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Pepe Escobar

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Como China e Paquistão podem entregar o verdadeiro acordo

China e Paquistão articulam acordo sobre o Irã em meio ao realinhamento geopolítico do Oeste Asiático

Xi Jinping e Donald Trump (Foto: Xinhua)
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O presidente Xi recebe o presidente Trump em Pequim. Menos de uma semana depois, ele recebe o presidente Putin: os dois assinam uma declaração conjunta estratégica apontando para uma reestruturação de fato do sistema de relações internacionais. No início desta semana, o presidente Xi recebe uma delegação de alto nível paquistanesa, da qual faz parte o marechal de campo Asim Munir, o principal mediador entre o Irã e os Estados Unidos.

Tudo isso está estreitamente interconectado. Além dos acordos relativos ao Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC), o carro-chefe entre os projetos das Novas Rotas da Seda, e dos acordos firmados entre Islamabad e a Alibaba, o fato é que o avalista silencioso dos fervilhantes trabalhos de mediação entre Washington e Teerã é a China.

A principal liderança paquistanesa, portanto, teve que ir a Pequim para explicar em detalhe todas as idas e vindas.

Fontes diplomáticas confirmam que Asim Munir, acabando de chegar de uma viagem de trabalho a Teerã, reafirmou ao presidente Xi que, da perspectiva do Irã, os compromissos assumidos pelos Estados Unidos não têm qualquer valor. O que é constantemente reiterado pelo porta-voz da chancelaria iraniana, Esmaeil Baqae.

Se um acordo, em algum momento, vier a ser assinado, portanto — seguindo-se a um possível avanço no memorando de entendimento (MoU), atualmente estagnado —, a assinatura da China é um imperativo absoluto. O mesmo se aplica à Rússia.

Enquanto isso, no frenético departamento das “idas e vindas”, o presidente Trump emitiu um absurdo ultimato a diversos países islâmicos, ameaçando retirá-los de “seu” acordo com o Irã — como se ele fosse o proprietário — caso eles não assinem simultaneamente os Acordos de Abraão.

Tradução: toda a guerra contra o Irã pode ter sido iniciada para, ao final, forçar o Oeste Asiático a normalizar Israel. O ministro da Defesa do Paquistão já recusou a ordem de Trump.

Uma investigação diplomática atualmente sendo conduzida — do Oeste e Sul Asiáticos até a China — revelou que um possível acordo Irã-Estados Unidos, apesar de tudo, ainda não morreu. Mas está entrando em sua fase mais delicada e perigosa.

Essencialmente, um acordo bastante substancial foi alcançado entre o Irã, os Estados Unidos, a Arábia Saudita e Qatar — mas não necessariamente com os Emirados Árabes —, tendo o Paquistão como principal mediador e a China oferecendo um sólido apoio, aceito por todos.

Os diplomatas esperam um anúncio formal já para as celebrações do Eid, que, em 2026, caem no próximo domingo, 31 de maio. O anúncio incluiria: um cessar-fogo total; uma reabertura do Estreito de Ormuz ainda não detalhada; a não cobrança de pedágio ou de taxas no Estreito, exigência que Teerã jamais aceitará; e o fim do bloqueio naval dos Estados Unidos.

Os diplomatas, então, preveem entre 30 e 60 dias adicionais de negociações frenéticas, levando a uma solução muito mais ampla e de longo prazo, incluindo a remoção das sanções, do congelamento dos ativos e o esclarecimento definitivo da questão nuclear.

Uma questão de confiança

Tudo isso pode soar fantasioso, mas vem de pessoas que atuam diretamente nas atuais negociações. Eles são praticantes de realpolitik — que esperam que Israel e todas as cepas do lobby sionista de Washington venham a aplicar desmedidas pressões visando a abortar e sabotar o processo: o que já vem acontecendo, refletindo o quão aterrorizado o eixo sionista está com o inexorável e iminente realinhamento estrutural geopolítico abrangendo a totalidade do Oeste Asiático.

Esses atores, por exemplo, contaram detalhadamente a forma pela qual o Paquistão e a China já vinham — muito discretamente — construindo o arcabouço diplomático, muito antes de Trump ter reconhecido a existência de negociações em seu característico modo vociferante das postagens no Truth Social.

Eles apontaram também que a Arábia Saudita e o Qatar vinham tentando exaustivamente convencer Trump a se afastar da armadilha da escalada, enquanto a mídia convencional dos Estados Unidos ainda estava obcecada com cenários de bombardeio.

Agora todos nós sabemos que Trump só anunciou o “seu” acordo depois de conversar com os líderes do Paquistão, Arábia Saudita, Qatar, Turquia, Egito, Jordânia, Bahrain e até mesmo dos reticentes Emirados Árabes, um aliado de fato de Israel: “Os aspectos finais e o detalhamento do acordo estão sendo discutidos e serão anunciados em breve” (Trump no Truth Social, em 23 de maio).

Do outro lado, temos o Irã estrategicamente apoiado por Paquistão, China e Rússia, avesso a rompantes teatrais à la Hollywood e focado unicamente em fatos objetivos.

A liderança iraniana — em especial o círculo mais próximo em comunicação direta com o líder Mojtaba Khamenei — realmente quer uma solução negociada, dispondo-se até mesmo a fazer concessões ao longo do processo, mas nunca a abdicar da soberania.

