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Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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Cassinos no bolso, tragédia em casa: por que o Brasil precisa acabar com as bets agora

Não basta regular de forma tímida ou apostar em campanhas educativas que competem com uma máquina bilionária de publicidade. É preciso ir à raiz do problema

Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Entre os muitos pontos abordados pelo presidente Lula em sua entrevista nesta semana, um em especial deveria ter dominado o debate público: a defesa que ele fez do fim das casas de apostas on-line, as chamadas “bets”. Em meio a temas diversos, essa posição se destaca não apenas pela coragem política, mas também pela urgência social que carrega - ainda que tenha sido, curiosamente, tratada como nota de rodapé por grande parte da mídia corporativa.

E não surpreende. Com raríssimas exceções, os grandes veículos de comunicação têm hoje, nas empresas de apostas, uma de suas principais fontes de receita publicitária. São bilhões de reais irrigando emissoras, portais e eventos esportivos, criando um ambiente onde o silêncio ou a minimização crítica se tornam quase regra. O conflito de interesses é evidente: como dar o devido destaque a uma pauta que ameaça diretamente uma fonte tão robusta de financiamento?

Enquanto isso, dentro das casas brasileiras, os efeitos dessa explosão das apostas online são devastadores. O que antes era restrito a ambientes físicos, hoje está a um clique de distância - no celular, no computador, na televisão. Ao alcance dos dedos de todas as idades. São verdadeiros cassinos digitais operando 24 horas por dia, capturando especialmente os mais vulneráveis: trabalhadores de baixa renda, jovens, desempregados, pessoas endividadas. A promessa de ganho fácil, amplificada por publicidade agressiva e mensagens frequentes de influenciadores digitais, mascara uma realidade cruel: a esmagadora maioria perde.

As consequências vão muito além do indivíduo. Famílias inteiras têm sua estabilidade comprometida. Contas deixam de ser pagas, dívidas se acumulam, relações se deterioram. Até o consumo de bens de primeira necessidade nos supermercados tem seu tamanho reduzido. O vício em apostas, já reconhecido como um problema de saúde pública em diversos países, cresce silenciosa e rapidamente no Brasil. E junto com ele, cresce também o impacto negativo na economia familiar e, por extensão, na economia nacional. Dinheiro que poderia estar sendo investido no comércio local, na alimentação, na educação, escoa para plataformas muitas vezes sediadas no exterior, sem retorno social equivalente.

Diante desse cenário, a fala de Lula não é apenas pertinente - é necessária. Colocar em debate o fim das bets é enfrentar um problema estrutural que está corroendo o tecido social brasileiro. Trata-se de uma escolha política que contrapõe o interesse público ao lucro privado de poucos.

É hora de encarar essa discussão com a seriedade que ela exige. Não basta regular de forma tímida ou apostar em campanhas educativas que competem com uma máquina bilionária de publicidade. É preciso ir à raiz do problema. O começo poderia ser o de proibir a publicidade dessas empresas, como acontece com cigarros. Mas isso é pouco. Se os danos são amplos, contínuos e comprovados, a conclusão se impõe: é preciso acabar com todas elas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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