Brexit: se arrependimento matasse...
Dez anos após o referendo de 2016, o Reino Unido parece viver um fenômeno que a imprensa britânica passou a chamar de “Bregret” ("Brexit" + "regret")
Há dez anos, em 23 de junho de 2016, o Reino Unido votava pela saída da União Europeia. Hoje, a maioria dos britânicos está convencida de que o Brexit foi um péssimo negócio ou, no mínimo, uma grande decepção. E agora que o mal está feito, será possível uma reversão?
Um levantamento recente do instituto YouGov mostra que 58% dos britânicos consideram que deixar a União Europeia foi um erro, enquanto apenas 29% ainda acreditam que a decisão foi correta. Até mesmo 15% dos eleitores de Nigel Farage, o grande símbolo do Brexit, hoje defendem o retorno à União Europeia. A mesma opinião é compartilhada por cerca de 80% dos filiados ao Partido Trabalhista, sem falar nos eleitores dos Verdes e dos Liberal-Democratas.
Outros estudos, citados pela revista The Economist, sugerem que, se um novo referendo fosse realizado hoje, 62% votariam pela volta à União Europeia, contra apenas 38% favoráveis à permanência fora do bloco. Um contraste impressionante com o apertado resultado de 52% a 48% que decidiu o Brexit há uma década.
Entre os jovens, o arrependimento é ainda maior: cerca de 60% da Geração Z votaria pela volta à União Europeia, enquanto apenas uma pequena minoria manteria a situação atual.
Por que muitos se arrependeram? As promessas centrais da campanha pró-Brexit não se concretizaram da forma esperada. Entre os fatores mais citados pelos britânicos estão: crescimento econômico mais lento; aumento da burocracia para exportações e importações; dificuldades para pequenas empresas que comerciavam com a Europa; inflação dos alimentos e de produtos importados; escassez de mão de obra em setores como agricultura, transporte e hotelaria; redução das oportunidades de estudo e trabalho para jovens no continente europeu.
Outro ponto importante é a imigração. O Brexit foi vendido como um instrumento para controlar as fronteiras. Contudo, embora a imigração proveniente da União Europeia tenha diminuído, a imigração de países fora da UE aumentou significativamente, levando muitos eleitores a concluir que um dos principais objetivos da saída não foi alcançado.
Mas isso significa que querem voltar? Não exatamente. Existe uma distinção importante entre arrepender-se do Brexit e querer reingressar imediatamente na União Europeia. Muitos britânicos acreditam que a saída foi um erro, mas também entendem que retornar seria politicamente complexo, economicamente custoso e diplomaticamente difícil. Assim, o apoio mais amplo hoje é por: estreitar relações comerciais; reduzir barreiras alfandegárias; ampliar a cooperação em defesa e segurança; facilitar a mobilidade de estudantes e trabalhadores. Ou seja, muitos preferem uma aproximação gradual em vez de simplesmente “desfazer” o Brexit.
Apesar da mudança de opinião, uma parcela da população continua convencida de que deixar a União Europeia foi a decisão correta. Entre eleitores conservadores, da extrema direita, e simpatizantes do partido de Nigel Farage, o Brexit ainda é visto como uma afirmação da soberania nacional. Muitos dos que hoje lamentam os resultados não rejeitam necessariamente a ideia do Brexit em si. Argumentam que o projeto foi mal conduzido pelos sucessivos governos, e não que o princípio da saída fosse equivocado.
Em síntese, dez anos após o referendo de 2016, o Reino Unido parece viver um fenômeno que a imprensa britânica passou a chamar de “Bregret” ("Brexit" + "regret"): um crescente sentimento de que a promessa de recuperar prosperidade, soberania e controle das fronteiras produziu resultados muito inferiores aos esperados, ainda que o país permaneça hesitante e dividido sobre qual deveria ser o próximo passo.
Talvez saudosos dos orgulhosos tempos vitorianos, quando a Inglaterra era “o império no qual o Sol nunca se põe”, essa parcela dos eleitores britânicos que ainda hesitam em apoiar a volta do Reino Unido à União Europeia pode estar se esquecendo de que, em política e em economia, a hesitação costuma ser prejudicial. Ao longo da história, um dos princípios mais recorrentes da arte de governar é que a indecisão frequentemente custa mais caro do que uma decisão imperfeita. Isso porque a política é, antes de tudo, gestão do tempo. Há momentos em que a oportunidade desaparece rapidamente, e um governante que demora a agir perde a iniciativa, transmite insegurança e abre espaço para que adversários ditem os acontecimentos.
Nicolau Maquiavel observava que a fortuna favorece aqueles capazes de agir com determinação quando as circunstâncias exigem. Para ele, a hesitação excessiva era uma das marcas dos governantes que acabavam dominados pelos acontecimentos, em vez de dominá-los.
E os antigos gregos, pais da nossa civilização, afirmavam sabiamente que a hubris - a arrogância - é a maior de todas as falhas trágicas. Os deuses punem com o maior rigor aqueles que perdem a consciência dos próprios limites. O descomedimento é apanágio dos deuses, e só a eles é permitido ir além das próprias pernas. Terão os britânicos incorrido nessa falha trágica ao achar que seria melhor para eles ficar sozinhos, em vez de permanecer conectados aos bons amigos da Europa Unida?
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




