Caminhos de Gandhi
Guardadas as devidas comparações, caminhar faz bem mesmo para a saúde física e mental e pode levar à experiência da Street Geology ou Geologia de Rua
Depois de passar na biblioteca municipal que frequento, para atualizar minha carteira de usuário, acabei pegando o livro "O Pensamento Vivo de Gandhi" [1] que estava disponível para doação. Parte desse livro narra alguns dos caminhos de Mahatma Gandhi na Índia, sua terra natal, na Inglaterra, onde viajou para estudar Direito e do seu trabalho como advogado na África do Sul.
Um dos trechos interessantes é quando na sua juventude Gandhi conta que havia "(...) lido em certo livro o elogio do passeio a pé e dedicava-se a longas marchas, um hábito no qual sempre se manteve fiel." Sobre esse hábito, adquirido no início dessa sua fase da vida, escreveu que foram as caminhadas "(...) que me deram os benefícios de uma constituição física bastante sólida."
Guardadas as devidas comparações, caminhar faz bem mesmo para a saúde física e mental e pode levar à experiência da Street Geology ou Geologia de Rua que "(...) é uma atividade que se entende que pode ser praticada por qualquer pessoa preocupada com sua cidade. Basta observar e acompanhar, andando pelas ruas e avenidas do seu bairro e arredores, o que acontece, por exemplo, no ambiente urbano, com suas transformações causadas, principalmente, pela ocupação humana." [2]
Assim, nesse cenário do nosso mundo tão perturbado, com alguns gulosos [3] querendo perturbar a vida dos outros, outro dia um amigo de mais de quatro décadas perguntou se eu ainda acreditava em alguma coisa. Respondi para ele que de uns tempos para cá poderia dizer que sou 90% ateu e 10% devoto de Nossa Senhora de Aparecida onde, aliás, fui batizado na antiga basílica e frequentei muito depois com excursões escolares na época dos sete anos como aluno do Colégio Marista Nossa Senhora do Carmo [4], nos anos 60/70 do século passado. Anos mais tarde, com carteira de motorista nas mãos, levei algumas vezes meus pais e tios para visita ao santuário desfrutando, inclusive, de bons piqueniques com pastéis de forno caseiro, de boas recordações.
Admito, porém, que ao longo dessa estrada da vida esse percentual é flutuante e tem variado bastante, mas para complicar mais ainda esse vai e vem, a Organização dos Estados Americanos (ONU) apresenta estudo que afirma que o mundo entrou na era da falência hídrica global. A situação é muito preocupante. Vejamos:
Lagos, rios e aquíferos estão em colapso, colocando em risco a produção mundial de alimentos; especialista afirma que situação pode impulsionar conflitos sociais; em muitas regiões, o que antes eram secas ocasionais transformaram-se em escassez permanente de água. O abastecimento de água no mundo entrou numa era de falência, após décadas de uso excessivo, poluição e perturbações causadas pelas mudanças climáticas.
Esse é o quadro trágico apresentado no relatório "Falência Hídrica Global", lançado nesta terça-feira pelo Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas. Quase metade da produção mundial de alimentos está sob risco. O estudo revela que muitos sistemas hidrológicos importantes ao redor do mundo chegaram num ponto sem volta, em que o volume de água extraída é muito maior que a reposição natural. Cruzar essa linha significa que aquíferos, lagos e zonas úmidas não podem mais ser restaurados. [5]
Nesse contexto, para concluir, pode-se dizer que um dos pensamentos de Gandhi, relatado no citado livro, parece cada dia mais atual: "A não-violência é a mais alta qualidade de oração. A riqueza não pode consegui-la, a cólera foge dela, o orgulho devora-a, a gula e a luxúria ofuscam-na, a mentira esvazia-a, toda a pressão não justificada a compromete." Ou, em outras palavras mais modestas, "A gente sempre está procurando um caminho para melhorar a nossa vida do dia a dia. Uns procuram o conforto nas igrejas, nos templos e nas paisagens desse nosso mal tratado planeta Terra, além de outras possibilidades espirituais." [6]
Fontes
[1] "O Pensamento Vivo de Gandhi". Martin Claret. Martin Claret Editores. 1985. 112 p.
[2] "Street Geology". Artigo de Heraldo Campos de 16/04/2025.
https://cacamedeirosfilho.blogspot.com/2025/04/street-geology.html
[3] "A gula". Artigo de Heraldo Campos de 10/01/2026.
https://cacamedeirosfilho.blogspot.com/2026/01/a-gula.html
[4] "O segredo de Leonardo". Artigo de Heraldo Campos de 19/03/2020.
https://cacamedeirosfilho.blogspot.com/2020/03/o-segredo-de-leonardo-cronica-de.html
[5] "Estudo afirma que o mundo entrou na era da falência hídrica global". Reportagem da Organização dos Estados Americanos (ONU) de 20/01/2026.
https://news.un.org/pt/story/2026/01/1852126
[6] "O caminho do são quiabo com costela". Artigo de Heraldo Campos de 23/11/2021.
https://cacamedeirosfilho.blogspot.com/2021/11/o-caminho-do-sao-quiabo-com-costela.html
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



