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Olímpio Cruz Neto

⁠Jornalista e analista de Risco Institucional e Geopolítica. Foi consultor do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) em Xangai, diretor de Relações Institucionais da GAC Brasil e secretário de Imprensa da Presidência da República

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Brasília no espelho de Aranha

O 15º Plano Chinês e a nossa “Volta Redonda” digital. A oportunidade de uma Geopolítica de Reciprocidade

Oswaldo Aranha (Foto: Nações Unidas)

O mundo não acordou apenas com o noticiário; acordou com a sensação — rara — de que há um cronograma em execução. Enquanto em Pequim o 15º Plano Quinquenal (2026–2030) se anuncia como um ciclo de decisões encadeadas, em Brasília seguimos, muitas vezes, como se a política internacional fosse um painel de manchetes: ora alarmista, ora eufórico, quase sempre reativo.

A data de hoje tem um simbolismo que vale mais do que nostalgia. Há 66 anos, em 27 de janeiro de 1960, morria Oswaldo Aranha. Ele não era um diplomata de salão; era um engenheiro de poder. Entendia que política externa não é decoração — é instrumento para construir capacidade no quintal de casa. Se estivesse vivo, talvez não perguntasse o que a China quer do Brasil. Perguntaria por que, em tantos momentos decisivos, o Brasil ainda troca densidade histórica por gestos protocolares; por que, diante de grandes ciclos de reorganização mundial, ainda se contenta com aplausos e memorandos, como se isso fosse ativo estratégico.

O “Estado-Projeto” e o “Estado-Comentário”

A China encerrou 2025 com números oficiais que sustentam uma narrativa de estabilidade e continuidade, mesmo sob pressão externa e atritos de reequilíbrio interno. Mas o ponto central não está na cifra — está na direção. O novo ciclo chinês combina reorientação econômica, disciplina administrativa e uma obsessão pelo que chama, em diferentes vocabulários, de autonomia: industrial, tecnológica, energética, financeira e — cada vez mais — informacional.

Esse é o Estado-Projeto em sua forma mais pura: quando a política pública não é um debate interminável sobre intenções, mas um mecanismo de execução. Não é um elogio automático; é uma descrição de método. E método, em geopolítica, costuma pesar mais do que retórica.

O risco para o Brasil, nesse espelho, é ficar no Estado-Comentário: observar a transição chinesa e traduzi-la, apressadamente, como “ótimo para a soja”, “bom para o minério”, “ruim para a indústria”, “perigoso para a soberania”. É uma leitura de plateia — e o século não está pedindo plateia.

Até as pautas internas chinesas, quando olhadas sem preconceito, obedecem à lógica do motor. A estabilidade social — inclusive por meio de regulação de segmentos novos, como o trabalho mediado por plataformas — não aparece como gesto simbólico, mas como variável de demanda, coesão e previsibilidade. Quando um país trata coesão como engenharia, ele reduz volatilidade. E a volatilidade — para quem exporta, investe e negocia — sempre volta como custo.

Se o Brasil não compreender que a estabilidade alheia é parte do seu cálculo externo, será passageiro de um trem que não conduz. E passageiro, no mundo de hoje, paga a tarifa mais cara: a do atraso.

A nova siderurgia: soberania na era do “interruptor”

Nos anos 1940, a moeda de troca de Aranha foi a geopolítica dos mares em troca de capacidade industrial: a Companhia Siderúrgica Nacional, a “Volta Redonda” como símbolo de uma aposta nacional em cadeia produtiva, engenharia e densidade. A época era outra, mas a lógica permanece: potência não é discurso; potência é infraestrutura.

Em 2026, a siderurgia mudou de face. O debate global já não se limita a fábricas e aço. A questão central é controle de camadas críticas: software, atualizações, licenças, dados, componentes, manutenção. O nome popular disso — “kill switch”, o “interruptor” remoto — não é necessariamente uma teoria conspiratória: é um modo de descrever dependências técnicas que, em cenário de atrito, viram vulnerabilidade operacional. Não se trata de paranoia; trata-se de continuidade.

A tecnologia deixou de ser apenas eficiência e virou continuidade nacional. Um país pode ter portos, linhas de transmissão, frota, logística, mas se as camadas digitais que operam esses sistemas dependem de terceiros — e se dependem em condições opacas — a soberania vira uma palavra bonita com custo invisível. Nessa chave, o Brasil corre o risco de ser o celeiro que garante segurança alimentar a outros enquanto aceita, sem perceber, uma dependência digital que nenhuma diplomacia de sorrisos conserta.

Parcerias que não constroem capacidade aqui apenas reproduzem a nossa dependência ali — ainda que com outro sotaque, outro contrato, outro power point.

Onde estaria a nossa “Volta Redonda” de 2026?

A boa notícia é que a oportunidade está, de fato, aberta. O mundo está em rearranjo: Europa ensaia autonomia em setores críticos, o Sul Global coordena voz em fóruns internacionais, Washington recalibra prioridades e cadeias produtivas. Essa fricção não é um acidente; é o novo desenho do tabuleiro.

Nessa paisagem, o Brasil não precisa inventar um Estado do zero. Precisa reconhecer que possui instrumentos — e que a questão central é coordenação, foco e método.

Há, no país, alavancas reais: diplomacia profissional, bancos públicos, regulação setorial, capacidade de compra e indução tecnológica, universidades e engenharia aplicada, marcos legais que podem ser desenhados para gerar densidade em vez de apenas movimentar caixa. E há, sobretudo, algo que poucos têm na mesma escala: mercado, território, base produtiva, recursos e uma posição geográfica e política capaz de negociar sem submissão automática.

A Geopolítica de Reciprocidade não é um grito de guerra; é uma gramática de troca. Ela começa quando o Brasil passa a ver suas vantagens comparativas como moeda — e não como destino.

O ponto, então, não é “dar lição” em Brasília. É mostrar que a janela de 2026 permite — se houver método — converter comércio em aprendizado, investimento em capacidade, parceria em densidade tecnológica. Sem bravatas. Sem messianismo. Sem o vício nacional do “grande anúncio” que termina em seminário.

O fantasma que cobra método — não bravura

O fantasma de Oswaldo Aranha não paira sobre Brasília por saudade, mas por cobrança de método. Ele veria no 15º Plano quinquenal chinês menos um enigma e mais um espelho: um país que trata soberania como engenharia — e não como retórica.

A boa notícia é que o Brasil não está desarmado. Tem mercado, tem escala, tem Estado, tem diplomacia e tem experiência histórica de troca “com contrapartida”. A oportunidade aberta em 2026 é simples e exigente: transformar o que o país já tem — commodities, território, demanda, legitimidade diplomática — em moeda de soberania concreta, isto é, capacidade instalada, domínio técnico, cadeia produtiva, aprendizado institucional.

A pergunta que fica não é o que a China quer do Brasil. É se o Brasil, desta vez, vai querer algo de si mesmo — e saber negociar isso.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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