Como seria previsível, o principal obstáculo é a confiança: ninguém em sã consciência poderia confiar em Trump, que é visto como impulsivo, volátil e indigno de qualquer confiança no nível institucional.

Teerã, mais uma vez, não está interessada em outro acordo ao estilo do JCPOA, no qual todas as promessas foram quebradas.

Quanto àquilo que é passível de ser entregue, já se pode discernir pelo menos algum sinal de avanço no tocante aos ativos congelados iranianos. O imperativo de Teerã: sem mecanismos significativos, não haverá a assinatura de um Memorando de Entendimento. O que nos leva à frenética diplomacia multilateral atuando em Doha, que levará à iminente liberação de 12 bilhões de dólares dos ativos iranianos.

Os vazamentos vindos da Arábia Saudita quanto a um possível acordo — nada 100% confirmado — incluem a retirada das sanções sobre o petróleo iraniano e Teerã concordando em interromper o enriquecimento de urânio além dos mesmos 3,67% estabelecidos no JCPOA, destruído por Trump. Adicionalmente, Teerã poderia permitir que 400 quilos do urânio de alto enriquecimento a 60% fossem transferidos para o exterior, possivelmente China, Rússia ou mesmo Paquistão, mantendo 10% de seu atual estoque de material para uso quase bélico.

Enquanto isso, na vida real, Teerã continua a furar o bloqueio dos Estados Unidos, exportando, atualmente, cem mil barris de petróleo por dia a mais — principalmente para a China — em comparação com os níveis pré-guerra. Em questão de 72 horas, a Marinha da Guarda Revolucionária Islâmica permitiu a passagem de mais de cem navios-tanque pelo Estreito de Ormuz, sujeitos às regras da nova Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico (PGSA). Ninguém reclamou de ter que pagar a taxa que pode chegar a dois milhões de dólares para os superpetroleiros. Em bitcoins. Nada de petrodólares.

O Oeste Asiático entra em uma nova era

Os riscos não poderiam ser mais altos. Mas, caso o atual arcabouço venha a sobreviver aos próximos dias, toda a arquitetura geopolítica do Oeste Asiático terá mudado por completo. E não terá sido por acidente que ela estará totalmente alinhada com as prioridades traçadas na declaração conjunta Rússia-China.

Examinemos, portanto, os principais resultados:

  • A China está definitivamente posicionada como a nova e duradoura âncora geoeconômica do Oeste Asiático.
  • O Paquistão surge como um importante mediador em questões diplomáticas e de segurança, exercendo um papel ativo de “guarda-chuva de segurança”, em consequência direta de seu pacto militar com a Arábia Saudita.
  • As petromonarquias do Golfo alcançam de fato uma maior independência estratégica em relação a Washington.
  • O Irã não apenas não capitula como também colhe o espólio de aplicar a estratégia militar de mosaico descentralizado e de recalibrar todos os aspectos de sua resistência soberana, surgindo como uma importante potência regional e como uma das grandes potências da Eurásia.
  • Aquele culto à morte do Oeste Asiático, viciado em genocídio e em fronteiras sempre em expansão, perde sua capacidade de ditar a dinâmica da escalada.

Tudo o que foi dito acima explica a razão pela qual a luta feroz travada em torno do acordo, em todos os seus aspectos, será um vale-tudo, em especial nos próximos dias.

Um resultado provisório auspicioso aponta para um Memorando de Entendimento escalonado, destinado a pôr fim imediato à escalada — adiando as praticamente intratáveis questões nucleares e de sanções para etapas posteriores das negociações.

Portanto, para chegar a esse Santo Graal, um “Acordo de Islamabad”, o Paquistão tem pela frente uma tarefa de Sísifo.

O país terá que pegar pesado ao conectar o engajamento direto militar e de inteligência com as altas autoridades iranianas, coordenar estrategicamente com a China — foi esse o objetivo dessa crucial visita a Pequim na segunda-feira —, tratando de garantias e cadeias de suprimento de energia e da arquitetura pós-conflito, e manter consultas ininterruptas com as petromonarquias do Golfo.

A China, inevitavelmente, será a grande vitoriosa caso venha a haver um Acordo de Islamabad. Pequim garante o fornecimento estratégico de energia, preserva e fortalece o Irã como parceiro estratégico importante e se consolida, no longo prazo, como o centro de poder geoeconômico no Oeste Asiático. E tudo isso sem disparar um único tiro.

Será oferecida a Trump, pelo menos, uma saída com algum grau de dignidade — que ele, inevitavelmente, selará como uma “Vitória”. Quanto à influência hegemônica sobre o Oeste Asiático, podemos falar de uma profunda negociação da ordem unipolar do pós-guerra — para dizer o mínimo.

Seria justo afirmar que Irã, China e Paquistão — a conexão Oeste Asiático/Sul Asiático/Leste Asiático — estão investindo tudo na possibilidade de um “Acordo de Islamabad” vir a se concretizar.

Esse desfecho, de fato, marcaria a transição definitiva da ordem pós-Guerra Fria para uma arquitetura geopolítica multipolar e de “indivisibilidade da segurança”, alinhada à Rússia-China, por todo o Oeste Asiático, com ramificações vastas e tentaculares por toda a Eurásia.

Tradução de Patricia Zimbres

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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