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Celular de Vorcaro tinha minuta do TCU que suspendia ações do Banco Central contra o Master

Documento sem assinatura encontrado em investigação sugere tentativa de barrar decisões do BC sobre o Banco Master e levanta suspeitas

TCU (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

247 - Uma minuta de despacho atribuída ao Tribunal de Contas da União (TCU) foi identificada entre mais de 12 mil arquivos extraídos do celular do empresário Daniel Vorcaro e encaminhados à CPMI do INSS, no Congresso Nacional. O documento, sem autoria ou assinatura, determinava que o Banco Central suspendesse “toda e qualquer decisão” relacionada ao Banco Master, além de prever a oitiva de técnicos da autoridade monetária no prazo de dez dias, informa Malu Gaspar, do jornal O Globo.

De acordo com a apuração, havia duas versões do arquivo, ambas em formato Word e intituladas “TCU_mora_excessiva”, criadas em 29 de agosto de 2025, com poucos intervalos de tempo entre si, conforme apontam os metadados. O material não indica se foi produzido, recebido ou compartilhado por Vorcaro, e sua origem permanece desconhecida.

Na época em que o documento foi elaborado, o processo envolvendo o Banco Master já estava sob relatoria do ministro Jhonatan de Jesus no TCU. Recentemente, o magistrado decidiu suspender a análise sobre a atuação do Banco Central na liquidação extrajudicial da instituição até a conclusão das investigações em curso. Antes disso, ele havia rejeitado uma representação do Ministério Público junto ao tribunal que buscava apurar possíveis falhas do Banco Central na supervisão das operações do banco e no negócio envolvendo o BRB.

O episódio ocorre em um contexto de intensa movimentação política e institucional. Jhonatan de Jesus, ex-deputado pelo Republicanos de Roraima, foi indicado ao TCU com apoio de lideranças do Centrão, entre elas o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que mantém relação de proximidade com Vorcaro e atuou no Senado em iniciativas consideradas favoráveis ao Banco Master.

A descoberta da minuta coincide com um período crítico, quando o Banco Central analisava a viabilidade da operação entre o BRB e o Master e já havia exigido medidas para sanar problemas de liquidez da instituição. Paralelamente, representantes do governo do Distrito Federal e do BRB foram alertados pelo Ministério Público Federal sobre suspeitas envolvendo carteiras de crédito negociadas por mais de R$ 12 bilhões.

Na ocasião, procuradores recomendaram ao Banco Central que não aprovasse a operação e orientaram o governo distrital a aguardar a comprovação da “fidedignidade e lisura dos ativos”, evitando riscos ao uso de recursos públicos. Mesmo diante desses alertas, o governo do Distrito Federal solicitou ao TCU o acompanhamento técnico da análise.

Após o veto do Banco Central à compra do Master pelo BRB, formalizado em 3 de setembro de 2025, o governo distrital voltou a acionar o TCU, pedindo a suspensão imediata de decisões do regulador — com uma redação semelhante à encontrada na minuta armazenada no celular de Vorcaro.

Auditoria do TCU, divulgada posteriormente, criticou duramente essa atuação. Em parecer, técnicos afirmaram que houve tentativa de utilizar o controle externo para reverter uma decisão técnica baseada em irregularidades já identificadas. Segundo o documento, havia indícios de fraudes, ativos de existência duvidosa e ausência de procedimentos adequados de verificação.

A auditoria também destacou que a insistência em pressionar o Banco Central poderia expor o BRB a riscos financeiros expressivos, reforçando a necessidade de responsabilização dos envolvidos.

As investigações apontam ainda que o Banco Central já vinha identificando problemas no Banco Master desde 2024, incluindo dificuldades de captação e cumprimento de obrigações financeiras. Ao longo de 2025, alertas sobre possíveis sanções foram reiterados, até a decretação da liquidação extrajudicial da instituição.

A defesa de Daniel Vorcaro afirmou que não comentará o conteúdo do material, alegando tratar-se de informações oriundas de vazamentos ilegais. Em nota, declarou que os fatos já são alvo de investigação criminal no Supremo Tribunal Federal e que qualquer manifestação poderia contribuir para a disseminação de conteúdo sob apuração. Até a publicação, nem o BRB nem o governo do Distrito Federal haviam se pronunciado sobre o caso.

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