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Ataque cibernético dos EUA desativou radares venezuelanos, diz analista

Héctor Saint-Pierre aponta a probabilidade do vazamento de informações à inteligência dos EUA, mas também cita outros fatores para a eficiência do ataque

Héctor Saint-Pierre (Foto: Reprodução (YT/FGV))

Tatiana Carlotti, Opera Mundi - No último sábado (03/01), quando os Estados Unidos atacaram a Venezuela, bombardeando seu sistema de defesa aéreo, um forte ataque cibernético havia anulado as comunicações e, com isso, a cadeia do comando militar. “Foi uma operação militar muito bem montada”, avalia o professor Héctor Saint-Pierre, especialista em Segurança Internacional e Resolução de Conflitos.

Em entrevista a Opera Mundi, o professor de Relações Internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp), detalha o ataque dos Estados Unidos sobre Caracas, preparado “com muita antecedência”. Ele aponta a probabilidade do vazamento de informações à inteligência norte-americana, mas pondera que o sucesso da missão, “cirúrgica e bastante eficiente” não dependeu disso.

Saint-Pierre também coloca em questão a ausência de baixas nas forças norte-americanos durante o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, que levou à morte de 32 combatentes cubanos. “A imprensa e os Estados Unidos de Trump não vão dizer que houve mortes”, aponta.

Vice coordenador executivo do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais, ele também analisa o impacto do ataque para os países da América Latina e para o mundo, apontando que estamos diante de uma nova ordem mundial, não mais regida por leis, mas por regras estabelecidas pelas potências mundiais em seus territórios de influência.

Leia a entrevista completa:

Opera Mundi: Como o senhor explica o que aconteceu no dia 3 de janeiro na Venezuela?

Héctor Saint-Pierre: O que vimos em 3 de janeiro foi uma operação militar muito bem montada e preparada com bastante antecedência, naqueles 45 dias que antecederam os ataques, com o envio da Marinha norte-americana para o Caribe e de um serviço de inteligência interno muito importante.

A inteligência norte-americana tinha um levantamento preciso sobre a localização de Nicolás Maduro, dos seus movimentos, guardas, aposentos, quartéis. Particularmente, os locais de gravidade do Exército venezuelano, os fortes que seriam bombardeados, a localização da defesa aérea e, particularmente, dos S-300 soviéticos. Também se levou muito em conta os radares chineses.

O que aconteceu no último sábado foi precedido por um ataque cibernético que deixou todos os radares cegos. Ou seja, houve um corte de energia elétrica em diferentes partes da Venezuela, particularmente de Caracas, inviabilizando o funcionamento dos equipamentos. Então, começaram os bombardeios, com muita precisão, de vários aviões de diferentes tipos. Um ataque preciso contra os lançadores de mísseis da defesa aérea venezuelana que, simplesmente, foi anulada.

Em paralelo, os serviços especiais dos Estados Unidos – aparentemente o grupo Delta e outro de operações especiais – sequestraram o presidente venezuelano Nicolás Maduro. Eles tinham informações de inteligência a tal ponto que cortaram o caminho de um bunker por onde Maduro poderia fugir. Eles já sabiam do bunker.

Na residência onde encontraram o presidente venezuelano, houve o combate mais violento. Em outros locais de bombardeios, dois contra a defesa antiaérea, também deve ter havido mortes, mas ali houve um combate claro na defesa pessoal de Maduro, realizada pelos cubanos. Cuba anunciou que 32 soldados foram mortos e, diante desses números, é improvável que os Estados Unidos tenham saído ilesos, como disse Donald Trump.

Tudo indica que algum norte-americano tenha morrido, mas é claro que nem a imprensa, nem os Estados Unidos de Trump, vão dizer que houve mortos. Eles afirmam que não houve, como se pudessem atacar sem sofrer nenhuma perda. Não tenho dados concretos, mas é muito estranho que 32 cubanos tenham sido mortos e nenhum norte-americano atingido.

Alguns afirmam que pessoas do círculo operacional passaram informação à inteligência norte-americana.

Mesmo que tenha sido um ataque surpresa para a defesa cubana, certamente alguma informação foi passada à inteligência dos Estados Unidos e utilizada pela Operação Especial. Acredito que ainda haverá questões internas dentro das Forças Armadas da Venezuela, porque houve algum vazamento. Agora, somente isso não justifica o sucesso da missão norte-americana. Foi uma operação militar, muito bem treinada e preparada que, provavelmente, contou com apoio interno. É preciso descobrir quem vazou informações que nunca deveriam ter sido vazadas.

Ao mesmo tempo, a defesa aérea venezuelana falhou e foi um erro não prever um ataque cibernético capaz de danificar os radares chineses. Além disso, Maduro manteve uma certa rotina, talvez imaginando a possibilidade de negociação, que pode ter contribuído para o seu descuido, deve ter pensado “eles não vão atacar no momento da negociação”, ou algo do tipo.

Então, continuou com suas atividades rotineiras, o que é um pecado mortal, em termos de segurança. Você tem que mudar os hábitos permanentemente, os horários, a mudança da guarda. Isso tudo tem que ser muito bem calculado.

