Sergio Ferrari avatar

Sergio Ferrari

Jornalista latino-americano radicado na Suíça. Autor e coautor de vários livros, entre eles: Semeando utopia; A aventura internacionalista; Nem loucos, nem mortos; esquecimentos e memórias dos ex-presos políticos de Coronda, Argentina; Leonardo Boff, advogado dos pobres etc.

73 artigos

HOME > blog

Cifras milionárias são investidas em combustíveis fósseis

A vida diária de milhões de pessoas é cada vez mais afetada pelo aquecimento global

Capa do informe recentemente publicado sobre mudanças climáticas (Foto: Divulgação )
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

Desde as altas temperaturas em muitos dos estádios onde a Copa do Mundo está sendo disputada até o calor opressor que atinge grande parte da Europa nesta segunda metade de junho, a vida diária de milhões de pessoas é cada vez mais afetada pelo aquecimento global. O principal culpado é o uso excessivo de combustíveis fósseis.

Uma em cada quatro partidas da Copa do Mundo de 2026 é disputada sob níveis perigosos de calor, forçando os jogadores a correrem menos e a se esforçarem menos. De acordo com os critérios definidos pela FIFPRO, a associação mundial de jogadores e principal contraparte sindical da FIFA, várias dessas partidas poderiam ser disputadas quando o termômetro marcasse até 28 graus Celsius do IBUTG (Índice de Bulbo Úmido Termômetro de Globo / WetBulb Globe Temperature, WBGT, sigla em inglês), o índice que os especialistas usam para, a partir daí, recomendar seu adiamento. Essa é uma medida diferente da temperatura habitual do ar, pois combina calor, umidade, radiação solar e vento para calcular o estresse térmico real no corpo humano. Por exemplo, uma temperatura do ar de 40 graus com 30% de umidade equivale a cerca de 26 graus de IBUTG/WBGT, quando o desempenho físico sofre muito mais do que o recomendado (https://www.fifpro.org/es/articulos/2023/08/once-consejos-para-abordar-condiciones-de-calor-en-el-futbol-profesional).

Embora o telhado e o ar-condicionado do estádio de Dallas tenham permitido que a partida de segunda-feira, 22 de junho, entre Argentina e Áustria, fosse disputada em condições relativamente "aceitáveis", naquele mesmo momento a temperatura ambiente oscilava em torno de 37 graus. Às vezes, o ritmo daquela partida, tão forte quanto intenso, parecia ser jogado como se fosse em câmera lenta, e a temperatura teve grande parte da culpa.

Naquele mesmo dia e hora, várias regiões da Espanha, França, Portugal e Reino Unido registraram temperaturas máximas recordes de cerca de 40 graus, enquanto em outros países relativamente mais frios, como a Suíça, os termômetros ultrapassaram 36 graus. São os efeitos brutais da onda de calor que atinge grande parte da Europa Ocidental.

De acordo com um estudo recente das Nações Unidas, em um futuro próximo, a previsão de temperatura para o futebol pode ser ainda mais preocupante. Para a Copa do Mundo de 2050, por exemplo, embora o local ainda não tenha sido designado, hipoteticamente, se prevê que 14 dos 16 estádios anfitriões sofrerão com o calor extremo. Em 11 desses locais, as temperaturas poderão até impedir a realização de jogos. Em outras palavras, o calor pode conspirar contra a saúde de atletas e de espectadores, a menos que grandes mudanças sejam feitas na infraestrutura e na programação.

Além disso, estádios locais, onde milhares praticam esportes, com menos recursos financeiros para a proteção solar e para a gestão da drenagem, da água e da refrigeração, estariam muito mais expostos. Nesta Copa do Mundo, apenas 3 dos 16 estádios possuem ar-condicionado (https://news.un.org/es/story/2026/06/1541552).

Penalt contra o clima

De modo geral, é o uso excessivo e descontrolado de combustíveis fósseis, como carvão, petróleo e gás, que contribui para o aquecimento global ao capturar e reter excessivamente a temperatura do sol. As emissões geradas por esses combustíveis representam mais de 75% dos gases de efeito estufa e quase 90% dos gases produzidos pelo dióxido de carbono.

Segundo afirmações de especialistas e organizações internacionais, não é novidade que o planeta está se aquecendo mais rápido do que em qualquer outro momento da história, pelo menos desde que os registros começaram a ser feitos. Inevitavelmente, temperaturas excessivas modificam os padrões climáticos e perturbam o equilíbrio normal da natureza. Isso acarreta muitos riscos não só para os seres humanos, mas também para todas as outras formas de vida. E, ainda assim, há aqueles que tentam negar tudo isso desde que possam obter ou manter benefícios (https://www.un.org/es/climatechange/science/causes-effects-climate-change).

Gols contra a Terra

Quem lucra com o mercado de combustíveis que produz o ameaçador aquecimento global? De acordo com o relatório Como investir no caos climático, que a Organização Não Governamental ambientalista alemã Urgewald acaba de publicar, aproximadamente 8.400 investidores institucionais globais, atualmente, possuem uma soma estratosférica de 6,5 bilhões de dólares em ações e títulos da indústria e do comércio de combustíveis fósseis. São bancos e companhias de seguro, administradores de pensões para aposentados em países "ricos" e gestores de ativos de terceiros (https://investinginclimatechaos.org/data).

