, o caso foi tratado como suicídio. Mas as revelações posteriores demoliram qualquer aparência de normalidade: câmeras desligadas, guardas dormindo, protocolos ignorados, vigilância interrompida e falhas incompatíveis com um preso capaz de comprometer empresários bilionários, políticos, celebridades e operadores de poder internacional.

Um velho amigo meu provavelmente encerraria a conversa com a brutalidade que certos casos exigem: “Washington, isso não foi morte conveniente. Foi queima de arquivo em escala planetária. Só falta agora pedirem que a gente acredite que tudo aconteceu por azar, coincidência e incompetência ao mesmo tempo. Contém outra!” O problema é que milhões de pessoas, dentro e fora dos Estados Unidos, já não conseguem mais acreditar nessa versão.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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