Candidatos, não basta esfolar. Tem que matar de fome
“Hoje, para espanto de ninguém, eis que o jornalzinho, que um dia foi ‘ão’, veio a público cobrar que Paulo Guedes não fez todas as maldades que prometeu.”
Houve um tempo em que as pessoas coravam ao serem pegas se confessando “de direita”, ou professando medidas que prejudicassem os mais desfavorecidos. Não era “cristão” tirar de quem não tem. Não era confessável, tomar tais atitudes. E, principalmente, era ideologicamente censurável, que num país ferido por regimes repressivos e violentos, alguém viesse a público dizer que se colocava do lado de quem matou e perseguiu.
Com o advento do governo de Jair Bolsonaro, porém, abriu-se o armário, de onde saíram os que bateram a roupa cara, mas amarfanhada pelos anos de hipocrisia, e entrou em cena a elite pastoril empoderada – desculpem a redundância. Cheia de si e sem a menor cerimônia, eles partiram para a divisão do botim.
Foi como se tirassem nacos do país, antes organizado, já livre de “bocas” como a Codevasf (onde pipocaram denúncias), e outros tantos “points” sabidamente desejados pela direita engordurada, rançosa, como alguns recantos das “agências reguladoras” e mais outros nichos onde bastava maquiar com polpudas emendas e tudo “passava de liso”, sem chamar muita a atenção.
Isso, do ponto de vista da máquina administrativa, porque no que diz respeito ao andar de cima, que o ex-ministro Fernando Haddad costumava chamar de “a cobertura”, essa sempre esteve a salvo, como se fosse um condomínio de luxo, e que o governo, enfim, identificado com a sua coloração ideológica, fosse apenas o síndico do condomínio.
Hoje (27/04/2026), para espanto de ninguém, eis que o jornalzinho, que um dia foi “ão”, veio a público cobrar que Paulo Guedes não fez todas as maldades que prometeu, por pura incompetência, e que, por isso, não merece voltar para ancorar o programa econômico do “Bolsonarinho”. Não passou no teste do “malvado favorito”.
E, ainda, – corram, busquem a caixa de lenços de papel -, os demais candidatos que estão na fila esperando o “Bolsonarinho” se desgastar, tampouco oferecem algo apetitoso, para a gana de suas garras.
“O ex-governador de Goiás investe em temas com suposto apelo eleitoral entre eleitores conservadores, como a aversão ao PT, a promessa de anistia aos condenados pelo 8 de Janeiro, a segurança pública e a crise de credibilidade do Supremo Tribunal Federal, mas parece ainda incapaz de oferecer uma agenda de transformação do Brasil”, choramingaram.
Promete muito, mas não na área que interessa: a econômica, a “fiscal”. E dentro do conceito de “fiscal” cabe um mundo de ambição. Cabem os sonhos de um dia virem os aposentados na sarjeta, lambendo sabão, com os salários desgastados pela desindexação do salário-mínimo. Querem, que além de mínimo, ele seja maximamente emagrecido. Quem sabe assim os idosos parem com essa mania de longevidade e desocupem o beco mais cedo, para o bem da Previdência, que terá menos bocas envelhecidas para sustentar.
Revoltados e sem inibição, sapateiam: “A direita chega à eleição com nomes competitivos e base eleitoral relevante, mas ainda sem responder à questão essencial: como libertar o Brasil do populismo perdulário e do arcaísmo estatal. Ser anti-Lula não constitui, por si só, uma proposta de país”.
E olha que já é bastante. Ser anti-Lula é meio caminho andado para deixar essa mania de ficar falando para pobre, em redução da desigualdade e em programas sociais. “Esse histórico impõe uma exigência adicional às candidaturas atuais. Não basta prometer responsabilidade fiscal. É preciso demonstrar disposição real de implementá-la – e isso começa pela clareza e pela coragem de encampar essa agenda vital para o Brasil”, conclamou o jornal, hoje sem o sufixo “ão”.
Adiante, terceira via! Mãos à obra. Voltem a distribuir cloroquina, quem sabe assim a eliminação de desvalidos ande mais rápido e sobre só a elite a desfrutar, enfim, de suas benesses? Reduzam essa corja de miseráveis, esse peso nas contas, que impede o reajuste fiscal.
O recado está dado: “Outros nomes da direita ensaiam movimentos e ocupam espaço no debate, mas ainda operam sob a mesma limitação. O resultado é um campo que se organiza em torno da rejeição a um governo, mas não em torno de um projeto”.
E, para desespero deles, o programa econômico ideal, que caía como uma luva no gosto dessa gente, vazou para o público cedo demais e precisou ser desmentido às pressas. Fake News, gritou o “Bolsonarinho”, à espera de que as pessoas esqueçam do que viram, pelo menos até o jogo começar. “Brincadeirinha”, faltou dizer.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



