Competição e cooperação: o equilíbrio estratégico na nova etapa das relações China–Alemanha
Em meio à rivalidade tecnológica global, China e Alemanha mostram que competir e cooperar pode ser a chave para estabilidade e crescimento sustentável
A primeira visita do chanceler alemão Friedrich Merz à China ocorre em um momento de transformação da ordem política global e de aceleração da competição industrial. A presença de uma ampla delegação empresarial alemã deixa claro que, apesar dos debates na Europa sobre a chamada “redução de riscos”, a relação econômica entre China e Alemanha mantém um peso estrutural significativo.
A mensagem central da visita é simples: a competição aumenta, mas a cooperação continua sendo necessária.
Hoje, China e Alemanha já não representam economias em estágios distintos de desenvolvimento. Ambas são potências industriais com alta densidade tecnológica e sólidas capacidades manufatureiras. Por isso, sua interação se move em uma lógica dual: competição e cooperação avançam em paralelo.
Em setores como mobilidade elétrica, baterias e automação industrial, empresas dos dois países competem diretamente. A China conta com cadeias de suprimento altamente integradas e ciclos de inovação acelerados; a Alemanha, por sua vez, mantém vantagens consolidadas em engenharia de precisão, padrões industriais e equipamentos avançados. Essa competição não é um confronto, mas o resultado natural da convergência entre duas economias maduras.
O relevante é que a competição não eliminou a complementaridade estrutural.
As empresas alemãs não se retiraram do mercado chinês diante de maiores pressões competitivas. Pelo contrário, cada vez mais companhias consideram a China um centro de inovação, e não apenas uma base produtiva. Centros de pesquisa e desenvolvimento se expandem e alianças tecnológicas se aprofundam. Ao mesmo tempo, empresas chinesas continuam incorporando a experiência alemã em manufatura avançada e engenharia de sistemas.
A inovação, cada vez mais, flui em ambas as direções.
Para a América Latina, a evolução da relação China–Alemanha tem implicações concretas. Em um contexto de reconfiguração das cadeias globais de valor, a transição energética e a digitalização tornaram-se eixos centrais do desenvolvimento econômico. O XV Plano Quinquenal da China impulsiona uma estratégia baseada na inovação e na transformação verde, que abrange energias renováveis, eletrificação do transporte, desenvolvimento do hidrogênio e descarbonização industrial.
A magnitude dessa transição gera forte demanda por maquinário avançado, tecnologias ambientais e serviços industriais especializados. A Alemanha possui ampla experiência nessas áreas, enquanto a China demonstrou capacidade de comercialização rápida, integração digital e expansão eficiente em escala. A cooperação entre ambos pode gerar efeitos multiplicadores na economia global e abrir espaços de oportunidade também para os países do Sul Global.
Um ponto-chave é o chamado Mittelstand alemão — as pequenas e médias empresas que constituem a espinha dorsal do modelo industrial da Alemanha. Muitas delas são líderes mundiais em nichos tecnológicos altamente especializados. À medida que a China avança rumo a um crescimento de maior qualidade, surgem novas oportunidades em manufatura inteligente, equipamentos verdes, automação logística e componentes especializados. Uma maior participação dessas empresas fortaleceria a diversificação e a resiliência do vínculo econômico bilateral.
A relação entre China e Alemanha entra em uma fase mais complexa, mas também mais madura. O desafio não é evitar a competição, mas administrá-la dentro de um marco de abertura e confiança mútua.
Em um ambiente internacional marcado pela incerteza, quando duas grandes economias industriais optam por competir de maneira racional dentro de um esquema cooperativo mais amplo, contribuem não apenas para seu próprio desenvolvimento, mas também para a estabilidade do sistema produtivo global.
A competição aguça capacidades.
A complementaridade sustenta a cooperação.
Para a América Latina e o conjunto do Sul Global, uma relação China–Alemanha capaz de equilibrar esses dois elementos representa um fator adicional de estabilidade na economia internacional.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



