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Emir Sader

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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Carta aos meus amigos e companheiros argentinos e chilenos

'A América Latina já demonstrou ser o epicentro da luta contra o neoliberalismo e contra as ditaduras'

Manifestação em Brasília (Foto: Ricardo Stuckert)

É com o coração pesado que testemunho a situação atual na Argentina e aquela que o Chile poderá enfrentar a partir deste ano. Ambos têm em comum governos de extrema-direita. Um que afirma preferir a máfia ao Estado, o outro que se identifica como neo pinochetista.

É triste, tanto para um país que já teve o governo socialista de Salvador Allende quanto para o outro, que tem o peronismo como herança política.

Compreendo perfeitamente que alguns projetem a situação de seus próprios países como ponto de referência para se tornarem pessimistas em relação ao estado do mundo.

Como brasileiro que ama muito a Argentina e o Chile, quero compartilhar nossa experiência e uma perspectiva mais ampla sobre o mundo neste turbulento século XXI.

O Brasil emergiu de 21 anos de ditadura militar — a mais longa da América Latina — e passou por uma longa e conservadora transição democrática. Não exatamente como o governo chileno, liderado pela aliança entre socialistas e democratas-cristãos, mas comparável em alguns aspectos, já que ambos os países se tornaram mais democráticos, mas não escaparam do neoliberalismo.

Mas o que eu realmente quero dizer é que, após três governos do PT — dois com Lula e um com Dilma — que representaram um progresso democrático significativo e uma superação do neoliberalismo, ocorreu um golpe. Um golpe no qual a mídia e o judiciário desempenharam papéis essenciais, criando um clima favorável ao impeachment de Dilma, no início de seu segundo mandato, supostamente por má gestão de verbas, transferindo recursos orçamentários de um departamento para outro.

Mas, para deixar claro que se tratava de um verdadeiro golpe contra a democracia, os mesmos veículos de comunicação geraram um clima de acusações — todas infundadas — contra Lula, o que levou à sua condenação e prisão.

Lula afirmou que não era alguém que deveria se esconder, então decidiu se entregar à polícia, provar sua inocência e recuperar sua liberdade.

Mas essa manobra jurídica e midiática foi complementada pela eleição de um político medíocre de extrema-direita — Jair Bolsonaro, que defendeu a ditadura militar e até a tortura — como presidente do Brasil! Acabamos com o melhor brasileiro na prisão e o pior como presidente do país!

Realizamos uma vigília cívica com Lula em frente à sede da Polícia Federal, onde ele ficou detido por mais de 500 dias. Sua cela ficava nos fundos do prédio. Então, só podíamos gritar para ele: "Bom dia, Presidente Lula!" "Boa noite, Presidente Lula!" Ele acendia a luz algumas vezes para responder.

Consegui visitá-lo na modesta cela onde estava preso. Ele me disse que estava lendo livros sobre a escravidão no Brasil. Como todos que o visitaram, ele transmitia confiança e esperança.

Até que Lula fosse libertado, após a anulação das acusações perante o Judiciário, o mesmo que aconteceu com Dilma. Lula candidatou-se novamente à presidência do Brasil e, quatro anos após ser libertado da prisão, voltou a ser presidente. Nomeou [nome omitido] como presidente do Banco dos BRICS. Enquanto isso, Bolsonaro está preso por tentativas de golpe contra a democracia.

Em escala global, não estamos mais vivenciando o auge da hegemonia americana. Pelo contrário, os Estados Unidos entraram em declínio, ou mesmo em decadência histórica, neste século, enquanto os BRICS se tornam cada vez mais poderosos.

Cada caso é único, eu sei. Mas sempre podemos aprender uns com os outros. Retrocessos são sempre possíveis; a democracia não é um regime permanente. Como nenhum regime. Tudo é reversível.

Mas a América Latina, neste século, é propícia à democracia e ao antineoliberalismo. Brasil e México, duas das três maiores economias, estão indo muito bem, enquanto a Argentina está indo muito mal, tanto econômica quanto socialmente. Nenhum país que adotou programas neoliberais está indo bem. A falta de democracia na Argentina, no Equador, entre outros, deixa seus povos infelizes. O Chile passou por períodos de alternância política, o que não precisa se repetir. O governo anterior também não trouxe melhorias substanciais para a população. Quando conseguirem superar o governo que começa este ano — e conseguirão, como o Chile já superou outras situações difíceis —, também deverão aprender com os erros deste governo. Talvez então consigam finalmente superar esses períodos de alternância política e ter governos solidamente democráticos e antineoliberais. Por que não?

A Argentina sofrerá mais dois anos com este governo. Mas a perspectiva da candidatura de Axel Kicillof surge no horizonte, e se ele superar as divisões históricas dentro do peronismo, poderá muito bem derrotar Milei e trazer a Argentina de volta a um governo democrático focado no desenvolvimento econômico e social.

Nada é fácil; não quero apresentar uma visão simplista demais. Mas a história não avança... Sempre caminhando na mesma direção, a história não tem fim. E a América Latina já demonstrou ser o epicentro da luta contra o neoliberalismo e contra as ditaduras.

Vamos lá, queridos amigos e camaradas, estamos juntos e sempre estaremos, nos bons e nos maus momentos. Por que não?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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