O estudo que Urgewald realizou junto com outras 25 ONGs conta, por exemplo, com o apoio da Aliança Suíça pelo Clima, uma entidade que faz parte da Aliança Europeia pelo Clima, uma plataforma com mais de 2 mil membros institucionais (principalmente cidades e municípios) de 25 países.

Mais de 95% desses investimentos são direcionados a empresas que expandem suas atividades com perspectivas de médio e longo prazo, como o desenvolvimento de novos campos de petróleo e gás ou a construção de nova infraestrutura, como gasodutos, terminais de gás natural liquefeito e usinas de carvão e gás.

Resultado da análise pública mais abrangente até hoje sobre investimentos institucionais no setor, o relatório Como investir em caos climático alerta que, "embora todos sejamos afetados, a maioria desconhece [o fato de que] os bancos comerciais e os investidores que financiam empresas de combustíveis fósseis operam em grande parte sem transparência ou responsabilidade democrática". Além disso, mesmo nos casos em que "existem dados, as conexões entre os investidores e os projetos de combustíveis fósseis são deliberadamente complexas". (https://investinginclimatechaos.org/).

Mecanismos do desastre coletivo

Como qualquer outro tipo de corporação, as do setor de combustíveis fósseis são financiadas principalmente por meio da emissão de ações e títulos.

Quando um investidor adquire ações, ou seja, participação no capital da empresa, ele se torna coproprietário da empresa, com direitos tais como o voto em assembleias gerais e se beneficia quando essas ações aumentam seu preço no mercado.

Os títulos, por outro lado, funcionam como empréstimos que um investidor concede a uma empresa. Ao contrário das ações, os títulos não implicam propriedade direta da empresa. Quando uma empresa emite um título, o que ela faz é pedir empréstimo em troca de juros que, periodicamente, serão liquidados, comprometendo-se a pagar o valor total do empréstimo até uma data determinada ou no vencimento. A emissão de títulos é uma das principais formas pelas quais uma corporação, nesse caso, do setor de combustíveis fósseis, financia grandes projetos, desde novos campos de petróleo e de gás até a expansão de minas de carvão.

Um grande problema com os investimentos institucionais em combustíveis fósseis é que eles ignoram as consequências dramáticas do aquecimento global agravado por essas transações. A maior motivação, talvez a única, desses investidores é enriquecer ainda mais, sem que, de forma alguma, se direcionem para fontes alternativas de energia com baixo impacto no efeito estufa. Prova disso é a imensa quantidade de investimentos em títulos que só "vencem" depois de 2050: aproximadamente 64 bilhões de dólares. Ou seja, operações a largo prazo, algo como um truque financeiro contra o clima, como demonstrado pelo relatório Urgewald, já que nenhum investidor pensaria em abrir mão do capital investido nesses títulos.

Mais de 240 investidores possuem títulos de combustíveis fósseis com vencimentos que se estendem até 2080, e até mais, como os da empresa estatal brasileira de petróleo Petrobras, que vencem apenas em 2115. E com o fator agravante de que a Petrobras planeja expandir sua produção de petróleo além de 2050, às custas dos ecossistemas e comunidades mais vulneráveis de seu país. No ano passado, começou a perfurar na costa amazônica e, recentemente, anunciou a retomada de suas atividades de perfuração na floresta amazônica. Entre os detentores de seus títulos de longo prazo incluem-se Franklin Resources (Estados Unidos), Manulife Financial (Canadá), Royal London Group (Reino Unido), BlackRock (Estados Unidos), OTP Bank Group (Hungria) e UBS (Suíça).

Como aponta Urgewald, outro grande problema desses investimentos está relacionado à forma como o tráfico de títulos institucionais de mercados primários para secundários é usado de forma astuta para justificar a irresponsabilidade ética. Quando uma corporação emite ações ou títulos pela primeira vez, os investidores que os adquirem constituem o que é conhecido como mercado primário. Mas, esses investidores originais podem vendê-los para outros investidores, que na verdade não contribuem com capital para a corporação emissora. Esses investidores constituem o que é conhecido como mercado secundário. Quando surgem questões sobre o impacto nocivo que os combustíveis fósseis têm no clima, há muitos argumentos para evitar ou diluir responsabilidades. Por exemplo, que os investidores do mercado secundário não financiam essas grandes corporações, pois não investiram diretamente nelas. Os mercados secundários desempenham um papel significativo de cumplicidade no desgaste da saúde presente e futura da Terra ao negociar os títulos dos investidores originais. Além disso, em muitos casos eles dão credibilidade a esse tipo de operação.O planeta está em chamas, e um grupo gigantesco de capitais financeiros continua lucrando com suas cinzas. Uma visão de curto prazo e, muitas vezes, negacionista, para a qual não existem estádios esportivos ferventes nem populações inteiras que transpiram até se esgotar. Enquanto isso, esses capitais – apoiados por muitos governos – continuam jogando e ganhando graças a um incêndio que ninguém parece conseguir apagar.

Tradução: Rose Lima.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados