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Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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Caiado tropeça no primeiro passo

Ao acenar para aqueles que atentaram contra a democracia, Caiado se alinha a um campo que relativiza instituições e normaliza rupturas

Ronaldo Caiado (Foto: Brasil 247)

O discurso inaugural da candidatura de Ronaldo Caiado à Presidência da República poderia, em tese, representar mais uma tentativa de construção de uma chamada “terceira via” no cenário eleitoral brasileiro. No entanto, ao defender publicamente a anistia aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro, Caiado não apenas compromete essa narrativa, como joga uma pá de cal sobre ela. Ao fazê-lo, revela o que de fato se esconde por trás da máscara: uma atuação como linha auxiliar do bolsonarismo.

Não se trata de um deslize retórico, mas de uma escolha política clara. Ao acenar para aqueles que atentaram contra a democracia, Caiado se alinha a um campo que relativiza instituições e normaliza rupturas. É a confirmação de que sua candidatura não nasce como alternativa, mas como extensão de um projeto já conhecido. Nesse sentido, sua fala de estreia como pré-candidato já o posiciona - e o limita.

Curiosamente, essa movimentação acaba dando razão a Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, que foi preterido pelo PSD. Antes mesmo da entrevista de Caiado, o comentário do governador gaúcho já apontava que a decisão do partido inviabilizaria uma candidatura capaz de se posicionar entre os polos já colocados - como se apresentava no anúncio das três pré-candidaturas do PSD: Eduardo Leite, Ratinho e o próprio Caiado. No primeiro teste, a suposta moderação deu lugar à identidade política real, de viés extremista, do candidato escolhido.

Há ainda um componente histórico e pessoal que ajuda a compreender esse comportamento. Caiado parece não ter superado o episódio do debate de 1989, quando foi preterido por Lula, que optou por perguntar a Paulo Maluf por Caiado marcar traço nas pesquisas naquele momento. Soma-se a isso a herança ideológica da UDR, cuja visão de mundo - marcada por um conservadorismo rígido e por tensões com pautas sociais - segue presente em sua trajetória. Essa combinação de ressentimento e identidade política ajuda a explicar a contundência de seu alinhamento com o extremismo e o entreguismo bolsonaristas.

Diante desse cenário, torna-se cada vez mais evidente a possibilidade de que sua candidatura seja desidratada ao longo do debate eleitoral. Em um ambiente polarizado, há pouco espaço para ambiguidades mal resolvidas. O eleitor tende a buscar clareza, coerência e, sobretudo, segurança - e autenticidade.

E é justamente aí que reside o ponto central. A tendência é de que o debate eleitoral permaneça polarizado. E, nesse contexto, a vantagem recai sobre Luiz Inácio Lula da Silva. Isso porque uma parcela significativa do eleitorado, que hoje não se identifica plenamente com nenhum dos polos, busca, acima de tudo, estabilidade institucional, previsibilidade econômica e segurança democrática.

Essa percepção se reforça quando observamos movimentos do outro lado do espectro. A atuação de Flávio Bolsonaro em eventos da extrema-direita mundial, frequentemente marcada por alinhamentos automáticos a interesses políticos e econômicos dos Estados Unidos, evidencia uma postura que gera mais incertezas do que confiança. Em vez de afirmar soberania, tais gestos soam como subordinação e como sinal de um futuro inseguro.

Assim, em vez de romper com a polarização, a candidatura de Caiado tende a reforçá-la. E, ao fazê-lo, contribui para consolidar um cenário em que a escolha do eleitor será cada vez menos sobre alternativas e cada vez mais sobre garantias. No fim das contas, a promessa de segurança - política, institucional e social - deverá pesar mais do que qualquer tentativa tardia de moderação discursiva, favorecendo Lula.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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