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Emir Sader

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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Chile: a história de uma colaboradora

Relato expõe os limites da resistência sob tortura e os dilemas humanos diante da violência das ditaduras latino-americanas

Augusto Pinochet (Foto: Reuters)

Carmen Castillo foi mulher de Miguel Enríquez, o principal dirigente do MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionaria) do Chile. Ele foi morto pela DINA – o brutal órgão da repressão da ditadura do Pinochet. Ela sobreviveu, ferida, grávida de um filho de Miguel que acabou perdendo.

Ela, que vive agora em Paris, produziu um filme impressionante. Centrado em uma militante do MIR que, torturada por vários dias pela DINA, passou a colaborar com a DINA e entregou vários militantes do MIR, chamada de Flaca Alejandra, que chegou a ser condenada à morte pelas informações que entregou à DINA, que levaram à prisão e à morte de vários militantes do MIR.

Carmen Castillo produziu um filme impressionante, em que a Flaca Alejandra conta toda a sua história: de uma militante super dedicada, que entregava todo o seu tempo, a sua energia e o seu pensamento à militância política, os dias em que foi presa e torturada, como não resistiu e aceitou a proposta da DINA de poupar sua vida – que ela chama não de vida, mas de sobrevivência – em troca da colaboração com a DINA.

Ela, que agora busca reconstruir sua vida, conta como se deu toda aquela experiência brutal, circulando por Santiago, mostrando os lugares em que entregou os militantes do MIR que ela reconheceu nas ruas da cidade.

O filme precisa ser visto por todos que possam ter acesso a ele. Mostra os processos que se deram também em outros países, no Brasil, na Argentina, além do Chile.

Para entender como se deram aqueles processos monstruosos de prisão, tortura e conversão de alguns poucos em colaboradores das ditaduras, quando não suportam mais as torturas. Os mecanismos brutais de repressão, de tortura, de cooptação. E o medo dos militantes, não tanto de serem presos, mas de serem submetidos às torturas e à incerteza se resistiriam ou não.

A Flaca Alejandra é uma personagem que viveu todo o ciclo, desde a dura militância no MIR, sectária, como ela se autodefine, que abandonava tudo para entregar-se à militância 24 horas. Até ser presa, torturada por vários dias e se converter em colaboradora da ditadura do Pinochet, entregando seus próprios ex-companheiros de militância.

Ver todo esse processo contado por ela mesma é impressionante, especialmente do ponto de vista de quem se arrependeu. Ver tudo o que vivíamos deste lado, contado por quem viveu do outro. Vê-la tentando reconstruir sua vida, aquela que tinha vivido tudo aquilo, que volta ao Chile em que o presidente eleito se considera neopinochetista!

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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