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Marcelo M. Nogueira

Ggraduado em Direito e mestre em Políticas Públicas e Formação Humana pela UERJ. Pesquisador em direitos humanos (UFRJ e PUC-RS), foi coordenador executivo da ABJD e atua como colaborador da Comissão de Estudos e Combate ao Lawfare da OAB-RJ)

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Caminhada do Silêncio: memória, necropolítica e a persistência da violência de Estado no Brasil

Entre o passado não resolvido e o presente marcado pela necropolítica, a Caminhada do Silêncio emerge como contranarrativa potente contra a impunidade

Caminhada do Silêncio: memória, necropolítica e a persistência da violência de Estado no Brasil (Foto: Arquivo)

Toda última semana de março, quando se aproxima a data que marca o golpe civil-militar de 1964 — marco inaugural de um dos períodos mais sombrios da história republicana brasileira —, a cidade de São Paulo se transforma em palco de um dos mais densos e simbólicos atos políticos do país: a 6ª edição da Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência de Estado.

Realizada entre o antigo prédio do DOI-CODI, na Rua Tutóia, e o Monumento aos Mortos e Desaparecidos Políticos, no Parque Ibirapuera, a marcha não se limita a uma homenagem ritualística às vítimas da ditadura. Trata-se, antes, de um ato político de enfrentamento à política do esquecimento — uma prática coletiva de memória que se insurge contra o apagamento histórico e denuncia a continuidade das formas de violência de Estado no Brasil contemporâneo.

Em um país cuja transição democrática foi marcada por pactos de silêncio e pela institucionalização da impunidade, a Caminhada do Silêncio emerge como uma poderosa contranarrativa. Ao ocupar as ruas com corpos que se recusam a esquecer, o ato tensiona a narrativa oficial que tentou encerrar o passado autoritário sob o manto da conciliação.

Como nos ensina a filósofa judaico-alemã Hannah Arendt, o esquecimento deliberado não constitui apenas uma falha moral, mas um risco político profundo: ele permite a repetição do mal sob novas formas, frequentemente mais difusas e difíceis de identificar. No Brasil, esse esquecimento foi institucionalizado pela Lei da Anistia de 1979, que, ao equiparar vítimas e perpetradores, bloqueou a responsabilização dos agentes do terror de Estado.

A Caminhada do Silêncio, ao contrário, opera como um dispositivo de memória ativa. Criada pelo Movimento Vozes do Silêncio, ela transforma o espaço urbano em território pedagógico. Iniciar o percurso no antigo DOI-CODI — centro emblemático da repressão, onde a tortura foi sistematicamente empregada como política de Estado — constitui um gesto de reapropriação simbólica.

Ali, onde a violência foi administrada burocraticamente como parte de uma engrenagem estatal, a marcha reinscreve a memória como forma de resistência. O trajeto até o Monumento aos Mortos e Desaparecidos Políticos constrói, assim, uma verdadeira geografia da dor que, ao ser percorrida coletivamente, converte-se em geografia da denúncia.

Essa dimensão espacial da memória dialoga diretamente com as reflexões da socióloga argentina Elizabeth Jelin, para quem os processos de lembrança são sempre disputas políticas sobre o passado e o presente. A memória, longe de ser um campo neutro, configura-se como um território de conflito, no qual diferentes projetos de sociedade se enfrentam. Nesse sentido, a Caminhada do Silêncio não apenas recorda as vítimas da ditadura, mas disputa o significado da própria democracia brasileira.

O silêncio que marca o ato é, talvez, seu elemento mais potente. Em uma sociedade saturada de discursos, na qual a banalização da violência se manifesta na naturalização das mortes cotidianas, o silêncio emerge como linguagem política.

Não se trata de ausência, mas de presença radical. É um silêncio que escuta, que convoca, que interpela. Um silêncio que rompe com o ruído da desinformação e das revisões históricas negacionistas. Como afirma a cientista política argentina Pilar Calveiro, os regimes autoritários não operam apenas por meio da violência física, mas também pela produção de sentidos que legitimam essa violência. Romper com tais sentidos exige, muitas vezes, gestos simbólicos capazes de desestabilizar a normalidade aparente.

No entanto, limitar a Caminhada do Silêncio ao passado significaria reduzir drasticamente seu alcance político. O lema que a acompanha — neste ano, em sua 6ª edição, “Aprender com o passado para construir o futuro”, assim como, em edições anteriores, formulações como “Para que não se esqueça, para que não continue acontecendo” — explicita a amplitude de sua dimensão temporal.

A marcha conecta os desaparecidos políticos da ditadura às vítimas contemporâneas da violência de Estado, especialmente aquelas oriundas das periferias urbanas, majoritariamente negras. É nesse ponto que a reflexão se articula com o conceito de necropolítica, formulado pelo cientista político camaronês Achille Mbembe.

Para Mbembe, o poder soberano contemporâneo se define cada vez mais pela capacidade de decidir quem pode viver e quem deve morrer. No contexto brasileiro, essa gestão diferencial da morte assume contornos profundamente racializados e territorializados.

