BolsoMaster: a circulação e o retorno. As "doações" a Tarcísio e Bolsonaro
A engrenagem de poder que se retroalimenta por fluxos indiretos de recursos e influência política
Não é porque a GloboNews recuou em sua violência em forma de PowerPoint, com um pedido inédito de desculpas sem que houvesse ação judicial, que devemos recuar em nossa tarefa de deixar claro o funcionamento do grande cancro que está se mostrando ser o “esquemão” do BolsoMaster.
Se as primeiras lâminas revelaram o metabolismo e o sistema nervoso, esta terceira etapa da biópsia expõe algo ainda mais sensível: a circulação. É nela que se observa não apenas como o organismo se alimenta, mas também como redistribui os recursos que acumula.
Nenhum tumor cresce sem retorno. Ele se expande, captura, processa — e, em algum momento, reverte parte dessa energia para os tecidos que o sustentam.
É nesse ponto que a análise passa a observar possíveis fluxos de retornos políticos e financeiros.
Como vimos nas colunas anteriores, fortes indícios apontam para a atuação de uma rede de apoio que inclui nomes como Ciro Nogueira, Filipe Barros, Campos Neto, Onyx Lorenzoni, entre outros atores que, em diferentes momentos, ocuparam posições estratégicas na estrutura institucional do governo Bolsonaro. A hipótese que se desenha é a de uma relação de reciprocidade: apoio político que viabiliza expansão econômica — e recursos que, posteriormente, retornam para alimentar esse mesmo sistema.
Esse retorno não se dá de forma direta e linear. Como em toda patologia complexa, ele circula por vias indiretas, por estruturas intermediárias, por organismos aparentemente periféricos.
Nesse contexto, surge a figura de Fabiano Zettel, pastor e operador vinculado à Igreja Lagoinha. A mesma de Nikolas Ferreira, é sempre importante destacar. Sua posição, simultaneamente religiosa e relacional, sugere uma possível função de intermediação — um canal por onde fluxos financeiros transitam em direção a espaços de menor visibilidade e maior blindagem simbólica.
Não se trata de afirmar conclusões definitivas, mas de observar padrões. Relações de proximidade, coincidências operacionais e interações que, quando analisadas em conjunto, sugerem a existência de uma rede de circulação mais ampla.
No campo eleitoral, há também registros e relatos que indicam a possibilidade de apoio logístico e financeiro a campanhas políticas em 2022. Elementos que, se confirmados pelas investigações, podem revelar uma dimensão adicional desse circuito de retorno. E aqui, é evidente, já podemos nos referir aos R$ 5 milhões doados por meio de Zettel às campanhas de Bolsonaro e de Tarcísio, e ao empréstimo do jato de Daniel Vorcaro para Nikolas voar pelo Brasil na campanha derrotada de Bolsonaro em 2022.
Como em qualquer biópsia, o que inicialmente aparece como fragmento isolado passa, aos poucos, a compor um desenho mais amplo. E esse desenho aponta para um organismo que não apenas cresce, mas que retroalimenta suas próprias bases de sustentação.
Há ainda um ponto que merece atenção: a possibilidade de deslocamento de parte desses recursos para fora do país. Quando isso ocorre, o organismo deixa de operar apenas no plano nacional e passa a integrar circuitos mais complexos de circulação financeira, dificultando ainda mais o rastreamento.
É por isso que as investigações em curso — e a eventual delação do banqueiro — serão decisivas. Seguir o rastro do dinheiro é, em última instância, compreender o funcionamento completo do sistema.
Se as primeiras etapas da biópsia revelaram a origem e o funcionamento interno, esta terceira aponta para algo ainda mais grave: a existência de uma rede de circulação que conecta poder econômico, político e simbólico.
E, como em toda patologia avançada, quanto mais se aprofunda o exame, mais evidente se torna que o problema não está em uma célula isolada, mas na articulação entre todas as partes do organismo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



