El Niño está chegando. Mas a maior tempestade está nas narrativas
O El Niño passou a ser apresentado, muitas vezes, não como um fenômeno climático recorrente, mas como um personagem apocalíptico
A cada novo anúncio sobre a chegada do El Niño, as manchetes reaparecem com a mesma intensidade de um ritual climático. Vêm as previsões de secas, enchentes, ondas de calor, perdas agrícolas e riscos energéticos. Em seguida, surgem os discursos de emergência, os alertas dramáticos e, inevitavelmente, as disputas políticas em torno do fenômeno. Mas uma pergunta raramente é feita: estamos diante de uma ameaça real ou de mais um episódio em que um fenômeno natural é transformado em instrumento de disputa econômica, política e ideológica?
Segundo os organismos meteorológicos internacionais e brasileiros, o novo El Niño já está em fase de formação e sua oficialização pode ocorrer já neste mês de junho de 2026, com alta probabilidade de consolidação entre julho e agosto. As projeções mais recentes indicam que o fenômeno pode persistir até o início de 2027.
Para o Brasil, os impactos mais relevantes tendem a aparecer entre a primavera e o verão de 2026/2027, quando o El Niño normalmente influencia de forma mais intensa os regimes de chuva e temperatura. No caso específico de São Paulo e do Sudeste, os efeitos costumam ser historicamente mais variáveis do que no Sul do país. O padrão mais comum é de temperaturas acima da média, enquanto os efeitos sobre as chuvas dependem da interação com outros sistemas atmosféricos.
Um aspecto importante é que, embora a formação do fenômeno esteja se tornando cada vez mais provável, a intensidade ainda não é consenso. Alguns modelos sugerem um evento moderado; outros admitem a possibilidade de um episódio forte.
Para este novo El Niño, existe uma questão particularmente interessante: o que está mobilizando a atenção dos climatologistas não é apenas a chegada do fenômeno cllimatológico, mas o fato de ele ocorrer sobre um oceano global já excepcionalmente aquecido. Isso alimenta o debate sobre até que ponto os efeitos futuros serão resultado do fenômeno natural e até que ponto refletem transformações mais amplas do sistema climático global.
Comecemos pelo que não está em discussão. O El Niño existe. Trata-se de um fenômeno climático natural, estudado há décadas, provocado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial. Seus efeitos sobre os regimes de chuva e temperatura em diversas regiões do planeta são conhecidos e amplamente documentados. Negar sua existência seria tão absurdo quanto negar a ocorrência das marés ou das estações do ano.
O problema começa quando a ciência dá lugar ao espetáculo. O El Niño passou a ser apresentado, muitas vezes, não como um fenômeno climático recorrente, mas como um personagem apocalíptico capaz de explicar qualquer evento extremo. Chove demais? Culpa do El Niño. Faz calor? El Niño. Seca prolongada? El Niño novamente. A complexidade climática desaparece e surge uma narrativa simplificada, pronta para alimentar manchetes e produzir impacto emocional.
A realidade é muito menos conveniente. O clima da Terra resulta da interação de inúmeros fatores atmosféricos, oceânicos, geológicos e humanos. O El Niño é apenas uma peça desse gigantesco quebra-cabeça. Importante, sem dúvida. Determinante em alguns casos. Mas longe de ser a única variável em jogo.
Além disso, muitos dos desastres atribuídos ao clima têm raízes muito mais próximas do solo e da ação humana do que das nuvens e dos oceanos. Enchentes devastam cidades porque rios foram canalizados, várzeas foram ocupadas e sistemas de drenagem foram negligenciados. Secas produzem crises porque recursos hídricos foram mal administrados. Queimadas se tornam incontroláveis porque ecossistemas foram fragilizados por décadas de exploração predatória.
O fenômeno natural funciona como gatilho. A tragédia, muitas vezes, é construída pela ação humana em sua sanha pela exploração insustentável dos recursos naturais.
Existe ainda uma dimensão menos discutida: a econômica. A emergência climática movimenta bilhões. Consultorias, fundos de investimento, mercados de carbono, empresas de tecnologia ambiental, organismos multilaterais e governos operam dentro de um ecossistema que transforma riscos climáticos em oportunidades de negócios. Isso não invalida os problemas ambientais. Mas exige cautela diante da tendência de converter toda ameaça em produto e todo problema em mercado.
O mesmo vale para a política. Crises climáticas podem justificar medidas necessárias de adaptação e prevenção. Mas também podem servir para ampliar controles, concentrar poder e promover agendas que pouco têm a ver com proteção ambiental. Por isso, a vigilância crítica continua sendo indispensável.
O desafio não é escolher entre negacionismo e alarmismo. O negacionismo ignora evidências. O alarmismo transforma incertezas em certezas e riscos em catástrofes inevitáveis. Ambos produzem cegueira.
A postura mais inteligente é reconhecer a realidade do fenômeno sem aceitar passivamente as narrativas construídas em torno dele.
O El Niño merece atenção. Merece monitoramento. Merece preparação. Mas não merece ser transformado em explicação universal para todos os males nem em licença para suspender o pensamento crítico.
Afinal, a história mostra que as grandes tempestades nem sempre vêm do céu. Muitas vezes, elas nascem dos interesses que se organizam em torno delas, e podem ser muito mais devastadores.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




