Trump libera US$ 700 milhões para usinas a carvão, altamente poluentes
Pacote de Trump prevê novas usinas a carvão, modernização de termelétricas antigas e uso de verba federal para ampliar o setor
247 - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou um pacote de US$ 700 milhões, equivalente a R$ 3,54 bilhões, para fortalecer a indústria do carvão no país, em uma iniciativa que prevê a recuperação de usinas antigas e o apoio à construção das primeiras novas termelétricas a carvão em mais de dez anos. O pacote de Trump prevê novas usinas a carvão, modernização de termelétricas antigas e uso de verba federal para ampliar o setor, informa o The New York Times.
A medida anunciada por Trump na quinta-feira (4) é mais uma ação de sua administração em favor do carvão, combustível fóssil altamente poluente e historicamente defendido pelo presidente. Nos últimos meses, o Departamento de Energia determinou que unidades de cinco usinas antigas a carvão permanecessem em funcionamento, mesmo com planos prévios de desativação. Trump também orientou o Departamento de Defesa a ampliar a compra de eletricidade gerada por carvão para abastecer instalações militares em diferentes regiões dos Estados Unidos.
No Salão Oval, ao lado de governadores republicanos e integrantes do primeiro escalão do governo, Trump afirmou que a iniciativa ajudaria a reduzir os custos de energia para consumidores norte-americanos. Especialistas, porém, avaliam que usinas a carvão tendem a ser mais caras para construir e operar do que unidades movidas a gás natural e fontes renováveis.
“Hoje estamos tomando uma ação histórica para reduzir o preço da energia e o custo de vida de todos os americanos com o poder do carvão limpo e bonito”, disse Trump.
Do total anunciado, US$ 425 milhões, cerca de R$ 2,15 bilhões, serão destinados à modernização e à ampliação da vida útil de 12 usinas a carvão que poderiam ser fechadas nos próximos anos. Para viabilizar a liberação dos recursos, Trump acionou a Lei de Produção de Defesa, criada no contexto da Guerra da Coreia e que concede ao presidente poderes para fortalecer setores considerados estratégicos para a segurança nacional.
O Departamento de Energia também informou que pretende investir até US$ 350 milhões, aproximadamente R$ 1,77 bilhão, em projetos ligados ao carvão. Parte dos recursos deve financiar duas empresas interessadas em construir novas usinas a carvão, uma no Alasca e outra na Virgínia Ocidental. Caso sejam concretizados, os projetos seriam os primeiros do tipo em escala comercial nos Estados Unidos desde 2013.
Outra parcela do dinheiro poderá ser usada por uma empresa de energia que pretende reativar uma usina a carvão desativada em Maryland. Os recursos para as novas termelétricas viriam de verbas originalmente aprovadas pelo Congresso para reduzir emissões de dióxido de carbono em setores industriais poluentes.
No Alasca, o projeto conhecido como Terra Energy Center seria construído no Vale Matanuska-Susitna, ao norte de Anchorage, região conhecida por geleiras e pela pesca de salmão. Os desenvolvedores afirmam que a usina poderia fornecer energia para minas de ouro já existentes ou para novos data centers, em uma área que enfrenta limitações no fornecimento de gás natural da Enseada de Cook.
A Terra Energy Center, afiliada da canadense Flatlands Energy, divulgou poucas informações públicas sobre o empreendimento e aparentemente não mantém um site próprio. Também há poucos detalhes disponíveis sobre o projeto previsto para a Virgínia Ocidental, que seria conduzido pela empresa TerraPurus. Representantes das companhias não foram localizados para comentar o caso.
Analistas do setor afirmam que os projetos podem enfrentar incertezas caso uma futura administração adote uma política mais restritiva em relação ao carvão.
“O presidente Trump tem sido muito pró-carvão”, afirmou Andy Blumenfeld, analista da consultoria McCloskey by OPIS. “Agora, o que acontece quando a próxima administração assumir? Eles vão colocar um fim nisso? Acho que esse é um risco enorme”, declarou.
Na tarde de quinta-feira, o Departamento de Energia também informou que usaria poderes emergenciais para impedir o fechamento de uma usina a carvão na Flórida, cuja desativação estava prevista para junho.
Os Estados Unidos não constroem uma nova usina a carvão em escala comercial desde 2013. Muitas das unidades ainda em operação têm mais de 40 anos. Desde 2010, 330 usinas a carvão foram desativadas no país, e outras 60 já anunciaram planos de fechamento até 2031, segundo o grupo ambientalista Beyond Coal, do Sierra Club.
“Não há renascimento do carvão acontecendo nos Estados Unidos”, disse Holly Bender, diretora de programas do Sierra Club.
A participação do carvão na geração de eletricidade nos Estados Unidos caiu de mais da metade em 1990 para cerca de 17% no ano passado. O emprego na mineração também recuou nas últimas décadas. Atualmente, aproximadamente 40 mil pessoas trabalham na indústria, contra cerca de 173 mil em 1985, embora o nível de ocupação no setor tenha se estabilizado desde 2020.
Especialistas afirmam que a expressão “carvão limpo” é enganosa, já que usinas a carvão produzem mais poluentes atmosféricos nocivos e mais emissões de dióxido de carbono associadas ao aquecimento global do que usinas a gás, painéis solares e turbinas eólicas. A queima de carvão também libera mercúrio e outros metais pesados relacionados a problemas de saúde.
Apesar das dificuldades econômicas do setor, defensores do carvão veem possibilidade de expansão caso a demanda por eletricidade dos data centers continue crescendo e a Agência de Proteção Ambiental mantenha a flexibilização de regras ambientais que elevaram os custos de operação das usinas.
No ano passado, após o retorno de Trump à Casa Branca, a geração elétrica a partir do carvão cresceu 13%, o que contribuiu para o aumento das emissões de gases causadores do aquecimento global nos Estados Unidos.
“As pessoas sempre me perguntam, sabe, você acha que realmente veremos uma nova usina a carvão ser construída?”, disse Michelle Bloodworth, presidente da America’s Power, entidade comercial da indústria carvoeira. “Mas estou otimista. Os Estados Unidos têm uma reserva de carvão para 400 anos, tornando-o um dos recursos mais importantes para a segurança energética doméstica.”
Os recursos para a construção de novas usinas vêm de fundos aprovados originalmente para tecnologias de captura de carbono, voltadas a retirar dióxido de carbono das chaminés de instalações poluentes e armazená-lo em formações subterrâneas profundas. No ano passado, o Departamento de Energia informou às empresas que o dinheiro poderia ser utilizado inicialmente em “melhorias de confiabilidade”, com a instalação de captura de carbono em etapa posterior.
Especialistas e parlamentares democratas afirmam que essa mudança abre uma brecha que enfraquece o objetivo original do programa de captura de carbono, criado pela lei bipartidária de infraestrutura de 2021.
“Basicamente não há salvaguardas ou restrições sobre quando a captura de carbono deve ser implementada”, afirmou Danielle Lemmon, ex-funcionária do Departamento de Energia durante o governo Biden.