O que viemos foi um ataque cirúrgico, em uma operação muito bem traçada e capaz de anular a resposta venezuelana pelo ataque cibernético, seguido por bombardeios de precisão. Eles conseguiram filmar por celular os helicópteros sobrevoando a residência presidencial. As aeronaves poderiam ter sido atingidas com um míssil daqueles que um soldado consegue carregar para abater um helicóptero desses, se houvesse alguma ordem.

No entanto, eles bombardearam o centro de comando, o que pode ter desestabilizado sua estrutura e, por isso, não foram dadas as ordens que precisariam ser dadas. O ataque cibernético levou ao bombardeio do centro de comunicações, as ordens são transmitidas através desse sistema. Isso anulou a cadeia de comando. Eles deveriam ter previsto uma alternativa a esses canais de comunicação.

Como avalia o impacto dessa agressão no continente e no mundo?

O que Trump pode conseguir após o ataque, ele poderia ter obtido com negociações. Não havia nenhuma intenção de negociar por parte dos Estados Unidos, mas sim de realizar o ataque, demonstrando a capacidade de movimentação e o poder de ação sobre o continente americano. Pode haver uma implicação interna de fazer uma demonstração ‘positiva’ dentro dos Estados Unidos, afirmando ter capturado um narcotraficante, conforme as acusações que faz contra Maduro, mesmo não existindo nenhuma menção à Venezuela e ao seu presidente nos relatórios da Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA).

O ataque tem uma mensagem para os países da América Latina. Os Estados Unidos mostram que não há nenhum exército latino-americano que possa se opor à “vontade da grande potência”, ou seja, às operações especiais, ataques pontuais e cirúrgicos como este. Na América do Sul, Chile, Argentina, Bolívia, Equador, Peru estão todos alinhados aos Estados Unidos. Trump está agora ameaçando a Colômbia. “Por que não a Colômbia? Por que não o México?”, questiona.

O ataque também tem um significado global. Ele evidencia que a realidade que estamos vivendo foi mudada. Nós abandonamos a ordem regida por leis constituída desde o final da Guerra Fria, que alguns chamaram de multipolaridade. Hoje impera o mundo das grandes potências com suas áreas de interesse. As grandes potências agora passam a definir o que pode ser feito e o que não pode. Agora, as regras, não mais as leis, são aquelas aplicadas por esses países em suas esferas de influência. Este é o mundo que está se delineando, pelo menos é o que visualizamos a partir deste ataque.

Quais as implicações disso?

Dentro dessa perspectiva, por exemplo, não haveria muita moral por parte da comunidade internacional se a China invadisse Taiwan, até porque a ONU e a maioria dos países reconhecem uma única China. Também haveria carta branca para [Vladimir] Putin em relação à Ucrânia.

Isso tem implicações em algumas partes da Ásia e outras da África, que estão ainda em jogo nesta divisão do mundo. Na África, certamente veremos confrontos importantes na definição dos interesses dessas áreas que estão se configurando. O Oriente Médio é outro lugar que está em disputa e assim continuará nos próximos anos.

A posição da Índia tem sido pendular e condicionada aos Estados Unidos, China e Rússia, mas com capacidade de se transformar em uma potência, que não tem muito como reinar, por estar rodeada por outras.

De forma geral, o ataque deixou a olhos nus que vivemos uma ordem que tem um império regional que vai tentar impor suas regras para todos os demais. Um mundo de interesses das grandes potências. São esferas que estão se configurando e que exigem análises diferentes das que fazíamos até agora.

Nessa ordem sem leis, com regras regionais, como fica a soberania dos países no continente?

O poder de uma potência é formado por vários elementos e variáveis como a capacidade diplomática, a capacidade econômica, o desenvolvimento científico e tecnológico, mas assim como a diplomacia, a força é essencial para o desempenho de um país internacionalmente. Neste momento, os Estados Unidos se mostram como uma potência claramente imperial. Eles consideram que o continente é seu e os recursos dos países dos norte-americanos. A maioria dos países está aliada dos Estados Unidos e de acordo com uma submissão nacional aos desígnios norte-americanos. Argentina, Chile, Equador, Bolívia, Peru, todos fazem parte, digamos, de uma direita ou extrema direita continental alinhadas com Washington, inclusive vários países na América Central estão com governos de extrema direita.Há outros países como o Brasil, que faz questão da soberania. Lula agora, nas eleições deste ano, certamente vai reforçar esse conceito. Agora, ninguém quer passar pelo teste da soberania de dizer até que ponto se pode defender os interesses nacionais frente a uma hiperpotência.

Sobretudo em relação aos militares latino-americanos que, em geral, gozam de bastante autonomia em relação aos seus governos e Estados. No Brasil isso é paradigmático. Há uma autonomia absoluta dos militares para resolver as questões internas, inclusive o alinhamento estratégico das Forças Armadas Brasileiras que não decorre das decisões nacionais, do Congresso ou do governo. São decisões internas da caserna.

Isso já limita em grande parte a liberdade de ação política do presidente Lula. Até que ponto Lula poderia confiar em seus militares para defender sua posição, se ele se opuser aos interesses norte-americanos? Isso seria uma prova de fogo à soberania nacional. Uma forma de não se opor aos interesses é defender retoricamente a questão da soberania, mas dizer que pelos interesses nacionais é melhor acomodar-se aos interesses norte-americanos, em última instância.

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