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Luis Pellegrini

Luís Pellegrini é jornalista e editor da revista Oásis

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Memórias de uma Antártica cada dia mais quente

As provas da realidade do aquecimento global são mais do que evidentes

Um iceberg flutua perto da Ilha Two Hummock, na Antártica (Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino)
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A base argentina Esperanza, na Península Antártica, registrou uma temperatura de 15,4 °C no início deste mês de junho, um novo recorde histórico para o mês. Como mostram fotografias, calor suficientemente para permitir aos moradores da base fazer longas caminhadas vestidos apenas com bermudas e camisetas. O valor supera o recorde anterior de 13,3 °C, registrado em 1998, e está muito distante da média de junho, de 6,2 °C. 

Ao longo da costa oeste do continente mais austral do mundo, falta uma superfície de gelo quase tão grande quanto a França: o déficit é estimado em cerca de 650 mil quilômetros quadrados em relação à média das últimas décadas. O fenômeno diz respeito ao gelo marinho, que é diferente do gelo continental. Quando a banquisa derrete, o gelo marinho não contribui diretamente para a elevação do nível dos oceanos. Sua presença, no entanto, tem um papel importante: protege as plataformas de gelo, que por sua vez retêm as grandes geleiras da Antártida. Na Península Antártica, o inverno austral tem dificuldade em consolidar o gelo marinho. Nessa região, bem como no outro lado do mundo, no Ártico, as provas da realidade do aquecimento global são mais do que evidentes.

A notícia traz-me à mente lembranças da minha visita ao continente gelado, e à base brasileira Comandante Ferraz, situada na mesma Península, entre os meses de novembro e dezembro de 2009. Era o final da primavera no hemisfério sul, e os sinais da mudança climática começavam a se manifestar na região. Foi uma viagem extraordinária, a bordo do navio norueguês NordNorge.

Na Baía do Almirantado, esgueirando-se entre a miríade de blocos de gelo flutuantes, nosso bote de borracha se aproximou da praia de neve e cascalho onde, mais à frente, deveria aparecer a Estação Antártica Comandante Ferraz. Perguntei: “Onde está a estação? Onde estão os sessenta e tantos módulos de aço galvanizado que a compõem, pintados com o gritante verde-esperança-da nossa- bandeira?” Sobre a superfície branquíssima do imenso campo de neve viam-se apenas algumas grandes manchas de cor laranja intenso, encimadas por antenas parabólicas. Essas manchas eram o teto da base. Tudo o mais estava invisível, coberto pela neve. Sim, tínhamos chegado à base brasileira Comandante Ferraz. Da praia só era possível ver o teto e as antenas parabólicas. As instalações estavam praticamente soterradas pela neve que, no inverno de 2009, foi muito abundante na Península Antártica.

Na praia, um pequeno grupo de brasileiros estacionados na Comandante Ferraz, quase todos militares da Marinha, nos esperava com as boas-vindas. “Este ano (2009) tivemos a maior quantidade de neve desde a inauguração da base, em 1984. Todas as instalações estão cobertas por uma camada de três metros. Só os tetos ficaram de fora, e assim mesmo porque após cada nevasca vamos lá em cima e varremos tudo”, explicou o baiano Roberto Lopes dos Santos, sargento da Marinha especializado em instalações elétricas, há quase dois anos na Estação, enquanto nos conduzia para a entrada dela. Qual a razão dessa neve toda? “Os climatologistas acham que é por conta do aquecimento global. A temperatura média na Península Antártica, onde nos encontramos, aumentou cerca de cinco graus centígrados nos últimos anos. Temperaturas mais altas significam maior evaporação de água. Mais umidade na atmosfera significa maior índice de precipitações. Assim, por incrível que pareça, a causa dessa neve toda é o calor”, completou o sargento Roberto.

Sargento Roberto era o típico baiano simpático e sorridente, e não escondia o prazer que sentia ao receber e ciceronear brasileiros, pois as visitas à base eram raras. No momento do nosso encontro, não podíamos imaginar que ele morreria poucos anos depois, em 25 de fevereiro de 2012, no incêndio que devastou grande parte da Estação Antártica Comandante Ferraz. Roberto morreu ao lado do suboficial Carlos Alberto Vieira Figueiredo enquanto tentavam combater o incêndio que destruiu cerca de 70% da base brasileira na Antártida.

Caminhamos até a entrada da Estação Comandante Ferraz, e vi que ela tivera de ser escavada na neve. Pisando na neve fofa, enfiando as pernas até os joelhos, cheguei diante de um grande buraco. Uma série de degraus escavados na parede interna do buraco formava uma escada rudimentar que descia até a entrada.

Passada a porta, entrava-se num grande salão cheio de mesas e sofás. Tinha até um barzinho. Era a área social da Estação Comandante Ferraz. O lugar onde o pessoal se reunia nos momentos de folga e se recebiam as visitas. Sobre uma mesa, bandejas cheias de bolos, biscoitos e bolachas maizena. No ar, o cheirinho de café fresco não deixava margem a dúvidas: estávamos em território brasileiro.

Lá dentro, todo mundo usava camiseta, os aquecedores estavam todos desligados. Fazia calor. Como isso é possível quando se está soterrado sob três metros de neve? É o “efeito iglu”, bem conhecido pelos esquimós que habitam o outro extremo da Terra, o Ártico. Uma casa de gelo reflete e concentra o calor em seu interior.

Durante o café com os ocupantes da base, fomos informados que os delírios do clima já davam o ar de sua graça na Antártica, e estavam acontecendo também no Ártico, com o derretimento das banquisas e profundas alterações nos territórios polares da Groenlândia, Sibéria e Canadá. Até há poucos anos, só no auge do verão austral, entre dezembro e fevereiro, era possível chegar de barco até as praias continentais da Antártica. Nos outros meses a superfície do mar se tornava gelo sólido, por extensões que podiam chegar a muitos quilômetros a partir das praias. Hoje, como acontecera conosco, esse gelo se derrete muito antes, já a partir do final do mês de outubro.

É fato científico comprovado que o  aquecimento das temperaturas médias na Antártica continua, embora não de forma uniforme, em todo o continente. As oscilações naturais do clima podem provocar períodos de estabilização ou até de resfriamento regional, mas a tendência de longo prazo permanece de aquecimento.

A Antártica Ocidental e a Península Antártica continuam sendo as regiões que mais aquecem no mundo todo. Nelas, o aumento das temperaturas é mais evidente e está associado ao recuo de geleiras e às rachaduras e derretimento das plataformas de gelo - a banquisa. Estudos recentes indicam que, considerando o conjunto do continente, a temperatura média segue em elevação desde meados do século 20. Uma análise publicada em 2026 concluiu que o aquecimento anual médio da Antártica é de cerca de 0,13°C por década, podendo ser maior quando se descontam alguns efeitos de variabilidade atmosférica natural. Desde 2025 e agora em 2026, a Antártica registrou uma das maiores anomalias de temperatura já observadas nos registros modernos. Onde isso vai parar? É a pergunta que inquieta e preocupa cientistas do mundo inteiro.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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