Bolsonaro ainda está impune, apesar de ter empurrado milhares para a morte
“O líder negacionista da pandemia não cometeu apenas omissões, mas ações deliberadas contra a vida, e nunca foi punido”, escreve Moisés Mendes
Não é analogia, não é comparação, não é equivalência. É a realidade do Brasil que já foi jogado do penhasco e sobreviveu. É o mesmo país que está agora sem entender como uma moça foi atirada de uma ponte para a morte sem proteção alguma, apesar de estar sob os ‘cuidados’ de três homens.
Bolsonaro jogou todo o Brasil num penhasco, na pandemia, e ainda riu dos que morreram. Metade dos que sobreviveram voltou a pedir, pouco tempo depois, que ele continuasse cuidando das suas vidas, na condição de pessoa mais importante do país.
Bolsonaro empurrou para a morte pelo menos metade das 700 mil vítimas da Covid, conforme cálculos consagrados por especialistas, ao negar vacina, oxigênio e orientação básica à população e ao induzir a população ao negacionismo. E debochou dos que morreram.
Metade dos vivos, que são parentes, amigos, colegas de trabalho, vizinhos e conhecidos dos mortos, achou que era assim mesmo. Essa metade queria que Bolsonaro permanecesse no poder em 2022.
O Brasil estupefato com o caso de Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, jogada do alto de uma ponte de 40 metros em São Paulo, no que deveria ser um salto recreativo, nunca se abalou como deveria com as ações de Bolsonaro.
Não foram omissões. Foram ações deliberadas. Bolsonaro negou vacina à população, no pico da pandemia, porque precisava vender a solução milagrosa da cloroquina. Seria ovacionado mundialmente como o salvador da humanidade.
Os três homens que jogaram Maria Eduarda sem cordas são parte do retrato do Brasil que o bolsonarismo começou a construir em 2018. Um Brasil que se espanta com o fato assombroso da moça jogada da ponte, que reúne imperícia, negligência e descaso com a vida alheia.
Mas é incapaz de admitir que Bolsonaro fazia a mesma coisa, em 2020, como chefe da nação e da matança da pandemia. Não por descuido culposo, mas por ação dolosa. Bolsonaro decidiu que a população não seria vacinada.
A imunização só ocorreu pela iniciativa do então governador João Doria com o Butantã, para desenvolvimento de uma vacina, e pela pressão do que ainda chamam de sociedade civil. Bolsonaro foi tardiamente derrotado, mas continua impune.
Bolsonaro dizia, às gargalhadas, que não era o coveiro da pandemia. E não era mesmo. O coveiro cumpre com dignidade sua tarefa de enterrar os mortos. Bolsonaro era o líder da estrutura de morte montada dentro do governo.
Também seus cúmplices estão impunes, apesar de indiciados pela CPI da Covid em outubro de 2021. Todos impunes há cincos. Setenta e nove impunes, contando os que governavam, os que achavam que eram governo e se intrometiam na propagação da cloroquina e na venda fraudulenta de vacinas, os que se consideravam médicos ou especialistas em saúde pública e os que agiam deliberadamente como criminosos negacionistas.
Todos com crimes tipificados pela CPI. Todos terrivelmente impunes. Bolsonaro é acusado de nove crimes. Começando pelo protagonismo, como governante, para que a pandemia se alastrasse. É acusado de charlatanismo, ao disseminar a propaganda e a distribuição de cloroquina. De prevaricação, por não ter agido com a autoridade de quem tinha prerrogativas e deveres.
É acusado de emprego criminoso de verba pública em soluções ineficazes. De incitação ao crime ao instigar a população para que se aglomerasse e criasse imunidade de rebanho. De falsificação de documentos, ao usar falsos relatórios, segundo os quais milhares de pessoas não estavam morrendo de Covid.
É acusado de crime de responsabilidade, por proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo, ao subestimar a pandemia. E de crimes contra a humanidade, pelo conjunto de suas ações deliberadas e omissões.
Bolsonaro não se esqueceu de colocar no país os equipamentos de proteção contra a Covid. Ele agiu de propósito no sentido de não oferecer proteção alguma. Está impune porque o Ministério Público não fez nada, desde outubro de 2021.
Mas pelo menos continua sob investigação, em inquérito aberto em setembro do ano passado por determinação do ministro Flávio Dino. Ele e mais 23 impunes, que nunca foram alcançados por nenhuma medida de contenção que pudesse interromper o que faziam.
Metade do Brasil alarmado com o que aconteceu com Maria Eduarda torce para que um herdeiro de Bolsonaro continue fazendo o que o pai dele fazia e que aparecia até no Fantástico.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




