HOME > Mundo

Japão prepara reconstrução de até 19 usinas nucleares em guinada energética

Plano do governo japonês prevê substituição de reatores até os anos 2050 para ampliar segurança energética

Japão prepara reconstrução de até 19 usinas nucleares em guinada energética (Foto: Brasil 247 / Dall-E)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

247 – O Japão planeja reconstruir até 19 usinas nucleares nas próximas décadas, em uma mudança estratégica que marca o retorno gradual da energia atômica ao centro da política energética do país. A iniciativa busca garantir fornecimento estável de eletricidade, reduzir a dependência de combustíveis importados e responder ao aumento esperado do consumo, impulsionado especialmente por centros de dados ligados à inteligência artificial.

As informações foram divulgadas pela emissora pública NHK e publicadas pelo Valor Econômico, com base em uma minuta de política governamental que deverá ser apresentada pelo Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão em uma reunião sobre política nuclear nesta sexta-feira.

Segundo o documento citado pela NHK, o governo japonês pretende reconstruir entre duas e cinco usinas nucleares que chegarão ao fim de sua vida útil até a década de 2040. Em uma etapa posterior, a previsão é substituir entre 11 e 14 unidades até a década de 2050. Ao todo, o plano pode alcançar até 19 instalações nucleares reconstruídas ao longo dos próximos 25 anos.

Mudança após Fukushima

A proposta representa uma inflexão importante na política energética japonesa desde o desastre nuclear de Fukushima, em 2011. Após o acidente, o Japão desligou seus 54 reatores nucleares então em operação, em meio ao temor da população sobre os padrões de segurança da indústria nuclear.

Desde então, o país tem adotado uma retomada cautelosa da geração nuclear. Dos 33 reatores que continuam aptos a operar, 15 já foram religados. No ano passado, Tóquio revisou sua política energética básica para ampliar ao máximo o uso da energia nuclear, diante de pressões econômicas, climáticas e de segurança energética.

A reconstrução de usinas no fim da vida útil surge como resposta a um problema estrutural: muitos reatores japoneses estão se aproximando ou já ultrapassaram seus limites operacionais de 60 anos. Mesmo com a reativação gradual de unidades paralisadas, o envelhecimento da infraestrutura pode reduzir a capacidade nuclear do país nas próximas décadas.

Previsibilidade para empresas de energia

De acordo com a NHK, ao estabelecer metas concretas de substituição das instalações antigas, o governo japonês busca dar maior previsibilidade às empresas de energia. A sinalização é considerada relevante para viabilizar investimentos de longo prazo em um setor marcado por custos elevados, exigências regulatórias rigorosas e forte sensibilidade política desde Fukushima.

A proposta também reflete a preocupação do Japão com o alto custo das importações de combustíveis. Sem recursos energéticos abundantes em seu território, o país depende fortemente de combustíveis fósseis importados para abastecer sua economia. A ampliação da energia nuclear é vista pelo governo como um caminho para reduzir essa vulnerabilidade.

Além da questão econômica, o governo japonês também busca garantir estabilidade no sistema elétrico em um momento de transformação tecnológica. A demanda por eletricidade deve crescer de forma significativa nos próximos anos, especialmente com a expansão de centros de dados voltados à inteligência artificial, que exigem fornecimento contínuo e de alta capacidade.

Meta é elevar participação nuclear até 2040

Pelo plano energético atual, o Japão pretende elevar a participação da energia nuclear em sua matriz elétrica para cerca de 20% até o ano fiscal de 2040. No ano fiscal de 2024, essa participação foi de 9,4%, segundo os dados citados pela NHK.

A meta indica que Tóquio pretende mais do que apenas religar reatores paralisados: o governo quer reconstruir parte relevante de sua infraestrutura nuclear para sustentar uma fatia maior da geração elétrica nacional nas próximas décadas.

A minuta será discutida nesta sexta-feira antes de sua possível adoção formal em uma reunião ministerial prevista para ocorrer ainda neste verão no hemisfério norte. Caso seja aprovada, a política consolidará uma das mais importantes mudanças na estratégia energética japonesa desde o acidente de Fukushima.

Energia nuclear volta ao centro do debate

A decisão japonesa ocorre em um contexto global de reavaliação da energia nuclear. Países pressionados por metas de descarbonização, aumento da demanda elétrica e preocupações com segurança energética têm retomado discussões sobre a expansão ou prolongamento da vida útil de seus reatores.

No caso do Japão, o debate é particularmente sensível por causa do trauma de Fukushima. Ainda assim, o governo avalia que a combinação entre envelhecimento da infraestrutura, alta dependência de combustíveis importados e crescimento da demanda por eletricidade exige uma nova etapa da política nuclear.

Com a proposta, Tóquio pretende transformar a energia atômica em um dos pilares de sua segurança energética de longo prazo, combinando reconstrução de usinas, reativação de reatores aptos a operar e ampliação da participação nuclear na matriz elétrica.

Artigos Relacionados