A violência policial, as chacinas em favelas, o encarceramento em massa e a negligência estatal diante de determinadas populações revelam uma política de morte que não constitui exceção, mas regra. A Caminhada do Silêncio, ao reunir familiares de vítimas dos chamados “Crimes de Maio” e de outras operações policiais letais, evidencia essa continuidade histórica: a ditadura não terminou plenamente; ela se reconfigurou.

Essa leitura se aprofunda quando incorporamos a noção de “vida nua”, elaborada pelo filósofo italiano Giorgio Agamben. Para o autor, determinadas vidas são reduzidas à sua dimensão biológica, desprovidas de valor político, tornando-se matáveis sem que isso configure, necessariamente, um crime reconhecido.

No Brasil, essa condição recai de forma desproporcional sobre corpos negros e periféricos — vidas elimináveis sob a justificativa da segurança pública, sem que o Estado seja efetivamente responsabilizado.

É nesse ponto que a análise deve necessariamente incorporar o racismo estrutural como eixo interpretativo central. Como demonstra a historiadora Ynaê Lopes dos Santos, a formação social brasileira está profundamente marcada pela herança da escravidão e pela construção de hierarquias raciais que persistem até hoje.

O Estado brasileiro, desde sua origem, operou como gestor de desigualdades raciais, definindo quais vidas são protegidas e quais são descartáveis. A ditadura militar, nesse sentido, não inaugurou a violência de Estado, mas a reorganizou no interior de um aparato institucional moderno.

A presença, na Caminhada do Silêncio, de mães e pais que perderam seus filhos em ações policiais contemporâneas revela a dimensão intergeracional dessa violência. Trata-se de sujeitos que, embora não tenham vivido diretamente a repressão dos anos 1960 e 1970, experimentam, em seus corpos e trajetórias, a continuidade de práticas autoritárias.

A marcha, ao articular essas diferentes temporalidades, constrói uma narrativa que rompe com a ideia de ruptura histórica. O passado não passou; ele persiste e se infiltra no presente sob novas formas.

Essa continuidade também pode ser compreendida à luz das reflexões de Pilar Calveiro, que analisa como os dispositivos de repressão se adaptam em contextos democráticos, preservando lógicas de controle e eliminação.

No Brasil, a militarização das polícias, a lógica da guerra às drogas e a naturalização de operações letais em territórios periféricos constituem expressões dessa adaptação. O inimigo interno, antes identificado como subversivo político, hoje assume a figura do “suspeito” — quase sempre jovem, negro e pobre.

O reconhecimento institucional da Caminhada do Silêncio, por meio da Lei Municipal 17.886/2023, que a incluiu no calendário oficial da cidade de São Paulo, representa, sem dúvida, um avanço simbólico relevante. No entanto, como alertam os estudos de memória, a institucionalização, por si só, não garante a efetivação da justiça.

A persistência da impunidade em relação aos crimes da ditadura e a continuidade da violência policial revelam os limites dessa formalização.

A Caminhada, portanto, permanece como um ato de cobrança. Ela interpela o Estado brasileiro em múltiplas dimensões: exige a responsabilização dos agentes do passado, a reinterpretação da Lei da Anistia à luz do direito internacional dos direitos humanos e, sobretudo, a transformação das estruturas que produzem morte no presente.

Nesse sentido, o ato insere-se em uma tradição mais ampla de lutas por memória, verdade e justiça na América Latina, dialogando com experiências como as Madres de Plaza de Mayo, na Argentina.

Há, contudo, um elemento que distingue a Caminhada do Silêncio de outras manifestações: sua aposta radical na pedagogia da presença. Ao caminhar em silêncio, os participantes produzem uma experiência sensível que escapa às formas tradicionais de protesto. Trata-se de um convite à introspecção, à escuta e à responsabilidade coletiva.

Como sugere Hannah Arendt, a política não se reduz à ação visível, mas inclui também a capacidade de julgar, pensar e se posicionar diante do mundo.

Enquanto houver valas comuns não escavadas, arquivos não abertos e corpos não identificados, a memória continuará sendo uma tarefa inacabada. E, enquanto a violência de Estado seguir produzindo mortes nas periferias brasileiras, a democracia permanecerá incompleta.

A Caminhada do Silêncio, nesse contexto, não é apenas um evento anual. É uma prática contínua de resistência, um dispositivo de denúncia e um espaço de elaboração coletiva do trauma.

No fim da tarde do próximo domingo, dia 29 de março, quando centenas de pessoas percorrerem a Rua Tutóia em direção ao Ibirapuera sem emitir uma palavra, o silêncio que ecoará não será vazio.

Ele carregará consigo o peso da história, a dor das perdas e a urgência da transformação. É um silêncio que acusa, que exige e que resiste. Um silêncio que, paradoxalmente, fala mais alto do que qualquer discurso.

Um silêncio que, ao recusar o esquecimento, reafirma o compromisso ético e político com a vida — todas as vidas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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