“Borboletas de Concreto”: A vida de Marielle na arte cênica das muitas Marielles que teimam em desafiar o sistema
Peça de Bruno Estrela e direção de Silvia Viana reestreia em Brasília, com artistas que têm uma vida parecida com a da própria Marielle na Maré
A peça Borboletas de Concreto, que volta a ser apresentada neste fim de semana em Brasília, é mais do que uma obra de excelência da arte cênica. Ela é, em si, o resultado de um movimento que evoca as muitas Meirelles que vivem no Brasil. Na peça, a cujo ensaio-geral assisti, a vida da vereadora assassinada em 2018 é retratada com maestria, a partir do texto de Bruno Estela e direção de Sílvia Viana. Mas o que me chamou a atenção igualmente foram as entrevistas depois do ensaio, em que tive a oportunidade de descobrir que grande parte dos atores tem uma trajetória parecida com a de Marielle. São de Ceilândia, a cidade satélite do Distrito Federal que tem um dos menores IDHs da região e é formada, em grande parte, por imigrantes do Nordeste. Quando perguntei a Cristyle Cei de onde era, ela disse, com firmeza que pareceu quase um orgulho: “Sou do Sol Nascente, Ceilândia”.
Trata-se de uma das maiores favelas do Brasil, de acordo com o último Censo do IBGE, com 32 mil domicílios e quase 90 mil habitantes. No palco, ela canta um rap composto por ela própria.
“Então senta aí e assiste que esse ódio vem de berço. Constatei dívida ativa, vão ter que pagar o preço. O mundo é um moinho, sempre traz e vira a volta. Se nós jogamos reversas, revira, mas não volta. Essa dívida ancestral, eu renasci só pra cobrar: nossas terras, ouro e trono no ódio eu vou retomar. Essa justiça branca não é capaz de me vingar, e esse feminismo branco não vai me representar. Seguindo, eu sorrio, não há tempo para choro. o grilhão que tava no pé e nos acorrentava hoje virou corrente no pescoço”, interpreta.
Mila Ellen, atriz que interpreta uma das versões Marielle, a de carne e osso, tem uma aspecto que se confunde com a da própria Marielle, a da doçura e de amor pela arte, que fez desta uma das dançarinas do funk apresentado pela Furacão 2000, no Rio de Janeiro. Mila também é de Ceilândia, e conheceu o funk antes mesmo de entrar na faculdade de artes cênicas.
A outra versão de Marielle é interpretada pela premiada Silvia Paes, que estudou a técnica Butô, criada no Japão e que procura expressar o reencontro com a ancestralidade, um imaginário reencontro entre os vivos e os mortos, com movimentos lentos e de beleza incomum. A Marielle retratada por Silvia é a da luta por direitos, a da briga por espaços negados, que lhe custou a própria vida.
A peça começa com uma provocação que vai chocar os que têm pele e olhos claros, aqueles que sabem que o racismo existe, mas não nunca viveram uma situação como a das Marielles do Brasil. Borboletas de Concreto já foi vista no ano passado e, neste fim de semana, poderá ser vista pelos que moram em Brasília. A expectativa agora é que a peça ganhe outros palcos, em todo o Brasil.
A memória de Marielle merece. As muitas mulheres que Marielle interpretou (se você assistir à peça, vai entender) também. O Brasil que quer se civilizar, seja o brasileiro de que gênero for, precisa ver essa peça.
Serviço:Espetáculo: Borboletas de Concreto – Vozes de Marielle (2ª temporada)Datas: 25 e 26 de abril – horários: 20h e 15h respectivamenteLocal: Teatro dos Bancários – SCS Qd. 314/15 Sul, Brasília/DFIngressos:
https://www.sympla.com.br/evento/borboletas-de-concreto--vozes-de-marielle/3381871
Classificação indicativa: 16 anos
Realização: Casa de Ferreiro Companhia de Teatro
Apoio: Sindicato dos Bancários
Ficha técnica completa:
Direção: Silvia Viana
Dramaturgia: Bruno Estrela
Elenco: Silvia Paes, Mila Ellen, Maralto, Cristyle Cei, Silvia Mello e Bruno Estrela
Iluminação e Cenografia: Cleiton do Carmo
Figurino: Fernando Cardoso Olivier e Silvia Mello
Sonoplastia: Fernando Meira

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



